terça-feira, 31 de maio de 2011

Cinco e vão

É quando você menos merece e me assusta com sua confusão, quando meteoritos caem sobre esse lar. Nesse entra e sai de gente e, em vão, você me pede para esquecer. Quando você diz que sou sol e você lua, um entardece e o outro continua. Suas palavras imperdoáveis e não há nada a fazer. Digo que amo assim, você no sim, sem tempo de pensar em respiração.  

Pedras ancestrais das minas, chuva de granito no primeiro carro, água quente nas reservas, chope gelado no pinguim e quando cheguei... Lá se foi o trema. Cabelos crescendo, beijo pelas beiradas, café da manhã e violão; terra e seus errantes navegantes, Pessoa na pessoa e rosa no Rosa. Eu presa às vitrines, valsando lirismo. Você Clarice e eu Machado. Você blues e eu bossa. Você para dentro e eu para fora. Filho Miguel, filho Vicente, filho que ainda nem sente, mas ente virá como estrela cadente caindo no colo, espirrando leite nos colchões. 

Sem contar a forma, a norma, a sua língua domada, exata e seca e dura e, e, e. Será que dá para entender Mallarmé? Sem sentimentalismo, ai, mas e o conteúdo? Sua mente cansada de tanto de mentar, eu querendo ver tudo acabar num belo dia de amores e cachorros correndo pela praça, açaí na tigela e depois sono e sonho. Brigadeiro na colher e à noite quibe cru. Viagem a Paris, prêt-à-porter da Chanel e você quer visitar o Louvre. Romantismo há, ainda que... Sei não, como se ama por lá?

Mas se nessas e outras você precisar ir e eu ficar... Ah, não! Sou filha da revolução, tudo tem jeito para dar! Separação é coisa para quem ama de segunda vez, a minha é inteira primeira, certeira, sem ix, sem is, sem fim.   


sexta-feira, 20 de maio de 2011

Sobre Exposições

Uma tarde tediosa de sábado, sem programações na vida real, e muito menos na televisão. Entre um assalto a geladeira e outro, um pedaço de papel em cima da mesa de jantar lhe chama atenção. Não sabe quem o deixou ali, mas ao bater o olho sentiu que sua tarde de sábado estaria solucionada. Rapidamente tirou o pijama que vestia há mais de 12 horas, agasalhou-se para enfrentar o frio, e partiu.

O endereço era próximo, foi caminhando, era o típico de passeio que ela adorava, ainda mais com aquele clima propício. Chegou ao local, nunca o tinha percebido antes, era discreto, sem muito alarde, um pequeno anúncio na porta e a movimentação de poucas pessoas para o evento. Tal evento não era muito comum naquela região, era uma exposição de arte.

Logo na entrada conheceu o artista, um senhor de meia idade, cabelos grisalhos, olheiras fundas, barba por fazer, tinha seu charme...como todo artista. Com muita simpatia recebia a todos com um belo sorriso, e se oferecia para explicar um pouco o significado do seu trabalho. A maioria das pessoas não prestava atenção, ia direto para as obras, olhando-as com veemência, com urgência, com pressa para tirar conclusões.

Ela parou no salão principal, não olhou as obras, tampouco ouviu o artista e suas explicações ensaiadas...se prendeu na observação das pessoas que ali estavam, suas ações e reações. Ah, ela adorava observar o comportamento humano. Era gente de todo tipo e estilo, aqueles que sabiam exatamente o que faziam ali, provavelmente acostumados a tais ambientes e trabalhos, gente curiosa, gente que entrou por acaso, pais ensinando arte aos filhos, excursões de colégios e faculdades, amigos e familiares prestigiando o artista...e ela, filmando tudo.

De repente ela entendeu o significado da “exposição”. Não era exposição das obras, era o artista que estava exposto, escancarado, enquanto todos tentavam entender quem era este homem, como ele pensava e o que acontecia com ele. Ele se expressou através de tintas a óleo, de cores, de desenhos e rabiscos. Os visitantes o analisavam como se fossem seus terapeutas, o julgavam como se ele estivesse no banco dos réus, o qualificavam como se fosse um calouro. E ele? Ele tentava se fazer ouvido através de um sorriso tenso e palavras extraídas de um roteiro decorado para agradar o público.

Ela tentou ser diferente, olhar as obras sem pré-conceitos, segregando-as do senhor que ficara logo ali a poucos metros. Impossível. Ao olhar uma imagem de mulher chorando ela imagina se seria mãe, irmã, esposa, ex-namorada, amiga...e o motivo que a levara às lágrimas. Em uma paisagem bucólica anseia por saber se tal lugar tão belo realmente existe, e se fez parte da vida do senhor...talvez tenha sido criado lá, pensa intrigada. E assim foi, interpretando uma a uma, tentando não ser tão julgadora, coisa que outros na sala o faziam em alto e bom tom...de deboches a elogios exacerbados, cada qual igualmente pesados de serem ouvidos.

Ao sair, parabenizou o artista, e o fez de forma sincera, de coração. Não entende tanto daquele tipo de arte, apesar de ter gostado do que viu...porém mais do que isso, lhe parabenizou pela coragem de se expor a desconhecidos, de se abrir a interpretações alheias, de permitir palpites, críticas, elogios, e até mesmo ofensas. Ela sentia tanta dificuldade em lidar com isso nas atitudes, sentimentos e palavras inevitavelmente expostos no dia-a-dia, que o admirou demais por fazê-lo como profissão.

Seria este o verdadeiro trunfo da alma de artista? A capacidade de ser vidraça, vulnerável ao ataque de eventuais pedras, sabendo se defender e se reconstituir quando atingida? Ou até mesmo quando coberta de flores, ainda conseguir ser aquela vidraça original, simples e talentosa em sua função, sem desmerecer suas semelhantes que se encontram trincadas? Em meio a tais reflexões, vestiu o casaco e saiu caminhando rumo a sua casa...ela e sua discreta e medrosa alma de anônima.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Persona 1


Nem um blues, time keeps movin’on! Nem Chivas Regal para segurar o sono da meia-noite. Nada, nada. Nenhuma conversa desnuda, só medo do desejo. Será possível sobreviver à contaminação?  

Viver sem conviver com a desorganização, em concha. Tem medo de mim, de mim, de saber de mim? Quem é você? Sobram tantas suposições. Carro novo, roupa nova, trabalho surgindo em pencas na precariedade dos dias sem vazão. Trânsito caótico, aflição dormindo no ponto. Onde é que foram parar as vontades? Por que temos que nos esquecer daquilo que fomos de melhor? Por que não podemos ser ainda melhores do que fomos?

Será um viver em regressão? Fechar as portas que foram abertas, abafar as experiências, colocá-las num mostruário de fomes enredadas e nunca mais vividas. Não dá para zonear a zona de conforto? Você tem medo da dor? Dá para quebrar esse espelho? Dói mais com ele nos olhando todos os dias. Talvez se nos libertássemos dele, suportaríamos o corte e ficaríamos com as surpresas. Buscar a perfeição é fantasiar demais. Ser perfeito é uma fantasia?