quarta-feira, 2 de março de 2011

Há uma vila ali, onde areja um vento bom e da varanda, quem descansa, sente gotinhas anunciando a tempestade das águas caída nas pedras. Da força da natureza vieram filhos fortes, seios fartos semeando um mundo melhor. O terceiro céu se mudou para lá. Quando anoitece não se vê estrelas, toda a esperança é anunciada nos olhos das crianças de idade, de cara e de jeito. As calçadas são riscadas com tijolo de construção, asfalto-espelho da casa dos meninos. Giz de cera para os dias de chuva, clássicos literários ensinam novos sonhos, o folclore dos medos são colocados no caldeirão e transformados em alimentos para o envelhecimento da alma. Lá o tempo resolveu tirar um cochilo até que o último livro seja fechado.

Para o frio que anuncia a madrugada, o fogo nas lenhas da lareira promete aconchego e união para histórias recriadas através da imaginação. E depois dos contos, há papéis pelo chão para serem registrados na língua de cada um. Não há aspiração de se escrever prosa, nem poesia, os riscos são escritos sem medo de risco. Não há conhecimento teórico, exploração de conteúdo que anuncia a enunciação. Lá a escrita nasce para o agora, como os bebês sorrindo para serem levados da maternidade. 

Quando as crianças crescem e assumem seus desejos, amam com os olhos, que desnudos descobrem braços, pelos, horizontes costurados nas mãos, alguns por vezes interrompidos e então refeitos na pele, nos apelos dos cílios que não precisam pensar para piscar. O amor é para os que querem descobrir o cheiro sem se preocupar com os dias, é vivido na perfeita intimidade com o silêncio dos toques, com o gosto e com a Bossa Nova tocada no café das manhãs de segunda-feira. Lá a bossa percorre os dias da semana anunciando o melhor do jazz que será, por fim, apresentado na quinta-feira no quiosque, lugar onde a música é para ser ouvida com os olhos fechados, e com a intensidade sonora equiparada ao fôlego do coração. 

Lá o mundo tem toda razão. Há certa comunhão entre as pessoas que buscam uma só vida, uma só morte, um só eu. Lá o sentimento de infância é postergado até que sejam fechados os olhos para uma vida em outro lugar, o que não significa sentar-se à mesa e bordar mais uma toalha de fim de semana, mas sim reviver a mesa e a vontade de chorar diante de tamanha beleza.