sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Na Sala de Espera...

Sol, muito sol, meio dia no auge do verão. Dia útil, entra no carro fervendo e parte para aproveitar o horário de almoço e resolver assuntos particulares. No semáforo o garoto distribui papéis, pela coloração e estilo do material ela imagina que é algo que não irá lhe interessar, algo como balanceamento de carro ou novo restaurante natural...por que nunca distribuem descontos em sapatos no semáforo? Ela resolve nem abrir o vidro e correr o risco do seu ar condicionado escapar pela atmosfera fervente. Ao negar com movimento da cabeça e levantando a mão esquerda, não consegue evitar que seu olhar cruze com o do moleque suado que segue de janela a janela humildemente implorando para que aquela pilha de folhas esfarele...sentiu compaixão, mas era tarde demais.

Clínica abarrotada de gente, pega a senha e nem reclama, afinal tem convênio bom, sofre ao imaginar pessoas na fila sem atendimento, saúde não deveria ter hierarquia. Na sala de espera escolhe uma revista destas que não precisa pensar para ler, na verdade nem precisaria saber ler para compreender aquelas fotos de gente linda e feliz. Queria a cabeça livre. Claro que não consegue, coloca a revista de lado e passa a observar as pessoas, imaginar suas histórias, prever seus futuros, um de seus passatempos favoritos.

A primeira vitima de sua análise silenciosa é uma grávida, claro. Lembrou de uma amiga que em sua primeira gravidez quase brigou com uma mulher no restaurante que não parava de olhar para sua barriga, depois acostumou, é sempre assim, gerar um ser humano é um fascínio aos outros seres humanos. A grávida estava sozinha e sem aliança, ao chegar a sua vez se apoiou com dificuldade nos braços da poltrona e seguiu com o andar típico de uma gestante na boca do gol, mais de oito meses ela presumiu.

Um casal bem jovem, sentados lado a lado, não trocava uma palavra, mas estavam juntos. Havia uma tensão no ar, talvez um neném inesperado, ou seria preconceito dela julgá-los desta forma? Eles poderiam ser irmãos aguardando sua mãe que foi fazer uma consulta qualquer, e o silêncio entre eles denotaria o tédio desses afazeres necessários em família. Acha pouco provável, pareciam adolescentes surpreendidos pelo destino. Seus pensamentos e hipóteses foram interrompidos quando a sua senha apitou.

Por entre os corredores da clínica um homem barbudo andava de um lado para o outro em uma saleta enquanto outros sentados conversavam calmamente...sem dúvida ele é um futuro pai. Uma médica encostada no balcão escreve um prontuário enquanto reclama para a enfermeira das inúmeras horas que se encontra em plantão e sonha com o passar dos minutos faltantes para que seja liberada. Um senhor chora compulsivamente, ela rapidamente desvia daquela imagem, ele deve ter perdido alguém e ela não quer saber desta história agora.

Entra na sala e rapidamente realiza os exames. Ao sair faz o caminho inverso e chega à placa escrita: “Sala de Espera”. Filosofa sobre o fato de a vida ser uma grande sala de espera. Todos esperam sua senha no visor, seu momento. A grávida espera a bolsa romper, o momento do parto, o choro saudável de seu filho, uma possível reconciliação com seu progenitor. O casal jovem espera um exame negativo, uma falha no teste de farmácia, um aborto espontâneo secretamente desejado, ou mesmo que se preparem para a vinda de um elo eterno. O homem de barba espera o grito de “nasceu”, a entrega dos charutos, o filho em seus braços, as noites mal dormidas. A médica espera chegar em sua casa, colocar fim ás olheiras, uma noite de amor com seu marido ou quem sabe cair na balada. O senhor espera um milagre, ou quem sabe sua vida agora será esperar a morte e a ilusão de um dia reencontrar quem lhe deixou.

Ela retorna ao escritório e passa pelo mesmo semáforo, o panfleteiro continua lá, na espera pelo fim da resma e de poder participar do futebol com os amigos ainda esta tarde. Mesmo sabendo que aquele papel ficará por dias no banco do passageiro, ela abre a janela e colabora. Ao lado encontra jovens calouros que comemoram a aprovação no vestibular que tanto esperaram, pensa que muitos outros se encontram na fila de espera para que estes desistam da vaga.

Esperas, ásperas esperas. Esperar pode doer, mas esperar é não desistir. Segue seu dia normal, carregando consigo a espera pelos resultados do exame de fertilidade...ela espera uma ponta de esperança, espera a não vinda da decepção e espera um dia ser capaz de voltar àquela sala de espera, orgulhosa da sua espera.

Salvador Dali