segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Vida Adulta II




vivo em uma ampulheta
que me bombardeia a cabeça
com a poeira do tempo

fóssil de mim mesma
a cada final de dia
e a cabeça, uma ilha
nas dunas móveis no vento.

sentimento molha a terra
moldo o barro no divã:
apaguei a fogueira da noite
e vim cozinhar aqui dentro.

... tantos eus que nem me lembro.

e hoje, mudar um mundo
que já esculpiu minha vontade -
bendito silêncio das almas
pacificadas pela idade.

(barro moldado em vaso.)

respeito consagrado
ao santíssimo cruzamento
entre este tempo
e este espaço.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Vida adulta - I


Rubi:
Por que não se aproxima?
Fica aí,
fóssil de memória, jóia adolescente.

Pérola:
Não gosto de você.
Parece que te faltam partes.

Rubi:
Que partes?

Pérola:
Membros fantasmas.
Avermelhou de estancar o sangue e finge que dor é dança.
Sou pedra preciosa viva e a mim você não engana:
sua carne já foi cortada.

Rubi:
Umas pedras adultas são divididas,
outras, amputadas
outras, o mundo lapida.
As mais jovens - como você, que cresce,
são contidas pela falta de espaço:
o mundo não tem lugar para todos os os pedaços.

Pérola:
Sinto em você o vazio do que era.

Rubi:
E eu, em você, do que poderia ter sido.
Não somos todos vazios?

Pérola:
Mas em você é um vácuo
que puxa tudo para dentro,
como se o centro encolhesse
para um núcleo escondido,
distante das periferias físicas
que brilham vermelho e bonito.
E eu, que cresço, me contenho,
enquanto você se exibe
para ser admirada.

Rubi:
Mas todos querem ser vistos,
necessário jogo do espelho.
Mesmo você, que precisou
que eu entendesse sua dor
para nela acreditar
(... a insegurança do mar).
Mas, diga:
por acaso sou muito diferente
do que é uma mulher, uma amiga
ou uma coisa viva qualquer?

Pérola:
Não.

Rubi:
Cobrar autenticidade de tudo é coisa de adolescência
que não exige Verdade do mundo,
mas parecença.
Nós duas somos pedras orgânicas
- eu fruto da Terra, você filha do sal:
as duas moldadas pelo tempo
(uma para fora,
outra para dentro).

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Para um Raimundo

Não tenho aspirações nem vontades
escrever é uma maneira de estar só

Ou quando a lua se despe e acontece o silêncio dos grilos

O amor muda-nos com os olhos fechados
invasão concedida sem conceber

Do quintal da minha casa posso ver o universo
alcançar as esferas e nomeá-las como minhas

O mundo é do tamanho do que sou
e mais leve do que o peso na balança

A mim ensinou-me tudo
apontou-me que há o início das árvores quando olhamos para baixo
cutucamos fundo até encontrar a ponta de suas raízes

Mundo profundo olhado depois do asfalto

Vasto como o Raimundo que mora na esquina do meu cafezal
menino travesso com olhos de devoção

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Dificuldades...

Dificuldades...há quem as procure, há quem as evite, há quem as teme, há quem as ame. Ela pertencia à última categoria, amava a dificuldade, se sentia plenamente realizada com uma situação difícil, desafiadora. Entre milhões de ruas e travessas sempre preferiu estacionar entre obstáculos, que exigia uma manobra mais complexa, uma grande possibilidade de erro, mas que a pequena possibilidade de acerto lhe proporcionava uma fantástica sensação de que era capaz de conquistar o mundo.

O que lhe parecia fácil não a conquistava, não lhe prendia a atenção, não lhe ganhava, até desvalorizava, para dizer bem a verdade, desprezava. Homens caíam aos seus pés e ela os chutava para longe, queria o impossível, e se este em algum momento lhe tornasse plausível, não o queria mais.

Não gostava de cachorros, achava-os fáceis demais abanando a cauda mediante qualquer carinho, lhe fascinava os gatos que eram superiores aos apegos emocionais, e passavam esnobando quem pensava ser seu dono. Debochava de romances e novelas com final feliz, julgava-os irreais e tristes, para ela finais felizes não deviam ser nem final e nem felizes, mas seguidos por uma nova tarefa a ser cumprida, um novo obstáculo a ser ultrapassado, era isto que a alegrava e a mantinha viva.

Essa era ela, ao menos externamente, uma camada rígida e intransponível aos olhos de quem vê e não enxerga. Pois quando se tratava da maior dificuldade da vida ela temia tanto que se fechava em sua carcaça auto-defensiva. Evitava inclusive pronunciar a palavra com receio de contaminação, e quando o fazia nunca colocava em primeira pessoa, não se permitia. E deste temor derivavam outros que ela fingia não perceber, mas ao se fechar no seu quarto, a solidão não a deixava esquecer.

Admirada por suas infinitas qualidades, ela seguia deixando rastros de sucesso e louvores, e não se contentava, continuava em busca de novidades, de outras opções onde pudesse ir a luta e vencer. E aquele velho medo continuava camuflado, ignorado, apesar de cada vez maior com o passar dos anos. Até quando conseguiria escondê-lo? Não queria mostrar ao mundo que era uma mulher frágil como qualquer outra, suscetível a perdas, lágrimas e desilusões. Não, isso não.

Como alguém que não se comove em casamentos, não acha graça em comédia romântica, não se inibe diante de um olhar de desejo, não sonha com um galã pode saber o significado da palavra AMOR? Uma mulher que sabe tanto do mundo desconhece o melhor da vida? Duvido. Esse sentimento nasceu com ela, em cada lágrima de orgulho que proporciona a seus pais ela o sente, embora não o demonstre. Por toda a sua trajetória ele esteve presente, em seus atos beneficentes com os mais necessitados, em seus estudos e buscas por melhores resultados.

Não era esse amor que ela temia, era o amor passional, aquele de tirar o fôlego e passar madrugadas aos prantos olhando o telefone mudo que não se manifesta, o amor que dá rasteiras repentinas e que ao mesmo tempo em que faz flutuar também tira o chão. Temia desde antes do amor, temia a dificuldade de encontrá-lo, de amar sozinha, de amar errado, de não amar o certo. Era esse frio na espinha que sentia ao deitar sozinha em seus lençóis de algodão egípcio, o medo da vontade de sentir um sussurro no ouvido, uma mão entre os seus cabelos, um ronco inconveniente que com a convivência se torna familiar e indispensável.

Enquanto sua vida parecia fácil e exclusivamente repleta de coisas boas, ela sabia bem da realidade de seus limites humanos que não a permitia controlar o incontrolável, reconhecia para si mesma a existência de um sentimento novo, o de encarar barreiras a serem transpostas e não seguir em frente, o medo de amar e se entregar ao difícil, ao incerto, à loucura, à fraqueza: a dificuldade de encarar uma dificuldade.

Dificuldades...há quem as procure, há quem as evite, há quem as teme, há quem as ame...mas não há quem não as tenha.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Amor em quatro atos

“O amor acontece para a gente desacontecer.” Mia Couto

A primeira vez que me lembro de ter amado e sabido foi aos três anos, quando acordada no berço encontrei minha mãe exausta na cama ao lado. Eu já sabia andar, pegar na colher, fazer xixi na pequenina privada amarela, mas ainda bicho de instinto e sem sonhos, antes da primeira possibilidade de me conhecer, resolvi levantar devagar e molhar a chupeta no copinho d’água que ficava na cadeira ao lado do berço. Os braços, embora roliços, passaram pelo pequeno vão, e assim pude sentir as gotinhas frescas fazendo ciranda na língua e esperar que mamãe acordasse. Ela tardou, eu ainda não sabia ver as horas, mas pelo tique e taque incansável do relógio, já havia tempo que estava ali esperando. Dessa vez, sem compaixão com o amor, resolvi abrir um berreiro, bem alto, acordar a malvada e requerer toda a atenção do mundo. Afinal, eu já estava com a fralda quase vazando e, sem perdão, gritei e chorei de soluçar. 

Na segunda vez que amei e chorei eu já sabia escrever. A professora, que tinha um cheiro estranho de mãe, sim porque minha cabeça dava para o sorrisinho final de seus seios e meu nariz sentia o quentinho do leite da amamentação, pediu de tarefa uma pequena redação de história imaginada. Levei as folhas de almaço na pasta preta com a lancheira em cima para não amassá-las, almocei e fiquei sozinha com o rapaz que pintava a sala de vermelho, mamãe dizia que ele a coloria para apagar os rabiscos de quando ainda fazíamos coisas sem pensar. Ele estava há dias em casa, e eu voltava da escola afoita para vê-lo. Quando sentada e perdida no movimento longo, preciso e suave, escrevi um texto caído, vertical, abstraindo saciedades e revelando pontinhos de desejo, não rápidos, mas leves como o pincelar, canto de amor que entendido pela escrita, nasceu nas folhas para dizer que amava. Sem cumprir a promessa de entregar algo inventado e inventando entreguei os escritos de quatro páginas para a professora, que bravíssima não acreditou que eu os tivesse realizado. O pior não foi a prova para recuperação que tive de fazer, e sim quando voltei da escola e todas as paredes já haviam sido refeitas e ele ido embora. Sem perdão, gritei e chorei de soluçar.  

            A terceira vez que amei eu já entendia um pouco de Shakespeare, observava as flores que sempre chegavam para as irmãs e roubava sem mais os cartões. Escutava Chico Buarque, tocava flauta e detestava o menino que sentava nos fundos da sala de arte e fazia caricatura das meninas. Um bobo qualquer que chegava todas as aulas suado e derrubava as folhas que escrevia no banco da igreja no chão, ele ria do meu romantismo e um dia, enraivecida decidi pegá-lo na contramão e dá-lhe uns tapas. O danado não me dava sossego, começou a fazer parte de toda a minha maneira interna de ser. E então eu não prendia mais os cabelos, tomava banho antes de ir para as aulas e já não fazia nenhuma tarefa, tornei-me uma aluna displicente, ausente dos diálogos. Um dia voltando para casa esse menino passou veloz, quase me derrubou e num ato rápido me beijou e correu para jogar futebol. Fiquei com um gosto salgado nos lábios e não contei para ninguém, na semana posterior o pai dele resolveu se mudar para a capital e eu o fiquei esperando embaixo do manguezal perto da igreja a tarde toda, mas ele não veio se despedir.

            Na quarta vez que amei, ainda com toda resistência e negação, compreendia um pouco do fazer literário e dissimulava amor, tesão, tristeza em tom experimental e deixava os escritos na gaveta. Buscava prazer em corpo estranho, buscava prazer contraditório na ideia que fazia do amor e numa dessas, despercebida, brigava com outra alma, outro ser, me irritava e dizia palavras de não querer e sentia pedaços de plenitude quando tocava em silêncio o objeto que amava. Num de nossos encontros nomeamos juntos e dissemos: “eu te amo”, sentimos vontade de unir as diferentes vidas, os aromas, as impressões diversas da alma. Depois de assumido o amor e desfeito a marginalidade, começamos a mandar um no outro, sem saber ao menos o que era posse. Eu já não me fazia minha e quando ele se afastava sentia a falta nos pés, era como se faltasse o caminhar. Já não possuía o meu próprio ser e me sentia idêntica daquele que antes era tão diversa. Eu não conseguia me definir e não conseguia o definir, já não sabia o que amava e por que amava. 


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Sementes

(Para Anthônia)





E o momento canta.
Toca o tímpano,
pele fina

tambor do peito responde,
som grave dentro para fora
fundindo corpo e destino.
Convite do agora -
cheiro antigo,
vida nova.

Contorno novo,
desastre natural.
Terremoto abre fenda
estria a carne da Terra
espalha tsunami no em-torno:

para alguns, o final

... para outros, boa ferida
solo aberto para as sementes
dos frutos daquela fruteira.

(- Parecem natureza morta!

- Morte,
maquiagem escura da vida.)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Tat tvam asi

Os Limites do Materialismo
em: The Path to Enlightment - Dalai Lama (Trad. livre)

A dificuldade de uma interpretação puramente materialista da vida é que, além de ignorar uma dimensão inteira da mente, ela não lida efetivamente com os problemas da vida. Uma mente materialista é uma mente instável, pois sua felicidade é construída sobre circunstâncias transitórias, físicas. Distúrbios mentais são tão frequentes em pessoas ricas como em pessoas pobres, o que é uma indicação clara das limitações dessa perspectiva. Ainda que seja essencial manter uma base material razoável sobre a qual viver, a ênfase da vida deveria ser cultivar as causas mentais e espirituais da felicidade. A mente humana é muito poderosa e nossas necessidades mundanas não são tão grandes a ponto de demandarem toda nossa atenção, especialmente à luz do fato de que o sucesso materialista resolve apenas poucos dos muitos desafios e problemas que confrontam homens e mulheres durante suas vidas, e não faz nada por eles na morte.
Por outro lado, se as qualidades espirituais são cultivadas, como harmonia mental, humildade, desapego, paciência, amor, compaixão, sabedoria e assim por diante, então equipa-se com uma força e uma inteligência capazes de lidar efetivamente com os problemas da vida; e porque o que é acumulado é mental, e não material, não terá que ser deixado para trás na morte. Não há necessidade de entrar no estado pós-morte com as mãos vazias.
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Monólogo dialógico

- Quem é você?
- Sou a Erika.
- Bonito nome. E quem é você?
- Sou uma mulher, adulta, tenho 33 a...
- Você está me dizendo como você é. Mas quero saber quem é você.
- Sou psicóloga.
- Essa é sua atividade.
- Sou uma pessoa boa.
- Pare de se qualificar e me diga quem é você.
- ... sou humana...
- Esta é a categoria viva em que você se encaixa. Você pode me contar quem são seus pais, o seu passado, suas dores e suas vitórias, sonhos e desejos. Posso escutá-los um a um, mas continuo querendo saber uma coisa muito específica e você não consegue me responder: quem é você?
- Eu sou...
- Quem é esse "Eu" que fala?
- (...).



E você? Quem é você?


Tem alguém aí?
.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Despedidas

       As despedidas são como tropeços para abertura de novas vidas, deixam cortes expostos, cicatrizes que por um desvio de esquecimento se fazem, desenham países no corpo. Nas despedidas nunca há o que dizer, os olhos ficam pequeninos e apertados, tudo é sentido profundamente e dá um gosto amargo na boca, saliva parada que desce apertada para a garganta e faz a fala gaguejar.
      Para os mais amorosos: abraços sem fim, estardalhaço de choro, adeus para o momento. Para os mais contidos: aperto de mão e sorriso com os lábios retraídos, saudade dolorida. O tempo é paralisado e quando viramos as costas - um caminho outro a percorrer, menos ansioso, menos vibrante, andança nova alimentada de coisa velha, de memória até, por que não dizer, arrependida.
     Se fôssemos menos humanos talvez desse para fazer tudo articulado, pensado. Reagiríamos finamente aos impulsos, amadureceríamos antes de amadurecer. Mallarmé dizia que tudo existe para acabar num belo livro, ainda que todas as páginas não tenham sido escritas. Vida, obra incompleta. Folhas brancas riscadas, com leve folhear, imagem-prenúncio, mas difícil para os personagens atuantes, para os que respiram vida.  
    As despedidas são carregadas de lembranças para sempre, sempre por um triz. Em suas possibilidades de cor, as fotos seguem sorrindo na gaveta, recortezinhos para dizer que foi bom. E caminhamos em nossa companhia e à mercê do tempo.
   Tempo para curar, tempo para amadurecer, tempo para recriar, tempo para desejar, tempo para amar, tempo para nascer e renascer. Tempo para sentir a falta, tempo para existir além da falta. Tempo para repensar, tempo-templo para o corpo. Sagrado tempo para se desfazer das despedidas. Tempo para não dizer nada, nem mesmo a verdade. Tempo para saber se foi feliz!





terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Ás de espadas II



O Alan Parson's Project tem um trabalho baseado no tarô que é muito legal, vou postar mais aqui. Gosto do começo trovadoresco dessa música feita para o ás de espadas; me sugere a energia de um duelo medieval.




O ás de espadas tem esse tom metálico do desafio, do chamado para colocar a coragem mental em uso – aquela elaborada, menos quente e impulsiva do que a coragem imediata, reflexa. E os seus significados derivam do princípio de bravura que se mostra em um duelo: estratégia, coragem, rapidez mental, perspicácia, mas também nobreza e verdade. O que sugeriria a espada como um slogan antigo, pintado em um estandarte em uma feira da Idade Média*?




Segredinho que se aprende no tarô e se entende no naipe de espadas: essa carta, como todas as outras, pode ter outros significados quando vista por um outro prisma: no mundo simbólico, tudo depende do contexto. E tudo muda o tempo todo dentro de uma ordem intrínseca. O símbolo corre atrás de ideias, por isso não pode estacionar...
E vale farejar: é a segunda vez que o ás de espadas sai na mesa dessa casa. A pergunta mais interessante não é: "O que isso significa?", porque não significa nada, ainda: só passa a significar depois do eco afetivo. A melhor pergunta é: "O que mais pode ser conhecido/intuído/pensado a respeito do que é visto nesse símbolo?"
E aí as respostas são infinitas**.


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* Os filmes americanos em geral tendem a projetar uma Idade Média idealizada, limpinha (e este aqui nem pretende chegar perto do realismo). Decameron e o Contos de Canterbury, do Pasolini, são filmes que dão um gosto medieval bem mais próximo de como as coisas deveriam ser. Pra acabar com qualquer fantasia infantil com princesas da Disney, e criar outras mais interessantes.

** Questão do reino de espadas, o naipe mais temido do tarô: a reflexão, quando é orientada pela lógica, também pode ser infinita, como a matemática... Em espadas vemos a vida como quebra-cabeças e recortamos as peças para guardar na caixa da memória. Depois, as reorganizamos de inúmeras formas possíveis para se encaixarem com coesão no contexto presente. Nossa mente faz isso automaticamente, mas pode obedecer à nossa vontade consciente quando aprendemos a lidar com os pensamentos, que caminham em círculos ou em espiral – descendente ou ascendente. Então, podemos reconstruir as narrativas que nos amarram e criar outras, mais condizentes com nossos objetivos.
(Hm, em espadas também corremos o risco de confundir palavra com palavrório. Há que tomar cuidado para distinguir. No ÁS, princípio das cartas numeradas, a verdade ainda é o silêncio.)