quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Sobrevida

Não quero escrever nada para o futuro, aliás como será nomeado o futuro depois do futuro? Não vou deixar nada escrito para os que virão. Já tentei fazer escrita-prenúncio e não cheguei a lugar algum, deixo-a para os poetas e para os que produzem filmes de ficção científica. Estou presa à realidade e aos sentimentos. Aprisionada ao amor que sinto pela árvore da esquina de minha casa e que querem derrubar. A senhora tem 150 anos de história e está forte como nunca, cortá-la será como abandonar um passado de sombras confortáveis. Mas a ideia é deixar a calçada clean... De branco já basta a casa com estilo minimalista. A rua tem de ser verde de árvore, porque só a esperança nos leva para perto do céu com os pés fixados na terra. Voar é para passarinho, gente como a gente é pesada demais. Pesado e profundo de tanto pensamento. Ainda bem que eles não dão diferença na balança ou pelo menos não assumem a culpa, que acaba indo para as coisas palpáveis e com gostos previsíveis. 
Hoje não consigo fazer ficção. Tenho ideias para textos reais, mas não para a vida, embora sua intensidade me leve a espirrar, a ter febres altas e a tomar vitamina efervescente para curar os sintomas.
Ontem, quando você bateu a porta e disse que não dava mais, emudeci. O amor acaba e perdemos o movimento dos braços, aliás, não sabemos o que fazer com os braços, as pernas não respondem, não temos fome e quando não tem nada mais para olhar, fechamos os olhos e tudo parece não funcionar mais. Até a água que ainda fazia fluxo dentro da gente sai, fica construindo camadas que distorcem a visão.
Por que fizemos compras no final de semana? Cozinhar com você é íntimo demais, é como preparar partes de filhos... E depois tem aquele jazz que nos acompanha, o vinho português que nem é o meu preferido, mas que acabou sendo. Até aquela jaqueta marrom detestável não sai mais de mim.
Ando em simbiose com o mundo, vivendo dos 24 presentinhos dos 24 anos. Criei um estilo-aniversário, porque não quero magoar as pessoas e deixar que elas pensem que eu não gostei. Aliás, por que a maioria das pessoas dá algo que sempre se parece com elas? Ou que elas usariam. Não que eu ache que, para comprar um presente, deveríamos ficar estudando a personalidade do outro, imaginar o possível guarda-roupa... Sabe o que mais, não conseguimos nos desvencilhar de nós nem para comprar um presente. E fico usando aquela blusa com rosa na frente. Da rosa quero o cheiro e as camadas.
Deixa para lá.
Você foi embora e abandonou as coisas e a mim. Menti outro dia e hoje escrevo, do contrário estaria fazendo aspirações de poemas de amor e pedindo para você voltar, mas isso anda tão piegas nos dias de hoje... No entanto, escreveria coisa bem viva, até porque não entendo nada de poesia concreta, embora me esforce. Poesia concreta é prenúncio? E o nome do depois do futuro?  Bem, não vou me apropriar da literatura... Só penso em sua saída, que não tem nada de ótica futura. O vazio é pra já. E se eu ficar pensando que poderia ser diferente e que daqui alguns anos poderia estar bem, vestida de noiva na igreja preferida da mamãe...
Não quero fantasiar a realidade para me livrar dela.
Dessa vez vou deixá-la entrar, tomar conta de mim, doer bem forte e sobreviver. Haverá uma sobrevida! O sol está enlouquecido, é quarta-feira, a árvore ainda não foi derrubada e os móveis chegaram à Casa Verde.