sexta-feira, 1 de abril de 2011

Sobre Casas e Arrumações

Poeira, guardando as tralhas, limpando o chão, lavando a louça, varrendo o jardim...como junta sujeira em pouco espaço de tempo. A casa estava de pernas pro ar, muita bagunça, muita coisa fora do lugar, muito lixo para jogar fora...e ela nem tinha percebido como aconteceu este acúmulo de coisas, simplesmente um dia acordou horrorizada, sentindo um odor forte e incômodo, e saiu desinfetando, espanando, purificando.

Casa brilhando, cheirosa, arrumada. Pronto, ela podia sentar e desfrutar de um bom livro, um saboroso vinho, um papo gostoso com as amigas, uma paixão louca. Ainda não! Esse movimento de limpeza da sua morada não adiantou, ela ainda sentia sujeira interna, e não nas paredes, no piso, nos cantos, e sim dentro de si. Algo a incomodava muito e não eram seus cinco sentidos que reconheciam isso, vinha de dentro e passava batido ao espelho.

Começou a limpeza pelo cérebro, sentando na poltrona e insistindo no bom livro. Em minutos já o devorava, queria mais, e assim seguiu reciclando conhecimentos, deixando de lado velhos conceitos, permitindo a entrada do novo, do adequado ao momento atual. Como sentia falta disso, do saber, do buscar, do seu lado curioso abafado por teorias obsoletas. O mundo é tão vasto de idéias...para que continuar apegada a uma visão limitada das coisas, da vida, de tudo?

Se sentindo melhor foi para o próximo cômodo. Na verdade foi para o supermercado, a geladeira estava vazia e não suportava mais consumir produtos artificiais. Encheu o carrinho de sabores, cores e aromas, salivava imaginando o momento de chegar em casa e apreciá-los, junto com uma taça de vinho, entre uma página e outra de um dos livros. Ingerindo gostosuras, passou a exalar leveza, como se seu sistema digestivo agradecesse e enviasse boas energias pela corrente sanguínea para o restante do corpo, e este anunciava ao mundo.

Teve certeza que estava pronta para reorganizar seu jardim externo quando pegou sua agenda de telefones. A cada registro uma lembrança, uma saudade, uma vontade de interagir...o mesmo em suas redes sociais virtuais. Buscou aproximação com uma, duas, três, inúmeras pessoas. Incrível, todos também sentiam sua falta e aguardavam este contato, contaram novidades, o elo que os unia era exatamente o mesmo, independente da poeira empilhada pelo tempo de afastamento. Quando se trata de amigos de verdade não há idade, sexo, quilometragem ou incompreensão...eles são amigos, e este título basta.

Por último, e ainda um pouco resistente, chegou ao lugar mais importante e revirado, o seu quarto, o coração da casa. Abriu armários e selecionou roupas, mexeu nas gavetas e arquivou bilhetes, vasculhou cômodas e aproveitou peças que estavam sem utilidade, separou muita coisa que não lhe servia mais, abrindo mão e doando para quem lhes daria mais vida. Espirros alérgicos, sofrimento. Limpou pessoas que já haviam partido há tempos, mas que ainda ocupavam lugar precioso neste pequeno ambiente tão exclusivo. Algumas estavam encostadas, outras no meio do caminho, até machucando quando por ali passava a caminho da sua cama para encontrar seu sono...enfim, não deveriam mais estar ali.

Seu depósito ficou abarrotado, passou a chave na porta e depois a enterrou. A casa estava pronta para retomar o que nunca se foi e para receber novas histórias, para acumular novos ciscos...inevitáveis. Com renovações diárias, muita precaução e todo o tempo do mundo ela reinaugurou sua antiga residência. Desta vez mais atenta para que a faxina da alma ocorra periodicamente, na esperança de evitar o surgimento de marcas difíceis de serem removidas.