segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Imperatriz


Nos símbolos tarô, as coisas se habitam
como aquelas bonecas russas:
a Lua é o Feminino que preenche as Rainhas (máscaras)
e que mora na Imperatriz
e em sua irmã, a Papisa.
A Papisa é o luar branco
e a Imperatriz é o queijo, matéria-prima das coisas
a carne do corpo
a boca do beijo
e a Natureza que se enfeita com os brincos de si mesma,
feitos de flores e pedras.

Seu ritmo é a paixão do peito e sua lógica, as sensações do corpo
e o sentimento é sua verdade biológica
(como a maternidade, mãe do que é sexual -
os estágios para o coito são motivos de vaidade:
ser atraente à distância, e então
receptiva e macia para as mãos,
e saber dançar o tango)
porque que a finalidade da vida é o tesão
treinado pela perpetuação da espécie:
gestação que reúne espirito e carne nas vísceras,
explosão do parto
criação amorosa de um outro saco de pele.

Hoje, no nosso ocidente,
a mulher já não é mais a sombra pequena do homem
e, além dos biológicos,
temos papel social legítimo
e profissão,
e podemos ocupar cargos administrativos.
Só que a nossa presidenta já foi alvo de piadas
devido à inadequação presidencial de seus atributos físicos:
é que do lado de cá (onde não se usa burca)
a estética padrão sufoca o jardim onde brotam
mulheres reais, nas quais
a beleza é consequência
e não máscara de diva que cobre o caminho das lágrimas.

Envelhecer não é fácil
e com os valores impostos é desesperador:
a mulher vai ser para sempre
uma ferida aberta
uma coisa que não foi
ou que se acaba para além das rugas do espelho
ou que já era e só murcha,
morta-viva
ou plastificada pela estética de um meio.

A Imperatriz é a Natureza encarnada
mulher boneca russa que mora dentro da terra
e no ventre de cada uma, e se veste com seus frutos
mesmo nos dias nublados,
e grita na tempestade
e compra flores para casa
e canta na primavera
e ri do engraçado das coisas, não só para mostrar os dentes
e se dá a quem ama
(ou só àqueles por quem sente o desejo de essência,
que virgindade se aprende).
A Imperatriz transcende os sentidos porque sabe os que navega
em si mesma,
como a Natureza dançando com brincos de flor e pedra
e se integrando a este mundo
por sentir que o mundo é Ela.