quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Para os que não leram Shakespeare no original

Estou procurando, revirando no fundo, bem fundo, mas não há nada, nada que sirva. Abri o baú da pandora, as roupas não servem em meus personagens, além do mais está muito quente e tudo o que vejo são casacos, pele de coelho, pele de raposa, pele de crocodilo, pele de píton. Pelos de urso panda em extinção... Apelo nenhum me serve.

Hoje não!

Quero uma escrita nua, casa sem pintar, menino travesso pelado na beira do rio, menina magrela embaixo do sol na manhã de domingo, neném despertando de sono pesado, cachorro preguiçoso deitado nas folhas secas no quintal. Qualquer coisa que fuja da fórmula.

Ela vai existir sem mim. 

Nossos encontros acidentais sempre são tão intensos que dessa vez engravidei. Seu fluxo, sua lucidez surpreenderam o meu útero. E agora não sei o que fazer com essa nova vida. Preciso nomear as coisas em sacrifício de uma nova existência.  

A cama com poemas escritos a giz rabiscam as minhas costas, fazem arco-íris nos cabelos e refazem versos, rasgam os desejos já expostos e prenunciam paisagens que antes eram inabitáveis. 

Nada de novo e tudo por nascer. São tantas formas de se fazer, está certo que às vezes fico procurando conteúdo e me esqueço dos olhos horizontais, que salvam mais do que quando você abre os braços.

Amar sem depender, sem possuir, amar o que é livre. Perto de você o mundo é perfeito e dentro de você o mundo é algo a ser feito. Quando sou capaz de ouvir sua voz, tenho em mãos uma folha em branco e o maior sentimento do mundo.