sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Sobre Linhas

Despertador toca. Não é para acordar ainda, afinal é sábado, ela volta a se enrolar na cama, mas não consegue retomar aquele sono de antes, então decide levantar. Se espreguiça, dá um beijo no marido que ronca em alto e bom som, vai até o banheiro da suíte e encara o espelho, esboça uma careta: “será que alguma mulher no mundo se acha bonita ao acordar? Duvido!”. Escova os dentes, ainda meio sonolenta...pasta de dente lhe cai como um sonífero às vezes, abriu os olhos forçadamente, arregalando-os em frente ao espelho e foi aí que sua vida acabou.

O marido levanta assustado, corre para acudi-la sem saber ao certo o que teria acontecido, foi um berro alto, misto de surpresa, pavor, medo, horror...por que não de dor? Ele a encontra intacta, apesar da feição arrasada...seria uma barata ou qualquer outro inseto que mulher abomine? Ou seja, qualquer menos formigas...as pequeninhas. Não era, seu olhar de espanto era para o espelho, para ela mesma, para a mulher pela qual ele se apaixonou há tantos anos.

Não, não é a mesma mulher, afinal já são quase vinte anos desde aquele dia no aniversário de seu melhor amigo, quando entre um gole de whisky e outro de cerveja se fixou nos olhos da garota de blusa verde, ou azul turquesa, como ela diz. A versão dela também é menos romântica que essa, ela sempre foi mais realista do que ele. Ele estava bêbado, chato, ela quis matá-lo, ele quis embebedá-la, entre dar um gole ou uma facada, optaram por um beijo. Foi bom. Muito bom. Longo, dura há quase vinte anos.

Muitos outros momentos similares passaram, ele também já quis estrangulá-la quando trocou toda a mobília da sala em seu cartão de crédito, ela também já quis embebedá-lo para ver se falava menos sobre os problemas do trabalho. Quase deu uma garrafada nele quando aquelazinha da época da faculdade insistia em ligar no sábado a noite, ele a esfaqueava em pensamento quando a ouvia contar de suas aventuras na praia com as amigas. Apesar de tudo isso, os beijos foram bem mais constantes que qualquer atrito...o namoro, as crises de ciúmes saudáveis, os pequenos gestos, a cumplicidade nas noites intensas de tese do mestrado, o pedido de casamento, a viagem de lua de mel, vieram os filhos, tanta coisa boa viveram juntos. Não era a toa que durava quase vinte anos.

“Qual o motivo do grito?”- diz o cambaleante e esbaforido marido. Ao que ela se vira para ele, incrédula, abismada de que ele não sabia o motivo. Ele faz aquela cara de interrogação e desprezo que só os homens conseguem fazer quando ouvem algo relacionado ao universo feminino. Ela volta ao espelho, aquela linha continua lá, grudada, indisfarçável, penetrante, invasiva. Já não bastava aquelas outras brancas mais acima, que já a acompanham de uns anos para cá. Linhas malditas. Rugas, cabelos brancos, estrias, varizes, marcas de expressão. Sua vida estava acabada.

E então ele dá de ombros e volta para seus lençóis que estavam aguardando-o calorosos. Ela ainda encara aquela imagem, procura mais destas linhas, quer ter conhecimento da dimensão de seu inimigo. O pior é que ela sabe que ele é invencível. Esta guerra é perdida. Mas não as batalhas, ela pode prolongar um pouco sua derrota, pode recorrer a tropas de apoio que lhe ajudarão a combate-lo algumas vezes. Ela já faz isso com os fios brancos todos os meses.

Ok, cabisbaixa e ciente que sua vida está por alguns fios, volta a cama como alguém depressiva que escolhe não encarar a realidade do mundo. Ele, que ainda não caiu no sono profundo, reflete...ah, se ela soubesse que a única diferença que noto desta para aquela jovem de quase vinte anos atrás é a blusa verde que não existe mais. Ele crê que deve dizer algo a respeito, resolve abracá-la, ela resiste um pouco, está remoendo suas dores, e ele sussura: “Eu escolhi envelhecer ao seu lado, e você?”. Ela amolece, abre um sorriso, passa a mão no cabelo ralo e grisalho do marido, certa da decisão tomada há quase vinte anos. Cai em si da importância de cada linha, não são marcas, e sim marcos. Se for para viver tudo o que já passou, ela adoraria ser uma mulher listrada. Dormiram mais um pouco, afinal é sábado.