sexta-feira, 29 de julho de 2011

Para João

Depois que mudei três vezes de andar, encaixei o piano no estreito elevador e expus os quadros nus na praça central, em sobressalto de atraso, resolvi escrever. É verdade que ando distante de seus pensamentos... Isso me entristece, não por vaidade, mas sei; dentro desse deus-nos-acuda que é você, talvez você tenha, talvez você tenha: “tenha me esquecido!” E foi então que decretei luta corpórea contra o tempo e decidi dar um basta, não dá mais para ele ir se fazendo sem minha permissão. Nessa roda parada, ando desenhando pequenos atos em cartas de amor, mas não consigo deixar de achar que devo escrever sobre os cinco minutos da mulher antes de se levantar. Tracejar para você a textura do lençol sussurrando no lado de dentro das pernas e nos brancos leitos jorrados do corpo, refém dos mais guardados e aguardados desejos. Desejinhos, aliás, nessas horas não dá para exigir muito por trás da brancura que esconde os lábios mordidos, da sombra que escorrega pelas beiradas da pele dançante. Pelos saltando das pontinhas hirsutas da pele: um a um se erguendo lentamente, buscando brandas performances, sendo mais do que esconderijo da cútis. Peles e apelos em suspensão, as paredes-quatro implorando a retirada da mínima regatinha, para que partes encobertadas possam ser acariciadas pela mantinha fina, transparente e perigosa. Os pensamentos argutos impossibilitando que alguém bata à porta e se surpreenda com toda a intimidade exposta cheirando à manhã...  
Será que consigo? Será, João?