sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Reflexo das águas

Desacelera, estaciona, desliga o carro, puxa o freio de mão. Tarde da noite, hora de desligar o motor, nem acredita que chegou o encontro tão esperado com sua casa, seu quarto, sua cama. Ah como é bom deitar o corpo cansado, sentir cada osso e músculo esticar em preparação para aquelas horas mágicas de sobrevôo ao próprio corpo, o tão esperado sono. Ouve um barulho que aprimora ainda mais este momento. A água escorre em sua janela como se lavasse a alma, limpasse essa exaustão e abençoasse sua noite. Dormir com o som da chuva é delicioso, em poucos instantes o corpo entra em alfa e já era.

Entre sonhos e viagens, um choro, um incômodo. Vira e revira seu corpo, busca aquela paz que reinava há instantes, reorganiza travesseiros, empurra lençóis e coberta se descascando como cebola...não quer perder aquele momento prazeroso, não quer abrir os olhos por completo e encarar a vida real, mas o desconforto é cada vez maior, o som do choro cada vez mais alto em seus ouvidos, impossível ignorar por mais tempo.

O choro vem da janela, da mesma direção que vinha aquele ruído que a conduzia calmamente ao leito quando chegou em casa. Pasmem. A canção de ninar havia se transformado em pranto. O chuvisco que embalou seus sonhos agora judia da realidade. A água lavou a alma e limpou tudo. Tudo mesmo. Um choro contínuo, incessante, doloroso. A vida escoa por entre ruas que não são mais ruas, são margens de novos rios que se formam artificialmente, não foi a natureza que os criou.

Ela não entende. Mas afinal, quem chora? E por que chora? Será o choro da água vindo dos homens que lutam pelo seu mundo que a natureza devasta, ou será o choro da mãe natureza que luta pelo seu mundo que o homem devasta? Ela não tem a resposta, só consegue sentir a dor deste choro, seja qual for a sua origem.

A natureza é implacável, não perdoa, não diferencia hierarquia, títulos, idade, bem ou mal, demonstra seu poder sem piedade. Derrama suas lágrimas com a mesma intensidade com que faz pessoas sorrirem ao assistirem um pôr-do-sol de frente para o mar. A mesma água que embala sonhos os destrói.

Hoje o som que ela ouve vem do televisor que ela não apagou antes de adormecer, o dia de amanhã ela não sabe. Reconhece a impotência de todos perante a matriarca e tentará seguir suas regras, minimizar sua fúria...mas será o suficiente? Entre bilhões de filhos, ela será a preferida? Convivendo sobre o mesmo solo será difícil, ela se mistura aos outros, e mais uma vez sem proteção ou tratamento exclusivo. Desliga o aparelho, o silêncio é ainda mais aterrorizante, agora ouve sua mente, refletindo sobre os remédios que podem ser dados para esta dor, para aqueles que dela padecem. Assim como uma doença, medicamentos poderão amenizar e até curar, mas nunca impedirão que volte. É possível prevenir os erros que já foram cometidos?

Ainda não são águas de março, mas há promessa de vida em cada coração. Ela tenta dormir e acreditar em sua visão míope de que aquelas gotas ainda se referem apenas a uma canção de ninar. Mas quem consegue dormir com uma canção tão triste? Seu sossego nunca mais foi o mesmo, pois ela sabe que essa água irá refletir em vários rostos, olhares e troncos...e infelizmente sabe-se lá até quando.