sexta-feira, 11 de março de 2011

Arcano II - O Sacerdócio Feminino


YIN

Talvez narrativas fiem vidas.
Talvez eu não tenha sido como me contei,
talvez nunca serei.
Talvez nem haja eu,
apenas a tecelagem contínua entre dois pólos -
cujo projeto
(que desconheço)
pulsa-me a traçar teias de associações arbitrárias
sentidos trans-lúcidos
dissipáveis pelo toque da dúvida como bolhas de sabão.

(Por trás do véu, a natureza sem foco
a noite, as coisas que acontecem
sem sentido ou intenção -
aqui se faz um mundo
outro ali, em outra oitava
... e o momento um acorde
dedilhado em terças e sextas
e não haja um maestro.)

Talvez os homens das ciências sejam certos
e o nosso multiverso seja órfão.
Talvez sejam mais loucos que os fanáticos da Sé.
Talvez seja só uma questão de abstração inútil
e as coisas façam-se porque assim são feitas
ou ao invés de aranhas sejamos primatas que descobriram o sentido
(ou a falta dele)
e houve um Alberto Caeiro.

Talvez nossa narrativa tenha enrijecido idéias,
platônicos discretos exilados na ponta do iceberg.
(Talvez Apolo e Dionísio fossem gêmeos e a virgem tenha nascido do oráculo.)

Talvez os hindus estejam certos e um deus me sonhe
ou tudo seja o espelho e o tigre que são o mesmo
como Borges e Tirésias, que alertaram para a escuridão.

Talvez eu esteja errada,
talvez eu creia.
Teço um labirinto em que sei
e outro antigo em que me queimariam por saber
e outro em que me perco
e outro em que me acho
e outro em que sou nada
(e cada um com suas paredes
pretensamente sólidas,
pretensamente reais)
e o ato de tecer só faz contar
a natureza que se desdobra em mim -
a maior das minhas histórias e a inevitável,
e que talvez seja a poesia.

Teci mundos olhando para os antigos,
para os sonhos que me antecederam.
Teci veias para me enterrar na placenta
e redes hídricas e vermelhas para me reunir em alguém que,
nove meses depois,
foram chamar de um nome escandinavo.

Talvez seja a verdade última, o naufrágio,
e eu me derreta no oceano frio do mundo
como o gelo no copo do uísque do meu pai.
Talvez a vida me perpasse desgastando as paredes dos meus poros
e me leve em pó para o deserto quente onde o tempo nasceu
como naquele sonho desconexo,
e o tempo seja mesmo o deserto e o vento.

Ah, dançar com o talvez da Dúvida,
a deusa voraz por altares pagãos e epistemologia
como a noite faminta pelo dia.
Tolerar o calafrio do espelho na água da superfície
e mergulhar no frescor do desconhecido,
nos pios das corujas cegas, poetas da escuridão.

O peso do infinito, matéria-prima do fio
os deuses e a Certeza -
outra deusa duvidosa, enlouquecida em descrédito...
fiar-se com belos dedos, única âncora que há.