quinta-feira, 14 de abril de 2011

Luta temporal

Nem todo o amor do mundo suporta o amarelado que muitas vezes atribuímos ao tempo. Esse senhor que se não for reciclado, repensado, (re)apaixonado, (re)desejado é tão cruel. Esse professor que se lhe dermos poder, acabamos virando reféns de suas cordas esgarçadas, de seus gestos repetitivos aos quais aceitamos. Pois o tempo é ambíguo, nos fere a cara sem deixar de dar bom dia todas as manhãs.
O sol que começa antes mesmo de começarmos a pensar na vida, ou trocando em miúdos, a pensar no dia; causa-nos o efeito de possibilidades. Esse sol jovem, ardente, longe em espaço e perto em radiação, nos torna desejantes de um lugar ao seu lado - quem tem luz e lugar está com tudo. Em tempo, o menino rei é cúmplice do professor. Eles atuam juntos compactuando sedução e sabedoria.
Imbatíveis, não é mesmo? E nós “batíveis”, passíveis de revoltas marinhas, de contaminação, de cólera sempre a ser revisitada. Tão prontos para destruirmos qualquer possibilidade de amor ao próximo. Nós que muitas vezes cruzamos os dias sem percebermos o outro por distração, pela TV que nos esquecemos de desligar, pelo trânsito intratável... Nós que ao adquirirmos certo estrabismo, quando por instantes nos despertamos dele, nos traumatizamos e ficamos frágeis. Nós que por mais que almejamos sermos outros, somos tão humanos e há tempos erramos e pisamos no errado sem parar. E, como dói errar!
Febre, febre! Febre desse tempo que nos rege, desse sol que por encanto, sedução cortante rente à carne, expõe os nossos ossos sem protetor. É tempo de juventude condensada. A experiência agora é coisa pro futuro. O presente é presença rápida, as mentes se dissolveram no amarelado do tempo. Fecham-se todos os livros para assistirmos ao prazer transitório, à paralisia da modernidade.
Tem alguém ai? 


sexta-feira, 1 de abril de 2011

Sobre Casas e Arrumações

Poeira, guardando as tralhas, limpando o chão, lavando a louça, varrendo o jardim...como junta sujeira em pouco espaço de tempo. A casa estava de pernas pro ar, muita bagunça, muita coisa fora do lugar, muito lixo para jogar fora...e ela nem tinha percebido como aconteceu este acúmulo de coisas, simplesmente um dia acordou horrorizada, sentindo um odor forte e incômodo, e saiu desinfetando, espanando, purificando.

Casa brilhando, cheirosa, arrumada. Pronto, ela podia sentar e desfrutar de um bom livro, um saboroso vinho, um papo gostoso com as amigas, uma paixão louca. Ainda não! Esse movimento de limpeza da sua morada não adiantou, ela ainda sentia sujeira interna, e não nas paredes, no piso, nos cantos, e sim dentro de si. Algo a incomodava muito e não eram seus cinco sentidos que reconheciam isso, vinha de dentro e passava batido ao espelho.

Começou a limpeza pelo cérebro, sentando na poltrona e insistindo no bom livro. Em minutos já o devorava, queria mais, e assim seguiu reciclando conhecimentos, deixando de lado velhos conceitos, permitindo a entrada do novo, do adequado ao momento atual. Como sentia falta disso, do saber, do buscar, do seu lado curioso abafado por teorias obsoletas. O mundo é tão vasto de idéias...para que continuar apegada a uma visão limitada das coisas, da vida, de tudo?

Se sentindo melhor foi para o próximo cômodo. Na verdade foi para o supermercado, a geladeira estava vazia e não suportava mais consumir produtos artificiais. Encheu o carrinho de sabores, cores e aromas, salivava imaginando o momento de chegar em casa e apreciá-los, junto com uma taça de vinho, entre uma página e outra de um dos livros. Ingerindo gostosuras, passou a exalar leveza, como se seu sistema digestivo agradecesse e enviasse boas energias pela corrente sanguínea para o restante do corpo, e este anunciava ao mundo.

Teve certeza que estava pronta para reorganizar seu jardim externo quando pegou sua agenda de telefones. A cada registro uma lembrança, uma saudade, uma vontade de interagir...o mesmo em suas redes sociais virtuais. Buscou aproximação com uma, duas, três, inúmeras pessoas. Incrível, todos também sentiam sua falta e aguardavam este contato, contaram novidades, o elo que os unia era exatamente o mesmo, independente da poeira empilhada pelo tempo de afastamento. Quando se trata de amigos de verdade não há idade, sexo, quilometragem ou incompreensão...eles são amigos, e este título basta.

Por último, e ainda um pouco resistente, chegou ao lugar mais importante e revirado, o seu quarto, o coração da casa. Abriu armários e selecionou roupas, mexeu nas gavetas e arquivou bilhetes, vasculhou cômodas e aproveitou peças que estavam sem utilidade, separou muita coisa que não lhe servia mais, abrindo mão e doando para quem lhes daria mais vida. Espirros alérgicos, sofrimento. Limpou pessoas que já haviam partido há tempos, mas que ainda ocupavam lugar precioso neste pequeno ambiente tão exclusivo. Algumas estavam encostadas, outras no meio do caminho, até machucando quando por ali passava a caminho da sua cama para encontrar seu sono...enfim, não deveriam mais estar ali.

Seu depósito ficou abarrotado, passou a chave na porta e depois a enterrou. A casa estava pronta para retomar o que nunca se foi e para receber novas histórias, para acumular novos ciscos...inevitáveis. Com renovações diárias, muita precaução e todo o tempo do mundo ela reinaugurou sua antiga residência. Desta vez mais atenta para que a faxina da alma ocorra periodicamente, na esperança de evitar o surgimento de marcas difíceis de serem removidas.