sábado, 26 de fevereiro de 2011

Vida adulta - I


Rubi:
Por que não se aproxima?
Fica aí,
fóssil de memória, jóia adolescente.

Pérola:
Não gosto de você.
Parece que te faltam partes.

Rubi:
Que partes?

Pérola:
Membros fantasmas.
Avermelhou de estancar o sangue e finge que dor é dança.
Sou pedra preciosa viva e a mim você não engana:
sua carne já foi cortada.

Rubi:
Umas pedras adultas são divididas,
outras, amputadas
outras, o mundo lapida.
As mais jovens - como você, que cresce,
são contidas pela falta de espaço:
o mundo não tem lugar para todos os os pedaços.

Pérola:
Sinto em você o vazio do que era.

Rubi:
E eu, em você, do que poderia ter sido.
Não somos todos vazios?

Pérola:
Mas em você é um vácuo
que puxa tudo para dentro,
como se o centro encolhesse
para um núcleo escondido,
distante das periferias físicas
que brilham vermelho e bonito.
E eu, que cresço, me contenho,
enquanto você se exibe
para ser admirada.

Rubi:
Mas todos querem ser vistos,
necessário jogo do espelho.
Mesmo você, que precisou
que eu entendesse sua dor
para nela acreditar
(... a insegurança do mar).
Mas, diga:
por acaso sou muito diferente
do que é uma mulher, uma amiga
ou uma coisa viva qualquer?

Pérola:
Não.

Rubi:
Cobrar autenticidade de tudo é coisa de adolescência
que não exige Verdade do mundo,
mas parecença.
Nós duas somos pedras orgânicas
- eu fruto da Terra, você filha do sal:
as duas moldadas pelo tempo
(uma para fora,
outra para dentro).