quarta-feira, 6 de julho de 2011

Nessa angústia pela velhice

Pedi para que ao menos trinta anos corressem, mas no vão fiquei exausta de tanto colocar a noz para trabalhar... Sentimentos assim madurinhos demoram tempos para serem nomeados. As marcas aparecem quanto mais distraída e exausta eu estiver...  
Sem resposta, desisti de mim.
O que gosto em você é essa vida que não se gosta, como um novelo de lã que já bordou um milhão de toalhas. Porque, meu amor, em cada veia-país das suas mãos tem um rio correndo. Cada pequena ruga dos pés até o último fio branco saltado em sua cabeça traduz a beleza de quem tanto construiu e desconstruiu. Quantas histórias-vidas, desencontros... Amores passados do ponto e os que ainda se escondem na saliva mais lenta, caída nessa última porta que deixou seu coração com dor; como sangue pisado.
Os seus filhos tão grandes, tão maiores do que eu. Meninos em que você desacretidou e, por excesso de amor, demorou a olhá-los como são. E agora têm os netos, as papinhas e aquela coisa de que a gente faz tudo para no fim voltar para o mesmo lugar.
Esses seus olhos tão densos, quantos segredos guardam e quantos já se perderam? Nessa sua conversa que começa de agora para frente e me deixa sem saber o que ficou para trás. Sem contar o sono que você diz ser sagrado, e eu querendo não dormir e funcionar sem parar, ficar como boba olhando seu corpo cansado e ouvindo seu jeito de dizer que vai cochilar; “só mais cinco minutos”.
O telefone no plano mais caro e com fio. A vitrola e os discos escutados sem o mínimo barulho das entranhas da porta. A música que transporta... Como um artista que leva seu público para outro lugar. O canto da transcendência e o tempo paralisado. Na música que para você não é ruído, mas movência sagrada.
 Será que um dia você vai me contar o que em forma está, será? Você disse que há coisas que não podem ser ditas... E caminho, assim, com esse silêncio de agudos e gritos de peles. Será a forma o que chamam de velhice? A mesma que é bela? De alma dançante, esperta, sabida... De marcas infinitas e olheiras rasgadas?
Você é como as muralhas de Machu Picchu e as moças diferentes do Rio de Janeiro... A cultura talvez dê tempo para correr atrás. Mas esse sentimento todo, esse todo sentimento do mundo, essa música de ritmo já relido... Qual será o original? Não adianta pensar porque quando me surpreendo com qualquer coisa, você me devolve a surpresa com risos de quem já sabia, e minha ânsia por envelhecer fica cada vez maior.
 Nessa época de vampiros insaciáveis, virei morcego para voar e tentar alcançar você e todo esse seu infinito dito particular.