terça-feira, 14 de junho de 2011

Trio

"Cada qual sabe amar a seu modo; o modo, pouco importa; o essencial é que saiba amar." Machado de Assis

Havia o silêncio nos olhos e uma trava no final da língua que não deixava nada engolir. Eram três estranhas. A intimidade uterina não lhes servia para nada, senão para se amarem e se desamarem com a mesma comoção. Não se olhavam nos olhos por medo, por forma igualmente rasgada e chorosa. Nos olhos, insistentemente neles, estavam as sobras de toda uma família que desmoronava em águas ancestrais e que embora houvesse, não havia por dentro. De sombra pesada e sorrisos, os caninos afiados também faziam parte igual desse trio, além do sentimento ancorado nas costas como paixão cristã, que parecia durar por toda uma vida.
Nem um almoço de domingo com vinho, aquele trazido pelo avô do sul, prometia em goles múltiplos amenizar a força que fazia os ombros dessas meninas, nada revelava doçura em palavra qualquer dita e que as fizessem irmãs. Afinal eram sim, não tinha como não serem. Havia uma realidade exposta mesmo sem verbo colocado. Talvez pelo ar, talvez pelo silêncio tácito da palavra que não podia ser dita e muito menos resolvida. Ah, eram irmãs assim.
No domingo cumpriam o calendário e a união, mas sem prece atrás das cadeiras. As meninas não rezavam, pois o tempo naquela escuridão foi Deus e passou uma massa corrida nas lembranças relembradas com dor. O tempo tivera então distraído toda a falta de enquadramento daquelas três que falavam nas entranhas do implícito amor; que o pai nunca tivera sentado na ponta mesa, nunca tivera discursado como um rei, nunca - nunca que elas se lembrassem.
          Na mesa sem direção, o pai parecia alertá-las depois do já acontecido, ele sabia ensinar, mas mudo assistia aos tropeços das meninas que tropeçavam cada dia mais e mais e mais. O tropeço tornou-se então o pai, mais atuante do que aquele senhor que tinha a razão e não a expunha, e que ainda assim era o homem que tanto condenava.
Errar é rotina para quem nasce ao contrário e de ponta cabeça é apresentado para o mundo. Para as meninas então... E, no entanto, elas tentavam não errar aos domingos. Não se pode arriscar no domingo. À tarde beijavam-se como de costume: numa rápida despedida e não com menos amor. Depois se trancavam, cada uma a seu modo, mas valendo-se daquilo que sempre tiveram em comum; do silêncio do que mais uma vez não foi dito e dum amor que não tem senão aquilo que se sente.