terça-feira, 29 de março de 2011

Sobre o tempo ainda uma vez

O mistério do tempo é consumi-lo sem percebê-lo
É fazer-se infinito para não assistirmos a sua passagem
É fingir-se contar em anos em vez de momentos

Calendário, relógio, despertador, cronômetro
Engodo para idearmos prendê-lo, controlá-lo

Ampulheta, instrumento leal do tempo
Regressivamente, nos impõe a gravidade
De haver um último grão
Rabiscando na areia a nossa fragilidade

Mas o tempo é imparcial
Não distingue rico de pobre
Preto de branco, homem de mulher
Devora-se sem escolhas

Matar o tempo é matar-se sem sentido
Perdê-lo é viver em vão

Faz-se devagar nos maus momentos
Depressa quando o queremos

Ponteiro invisível da vida
Peça indispensável do fim

A sua fome é insaturável
A sua vontade é categórica
A sua procura é unânime

Se oculta nas sombras que se movimentam
Nos acessórios que não mais enquadram
Nas pessoas que nunca mais vimos
Na devassidão das frutas que não foram colhidas
Nas lembranças já deslembrada

Revela-se nas fotos que se desbotam
Nas cartas que amarelam
Nas crianças que crescem
Nas rugas que aparecem

Deixa-nos a esperança de Pandora
Nas ações dos que virão
No nascimento dos rebentos