sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Emergência

Alerta. Repetidamente insuportável. Sistematicamente soando, um após o outro, espaçadamente curtos e iguais, incessantemente...por mais insuportável e irritante que seja, é menos importuno que o silêncio. Aquele silêncio barulhento que não lhe permite saber o que acontece, não lhe dá alerta algum sobre a situação, não lhe indica nem o rumo do abismo.

Foi assim que ela se viu, entre alertas barulhentos e silenciosos. Na UTI o som não pára, tanto que ela se acostumou a ele, ouvia os novatos reclamarem, mas ela não o escutava mais. Acomodara-se àquela situação, não fazia esforços para melhorá-la, não reclamava, não buscava a saída da emergência.

Tão diferente daquela garota de outrora, que em meio à turbulência aérea gritou, rezou e chorou, como se lutasse bravamente para manter o avião estável, mesmo tendo ciência de que tais atitudes não alterariam a situação do vôo. Seu desejo não era morrer, até o fim não se entregaria. Se pudesse teria aprendido naquela mesma hora sobre aviação e tomado o lugar do piloto, mas não foi necessário tanto. A instabilidade climática se foi, e o pouso ocorreu normalmente. O alerta parou, e a situação de emergência passou.

Tantas outras como esta havia passado, por que se entregar agora? Ao longo da sua vida nunca desistiu, o vestibular não foi fácil, os relacionamentos, as perdas, as desilusões, as demissões. Sempre encarou e sobreviveu a todas, embora machucada, porém em pé, pronta para a próxima luta, o próximo alerta. O que mais a incomodava em todas as vezes era o próprio alerta, que diariamente lhe cutucava, e lhe obrigava a dar um passo a frente para que não a alcançasse, e assim foi.

Agora não sente mais nada, nunca esteve tão estável, deitada, monitorada, todos os dias passando exatamente como previstos, jamais teve tanto controle sobre sua vida. Lembrou de quando passava horas das suas semanas entre contas no papel de pão e decisões pessoais ou profissionais, se o dinheiro daria para o aluguel, se sobraria para arriscar em um novo investimento, se ligaria para resolver aquele antigo amor, se faria aquela tão sonhada viagem, se suportaria a dor do parto, se largaria o emprego por outro que lhe daria mais prazer, se casaria ou compraria uma bicicleta. Nunca sabia o dia de amanhã e implorava pelo dia que tivesse controle sobre tudo, que o amanhã viesse milimetricamente planejado, e este dia chegou. O alerta continuava, mas ela se recusava a ouvi-lo, se recusava a emergir da situação de emergência em que se colocara.

Do lado de fora as pessoas cansavam dos horários de visitas, sempre os mesmos, e encontravam a mesma imagem com os mesmos assuntos. Não entendiam o porquê de ela ficar tanto tempo ali, ela teve alguns problemas, mas não era para tanto. Aos poucos foram deixando de vê-la, não era agradável visitar alguém que estava entregue por conta própria. A sua doença era a falta de vontade de viver, ela não queria melhorar, preferia ficar ali a encarar um novo dia de incerteza. Cansou de sinais e alarmes de emergência, havia encontrado enfim sua tão sonhada zona de conforto, sem preocupações com amores, trabalhos, dívidas ou dúvidas. Porém havia esquecido um detalhe, aquele que é o mais incerto de todos: a morte. Entre as incertezas da vida, ela havia preferido esperar pela certeza da morte? E qual seria o compromisso na sua agenda neste dia, e no dia seguinte? Mais incerto impossível. Um horizonte de possibilidades a sua frente e ela escolheu a mais obscura de todas. Passar pela situação emergencial não foi sua opção...mas negar resposta ao alerta foi.