quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Despedidas

       As despedidas são como tropeços para abertura de novas vidas, deixam cortes expostos, cicatrizes que por um desvio de esquecimento se fazem, desenham países no corpo. Nas despedidas nunca há o que dizer, os olhos ficam pequeninos e apertados, tudo é sentido profundamente e dá um gosto amargo na boca, saliva parada que desce apertada para a garganta e faz a fala gaguejar.
      Para os mais amorosos: abraços sem fim, estardalhaço de choro, adeus para o momento. Para os mais contidos: aperto de mão e sorriso com os lábios retraídos, saudade dolorida. O tempo é paralisado e quando viramos as costas - um caminho outro a percorrer, menos ansioso, menos vibrante, andança nova alimentada de coisa velha, de memória até, por que não dizer, arrependida.
     Se fôssemos menos humanos talvez desse para fazer tudo articulado, pensado. Reagiríamos finamente aos impulsos, amadureceríamos antes de amadurecer. Mallarmé dizia que tudo existe para acabar num belo livro, ainda que todas as páginas não tenham sido escritas. Vida, obra incompleta. Folhas brancas riscadas, com leve folhear, imagem-prenúncio, mas difícil para os personagens atuantes, para os que respiram vida.  
    As despedidas são carregadas de lembranças para sempre, sempre por um triz. Em suas possibilidades de cor, as fotos seguem sorrindo na gaveta, recortezinhos para dizer que foi bom. E caminhamos em nossa companhia e à mercê do tempo.
   Tempo para curar, tempo para amadurecer, tempo para recriar, tempo para desejar, tempo para amar, tempo para nascer e renascer. Tempo para sentir a falta, tempo para existir além da falta. Tempo para repensar, tempo-templo para o corpo. Sagrado tempo para se desfazer das despedidas. Tempo para não dizer nada, nem mesmo a verdade. Tempo para saber se foi feliz!