quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Eu não entendo nada de mundo

O mundo, meu amor, me estragou a saúde. É tão grande, plural, inatingível, pensamento itinerante na beira da praia. E de pensar, e de pensar, e de pensar, e de pensar... A minha cabeça, essa bola-grão em rotação mimética entorno sol, no sol do vão da janela que bate a todo instante, quase que, quase que adoeceu. 
Ontem tive uma alegria rápida, umas notas surgiram, depois de tanto trabalhar, na conta esquecida. Mas não foi trabalho concreto, coisa que aparece sabe, prédio na avenida principal, shopping novo, nada disso. Escrever é um meio de sobrevivência, folhas que voam sem ninguém perceber e que aquecem o chão da casinha do Totó, para não pensar no que mais podem servir. Mas o mundo quicou na minha cabeça e separou a vida de cada dia em caixinhas. Café da manhã, almoço e janta. Trabalho das 8 h às 18 h, extra de 50% para o tempo ultrapassado, banco de horas para quem quer viajar e resolver questões amorosas. Ai, que ingrata a organização que demos para o mundo!
Eu falava da alegria, mas já passou. Bateu na porta das contas atrasadas. E você fica ai, nada feliz. Será que isso de sorrir a toda prova é coisa de mulher? Porque me sinto tão sorridente desde que a torneira da cozinha parou de pingar sem ao menos precisarmos do encanador. Nada romântico a gente na sala assistindo pela décima vez Um Lugar chamado Notting Hill e a goteira na pia. Você reclama das minhas insinuações que escapam em forma de ruído, imagine essa água competindo com a da cozinha. Não dá. Sei que prefere o mundo a todos os probleminhas resolvidos sem esforço.
Nesses dias estava pensando que se você me deixasse e fosse procurar o mundo em outra mulher, o que eu faria? Ando tão acostumada com nossa vidinha, com o pastel na quarta-feira e o sorvete no sábado. Até com a bagunça da cama, já consigo me equilibrar na metadinha que dá para o ar que paira no chão. Você sempre espaçoso! Coisa de quem pensa no mundo. Não sei o que faria se meu vício fosse embora.
Pensar no mundo faz você perder o tesão? Sabe por quê? Quando penso no mundo e quero colocá-lo dentro de mim, ligo uma música bem alta e deixo a vida me levar, acompanhada da cervejinha do congelador. Ah, é tão bom! Mas você fica insatisfeito, pensando que poderia ter um trabalho melhor, que tem competência para estar na França, ou mesmo para estudar e nunca sair do lugar. Coisa do signo de libra, de quem lê o horóscopo diário, de quem se prende às superstições da terça e não resolve nada neste dia e, assim, contamina os outros.
Isso de ler Schopenhauer o deixou pessimista, sabe que mais, acho que você deveria acreditar em seus sonhos em vez de ficar pensando neles. A autoajuda é tão óbvia, mas faltam obviedades no seu pensar no mundo...
Bem, você dormiu! Eu fiquei sem o beijo noturno e o poema que cura do sono. Sei que não gosta de minha leitura, do meu ritmo, diz que é coisa de quem quer pensar diferente do que está lá (ou de você). Diz que tenho que aterrissar e que não entendo nada de mundo.
Priscila