sexta-feira, 18 de março de 2011

Prisioneira

Ela corre afoita, desesperada, busca uma porta, uma janela, um vão que seja...precisa fugir desta prisão. Não encontra saída alguma, nem alguém para lhe amparar quanto a seus questionamentos. Não sabe como foi parar nesta prisão de segurança máxima sem ao menos lembrar qual delito cometeu, se é que realmente o fez.

Paredes acinzentadas, uma imensidão vazia, mas a sensação de monitoramento, de observação de cada passo, cada gesto, cada palavra. O tempo todo. Sente um peso em cada osso do seu corpo, cada músculo, cada gordurinha, principalmente as que estão fora do lugar. Continua caminhando naquele pátio, vê ao longe muros altos intransponíveis, sabe que não será fácil escapar, para não se dizer impossível.

E ela, sempre tão correta em suas atitudes, volta a questionar o porquê desta prisão. Não quer escapar como uma fugitiva, quer provar sua inocência e conquistar sua liberdade, ela não é criminosa. Quando será seu julgamento? Quem é seu advogado, se é que ele existe...e afinal, o que ela precisa provar para o mundo? Ela sabe que até seus amigos e familiares olham-na de forma distinta, desconfiados, em uma expectativa eterna de que ela assuma sua culpa ou se prove inocente.

Pelos cantos daquela cadeia há lembranças espalhadas, momentos que viveu, coisas que ouviu, cenas que presenciou. A combinação de tudo fez com que ela estabelecesse regras de comportamento em que qualquer infração pode ser fatal e irreversível, trancando-a na solitária para repensar, e então em uma próxima vez, irá pensar muitas vezes antes de fazer qualquer coisa, condenando para sempre sua espontaneidade e vontade.

E nesta prisão ela está sozinha, o cerco se fechou em volta de si mesma, da sua cobrança e preocupação com a vigilância alheia. Se ela ousar e caminhar um pouco mais, notará que os portões não estão trancados, apenas encostados. As câmeras muitas vezes desligadas. Os julgadores imorais e sem poder para um veredicto. Seus amigos e familiares são ao mesmo tempo platéia e pronto-atendimento se necessário. Na verdade ela é seu próprio júri e carcereiro.

O olhar que ela sente é dela mesma, e não dos outros. Ela mesma deve se libertar, enfrentar o mundo como quiser e puder, e se alguém se incomodar ou julgar erroneamente pode ser sinal de uma liberdade ainda maior, sinal de que está no caminho certo do sucesso, da felicidade. O fato de atrair atenção para si tende a ser um bom sinal, mas não pode deixar que isto bloqueie sua trajetória, que a prenda. A prisão que ela vive diariamente é a sua própria mente, que a limita em algumas atitudes e que a julga sob uma lei que talvez só exista ali. Por que é tão difícil viver sem se preocupar? Para ela, o “Carpe Diem” de Horácio se encontra cada vez mais distante...