quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Amor em quatro atos

“O amor acontece para a gente desacontecer.” Mia Couto

A primeira vez que me lembro de ter amado e sabido foi aos três anos, quando acordada no berço encontrei minha mãe exausta na cama ao lado. Eu já sabia andar, pegar na colher, fazer xixi na pequenina privada amarela, mas ainda bicho de instinto e sem sonhos, antes da primeira possibilidade de me conhecer, resolvi levantar devagar e molhar a chupeta no copinho d’água que ficava na cadeira ao lado do berço. Os braços, embora roliços, passaram pelo pequeno vão, e assim pude sentir as gotinhas frescas fazendo ciranda na língua e esperar que mamãe acordasse. Ela tardou, eu ainda não sabia ver as horas, mas pelo tique e taque incansável do relógio, já havia tempo que estava ali esperando. Dessa vez, sem compaixão com o amor, resolvi abrir um berreiro, bem alto, acordar a malvada e requerer toda a atenção do mundo. Afinal, eu já estava com a fralda quase vazando e, sem perdão, gritei e chorei de soluçar. 

Na segunda vez que amei e chorei eu já sabia escrever. A professora, que tinha um cheiro estranho de mãe, sim porque minha cabeça dava para o sorrisinho final de seus seios e meu nariz sentia o quentinho do leite da amamentação, pediu de tarefa uma pequena redação de história imaginada. Levei as folhas de almaço na pasta preta com a lancheira em cima para não amassá-las, almocei e fiquei sozinha com o rapaz que pintava a sala de vermelho, mamãe dizia que ele a coloria para apagar os rabiscos de quando ainda fazíamos coisas sem pensar. Ele estava há dias em casa, e eu voltava da escola afoita para vê-lo. Quando sentada e perdida no movimento longo, preciso e suave, escrevi um texto caído, vertical, abstraindo saciedades e revelando pontinhos de desejo, não rápidos, mas leves como o pincelar, canto de amor que entendido pela escrita, nasceu nas folhas para dizer que amava. Sem cumprir a promessa de entregar algo inventado e inventando entreguei os escritos de quatro páginas para a professora, que bravíssima não acreditou que eu os tivesse realizado. O pior não foi a prova para recuperação que tive de fazer, e sim quando voltei da escola e todas as paredes já haviam sido refeitas e ele ido embora. Sem perdão, gritei e chorei de soluçar.  

            A terceira vez que amei eu já entendia um pouco de Shakespeare, observava as flores que sempre chegavam para as irmãs e roubava sem mais os cartões. Escutava Chico Buarque, tocava flauta e detestava o menino que sentava nos fundos da sala de arte e fazia caricatura das meninas. Um bobo qualquer que chegava todas as aulas suado e derrubava as folhas que escrevia no banco da igreja no chão, ele ria do meu romantismo e um dia, enraivecida decidi pegá-lo na contramão e dá-lhe uns tapas. O danado não me dava sossego, começou a fazer parte de toda a minha maneira interna de ser. E então eu não prendia mais os cabelos, tomava banho antes de ir para as aulas e já não fazia nenhuma tarefa, tornei-me uma aluna displicente, ausente dos diálogos. Um dia voltando para casa esse menino passou veloz, quase me derrubou e num ato rápido me beijou e correu para jogar futebol. Fiquei com um gosto salgado nos lábios e não contei para ninguém, na semana posterior o pai dele resolveu se mudar para a capital e eu o fiquei esperando embaixo do manguezal perto da igreja a tarde toda, mas ele não veio se despedir.

            Na quarta vez que amei, ainda com toda resistência e negação, compreendia um pouco do fazer literário e dissimulava amor, tesão, tristeza em tom experimental e deixava os escritos na gaveta. Buscava prazer em corpo estranho, buscava prazer contraditório na ideia que fazia do amor e numa dessas, despercebida, brigava com outra alma, outro ser, me irritava e dizia palavras de não querer e sentia pedaços de plenitude quando tocava em silêncio o objeto que amava. Num de nossos encontros nomeamos juntos e dissemos: “eu te amo”, sentimos vontade de unir as diferentes vidas, os aromas, as impressões diversas da alma. Depois de assumido o amor e desfeito a marginalidade, começamos a mandar um no outro, sem saber ao menos o que era posse. Eu já não me fazia minha e quando ele se afastava sentia a falta nos pés, era como se faltasse o caminhar. Já não possuía o meu próprio ser e me sentia idêntica daquele que antes era tão diversa. Eu não conseguia me definir e não conseguia o definir, já não sabia o que amava e por que amava.