domingo, 9 de janeiro de 2011

O tédio que move o mundo

É um daqueles dias chatos de rotina. Você está na frente do computador e sente um sono monótono. Boceja fundo, chega a doer os pulmões de tanto que alonga as costelas. Depois da longa expiração vem o relaxamento gostoso e então você abre os olhos.
No começo, nem se dá conta de que as coisas estão diferentes. Só milésimos de segundo depois é que nota que tem alguma coisa estranha.
O mundo não é mais o mesmo.
Você percebe quando tenta mover o seu mouse, e é como se ele sempre tivesse sido imóvel, como as pedras na praia. Você poderia segurá-lo com força, encostar os pés na parede e tomar impulso para trás, mas nem assim conseguiria movê-lo. Quando se dá conta disso, você percebe que está tudo silencioso.
Você tenta se levantar, mas a cadeira de rodinhas também está imóvel. Você tem que se contorcer para passar pelo vão estreito que ela faz com a mesa. De pé, no meio da sua sala de trabalho que sempre foi a sala de trabalho de mais outras pessoas, você olha em volta e percebe que tudo continua da mesma cor e com a mesma aparência, inclusive as pessoas, de pé ou sentadas. É como se tudo tivesse se transformado em uma estátua global de onde brotam tentáculos sólidos na forma de ventiladores, carros (você conseguiu olhar pelos vãos da persiana rígida) e um corpo imóvel suspenso no ar, provável suicida salvo da morte pela mineralização que parece ter acometido o mundo.
Você está perplexo. Sabe com o saber antigo, aprendido desde moleque, que não está sonhando, mas passa a desconfiar do que sabe. Para sair da sala precisa escalar seu chefe que está de pé na frente da porta como uma estátua para sempre, e não seria muito estranho se pensasse que isso é simbólico, mesmo frente à concretude absoluta.
Você caminha pelas ruas sem saber o que fazer. Começa a se desesperar, a seriamente se desesperar. Tenta bocejar de novo não sei quantas vezes, mas nada te dá sono suficiente. Tateia o próprio corpo com medo de tocar um mármore, mas sente a mesma autoconsistência de sempre. Isso não te deixa nem mais e nem menos confortável.
Você grita, EEEEEEEEEEI!, - como não pensou em gritar antes? Mas só depois de gritar é que se pergunta se existe alguém que o ouça, outro pedaço de carne que se mova confuso entre os granitos fúnebres.
Sente a boca seca e o coração dispara. Quer água, precisa de água, mas ela também se solidificou: você anda sobre a poça da esquina. Se estivesse em condições, usaria o sarcasmo para se comparar com cristo, mas você só consegue agradecer a deus por não estar chovendo na hora em que o mundo empedrou.
Você pensa em ir para sua casa, mas isso não faz o mínimo sentido, e eu bem que imagino o porquê. Testa a nova realidade mais uma vez, apertando as curvas daquela morena solene meio desequilibrada sobre os saltos, e só sente a matéria gelada. Você grita de novo, não sei por quanto tempo e nem você sabe, porque parece que o tempo também parou.
Você chora e continua chorando quando as gargalhadas começam a sair de você. Você, sei lá o que mais você faz. Já sei: você reza. Eu rezaria, talvez antes até, porque a fé dos céticos costuma ser a mais cega de todas - só muda o objeto de crença. Mas depois de todas as reações previstas e esperadas frente a situação tão inusitada, você pára. Não pode fazer mais nada além de tentar juntar-se, em não-ação, à rocha do mundo, às coisas, à espécie humana que se fossilizou no agora.
Tenta ficar parado mas tudo coça. De pé as pernas formigam, sentado os órgãos reclamam e deitado as costas doem, estendidas sobre a solidez do universo.
Você se lembra das técnicas de meditação que pode ter aprendido em uma trip esotérica do ano passado. Eu acho que me lembraria, mas sei lá mais o que pode significar o ano passado numa situação dessas. Você até poderia chegar à iluminação búdica porque o mundo está realmente parado e você tem tempo de sobra para infinitos nirvanas, mas você chora depois de pensar nisso. Chora até cansar.
Começa a olhar para a densidade das coisas. Sem pensar que está olhando e sem pensar que são coisas, porque elas não têm mais nome e são para sempre o que foram um dia e nem você mais tem olhos e tudo parece uma foto antiga e tudo vai ficar sempre assim como se o Alguém tivesse cansado de criar e pausado sua obra para mostrar para os donos de outros universos ou para inscrevê-la em um concurso de fotografia.
Tudo te dá um tédio. Um tédio tão fundo e visceral que você boceja. Longa, lenta e profundamente, chega a doer os pulmões de tanto que alonga as costelas.