terça-feira, 29 de março de 2011

Sobre o tempo ainda uma vez

O mistério do tempo é consumi-lo sem percebê-lo
É fazer-se infinito para não assistirmos a sua passagem
É fingir-se contar em anos em vez de momentos

Calendário, relógio, despertador, cronômetro
Engodo para idearmos prendê-lo, controlá-lo

Ampulheta, instrumento leal do tempo
Regressivamente, nos impõe a gravidade
De haver um último grão
Rabiscando na areia a nossa fragilidade

Mas o tempo é imparcial
Não distingue rico de pobre
Preto de branco, homem de mulher
Devora-se sem escolhas

Matar o tempo é matar-se sem sentido
Perdê-lo é viver em vão

Faz-se devagar nos maus momentos
Depressa quando o queremos

Ponteiro invisível da vida
Peça indispensável do fim

A sua fome é insaturável
A sua vontade é categórica
A sua procura é unânime

Se oculta nas sombras que se movimentam
Nos acessórios que não mais enquadram
Nas pessoas que nunca mais vimos
Na devassidão das frutas que não foram colhidas
Nas lembranças já deslembrada

Revela-se nas fotos que se desbotam
Nas cartas que amarelam
Nas crianças que crescem
Nas rugas que aparecem

Deixa-nos a esperança de Pandora
Nas ações dos que virão
No nascimento dos rebentos

sexta-feira, 18 de março de 2011

Prisioneira

Ela corre afoita, desesperada, busca uma porta, uma janela, um vão que seja...precisa fugir desta prisão. Não encontra saída alguma, nem alguém para lhe amparar quanto a seus questionamentos. Não sabe como foi parar nesta prisão de segurança máxima sem ao menos lembrar qual delito cometeu, se é que realmente o fez.

Paredes acinzentadas, uma imensidão vazia, mas a sensação de monitoramento, de observação de cada passo, cada gesto, cada palavra. O tempo todo. Sente um peso em cada osso do seu corpo, cada músculo, cada gordurinha, principalmente as que estão fora do lugar. Continua caminhando naquele pátio, vê ao longe muros altos intransponíveis, sabe que não será fácil escapar, para não se dizer impossível.

E ela, sempre tão correta em suas atitudes, volta a questionar o porquê desta prisão. Não quer escapar como uma fugitiva, quer provar sua inocência e conquistar sua liberdade, ela não é criminosa. Quando será seu julgamento? Quem é seu advogado, se é que ele existe...e afinal, o que ela precisa provar para o mundo? Ela sabe que até seus amigos e familiares olham-na de forma distinta, desconfiados, em uma expectativa eterna de que ela assuma sua culpa ou se prove inocente.

Pelos cantos daquela cadeia há lembranças espalhadas, momentos que viveu, coisas que ouviu, cenas que presenciou. A combinação de tudo fez com que ela estabelecesse regras de comportamento em que qualquer infração pode ser fatal e irreversível, trancando-a na solitária para repensar, e então em uma próxima vez, irá pensar muitas vezes antes de fazer qualquer coisa, condenando para sempre sua espontaneidade e vontade.

E nesta prisão ela está sozinha, o cerco se fechou em volta de si mesma, da sua cobrança e preocupação com a vigilância alheia. Se ela ousar e caminhar um pouco mais, notará que os portões não estão trancados, apenas encostados. As câmeras muitas vezes desligadas. Os julgadores imorais e sem poder para um veredicto. Seus amigos e familiares são ao mesmo tempo platéia e pronto-atendimento se necessário. Na verdade ela é seu próprio júri e carcereiro.

O olhar que ela sente é dela mesma, e não dos outros. Ela mesma deve se libertar, enfrentar o mundo como quiser e puder, e se alguém se incomodar ou julgar erroneamente pode ser sinal de uma liberdade ainda maior, sinal de que está no caminho certo do sucesso, da felicidade. O fato de atrair atenção para si tende a ser um bom sinal, mas não pode deixar que isto bloqueie sua trajetória, que a prenda. A prisão que ela vive diariamente é a sua própria mente, que a limita em algumas atitudes e que a julga sob uma lei que talvez só exista ali. Por que é tão difícil viver sem se preocupar? Para ela, o “Carpe Diem” de Horácio se encontra cada vez mais distante...

sexta-feira, 11 de março de 2011

Arcano II - O Sacerdócio Feminino


YIN

Talvez narrativas fiem vidas.
Talvez eu não tenha sido como me contei,
talvez nunca serei.
Talvez nem haja eu,
apenas a tecelagem contínua entre dois pólos -
cujo projeto
(que desconheço)
pulsa-me a traçar teias de associações arbitrárias
sentidos trans-lúcidos
dissipáveis pelo toque da dúvida como bolhas de sabão.

(Por trás do véu, a natureza sem foco
a noite, as coisas que acontecem
sem sentido ou intenção -
aqui se faz um mundo
outro ali, em outra oitava
... e o momento um acorde
dedilhado em terças e sextas
e não haja um maestro.)

Talvez os homens das ciências sejam certos
e o nosso multiverso seja órfão.
Talvez sejam mais loucos que os fanáticos da Sé.
Talvez seja só uma questão de abstração inútil
e as coisas façam-se porque assim são feitas
ou ao invés de aranhas sejamos primatas que descobriram o sentido
(ou a falta dele)
e houve um Alberto Caeiro.

Talvez nossa narrativa tenha enrijecido idéias,
platônicos discretos exilados na ponta do iceberg.
(Talvez Apolo e Dionísio fossem gêmeos e a virgem tenha nascido do oráculo.)

Talvez os hindus estejam certos e um deus me sonhe
ou tudo seja o espelho e o tigre que são o mesmo
como Borges e Tirésias, que alertaram para a escuridão.

Talvez eu esteja errada,
talvez eu creia.
Teço um labirinto em que sei
e outro antigo em que me queimariam por saber
e outro em que me perco
e outro em que me acho
e outro em que sou nada
(e cada um com suas paredes
pretensamente sólidas,
pretensamente reais)
e o ato de tecer só faz contar
a natureza que se desdobra em mim -
a maior das minhas histórias e a inevitável,
e que talvez seja a poesia.

Teci mundos olhando para os antigos,
para os sonhos que me antecederam.
Teci veias para me enterrar na placenta
e redes hídricas e vermelhas para me reunir em alguém que,
nove meses depois,
foram chamar de um nome escandinavo.

Talvez seja a verdade última, o naufrágio,
e eu me derreta no oceano frio do mundo
como o gelo no copo do uísque do meu pai.
Talvez a vida me perpasse desgastando as paredes dos meus poros
e me leve em pó para o deserto quente onde o tempo nasceu
como naquele sonho desconexo,
e o tempo seja mesmo o deserto e o vento.

Ah, dançar com o talvez da Dúvida,
a deusa voraz por altares pagãos e epistemologia
como a noite faminta pelo dia.
Tolerar o calafrio do espelho na água da superfície
e mergulhar no frescor do desconhecido,
nos pios das corujas cegas, poetas da escuridão.

O peso do infinito, matéria-prima do fio
os deuses e a Certeza -
outra deusa duvidosa, enlouquecida em descrédito...
fiar-se com belos dedos, única âncora que há.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Há uma vila ali, onde areja um vento bom e da varanda, quem descansa, sente gotinhas anunciando a tempestade das águas caída nas pedras. Da força da natureza vieram filhos fortes, seios fartos semeando um mundo melhor. O terceiro céu se mudou para lá. Quando anoitece não se vê estrelas, toda a esperança é anunciada nos olhos das crianças de idade, de cara e de jeito. As calçadas são riscadas com tijolo de construção, asfalto-espelho da casa dos meninos. Giz de cera para os dias de chuva, clássicos literários ensinam novos sonhos, o folclore dos medos são colocados no caldeirão e transformados em alimentos para o envelhecimento da alma. Lá o tempo resolveu tirar um cochilo até que o último livro seja fechado.

Para o frio que anuncia a madrugada, o fogo nas lenhas da lareira promete aconchego e união para histórias recriadas através da imaginação. E depois dos contos, há papéis pelo chão para serem registrados na língua de cada um. Não há aspiração de se escrever prosa, nem poesia, os riscos são escritos sem medo de risco. Não há conhecimento teórico, exploração de conteúdo que anuncia a enunciação. Lá a escrita nasce para o agora, como os bebês sorrindo para serem levados da maternidade. 

Quando as crianças crescem e assumem seus desejos, amam com os olhos, que desnudos descobrem braços, pelos, horizontes costurados nas mãos, alguns por vezes interrompidos e então refeitos na pele, nos apelos dos cílios que não precisam pensar para piscar. O amor é para os que querem descobrir o cheiro sem se preocupar com os dias, é vivido na perfeita intimidade com o silêncio dos toques, com o gosto e com a Bossa Nova tocada no café das manhãs de segunda-feira. Lá a bossa percorre os dias da semana anunciando o melhor do jazz que será, por fim, apresentado na quinta-feira no quiosque, lugar onde a música é para ser ouvida com os olhos fechados, e com a intensidade sonora equiparada ao fôlego do coração. 

Lá o mundo tem toda razão. Há certa comunhão entre as pessoas que buscam uma só vida, uma só morte, um só eu. Lá o sentimento de infância é postergado até que sejam fechados os olhos para uma vida em outro lugar, o que não significa sentar-se à mesa e bordar mais uma toalha de fim de semana, mas sim reviver a mesa e a vontade de chorar diante de tamanha beleza.