segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Dando as cartas

A partir de hoje, segunda-feira vai ser dia de tarô: uma carta para a semana.
Para a semana: o que isso significa? Uma carta de previsão, um aconselhamento, um aviso?
Um oráculo pode ser usado de muitas formas, questão de opção e preferência. Mas aviso que, como toda arte oracular, o tarô tem alguns efeitos colaterais complicados quando o seu uso não é constantemente questionado e revisto. Esses são os principais:
1. Se você espera que ele preveja o seu futuro, você corre o risco de acreditar em pedaços inanimados de papel e abrir mão do espaço infinito de possibilidades que o tarô não dá conta de alcançar (nada daria). Além disso, você pode começar a acreditar que tem o controle sobre o seu futuro, só porque acha que sabe o que vai acontecer (e você não teria controle nenhum, mesmo se soubesse).
2. Se você espera do tarô um aconselhamento, saiba que pode ficar sujeito às flutuações de humor, de disponibilidade, de bom gosto e de lucidez dos tarólogos, que são seres humanos comuns como você.
3.Se você tem a tendência de encarar uma carta como um aviso, cuidado especialmente com o uso nas épocas difíceis da sua vida, porque existe o risco da paranóia. E é um aprendizado difícil, esse de entender que os acasos não ocorrem como um sinal do mundo para você - eles acontecem porque acontecem, e você próprio é só mais um acontecimento ao acaso, entre tantos outros.
... Há que se tomar muito, muito cuidado para não projetar o caos interno em um baralho. E mais cuidado ainda com a superstição* , modalidade primitiva do pensamento que pode ser uma fonte de criatividade ou uma armadilha obsessiva.
Mas, então, para que serve o tarô?
Para muitas coisas, e vou escrever bastante sobre elas. Mas existe um uso especial, talvez o que mais se aproxime da magia com a qual é associado.


I have lived on the lip of insanity,
wanting to know reasons,
knocking on a door.
It opens.
I've been knocking from the inside!
**
(Rumi)

As cartas podem ser buraquinhos nas paredes do “eu”, através dos quais podemos espiar o jardim de possibilidades infinitas, o núcleo íntimo de todas as coisas, que fica lá fora das limitações ontológicas que colocamos a nós mesmos. Existem muitas formas de ver e experimentar este jardim, além da espiadelas pelos oráculos: podemos vê-lo através das janelas, como pela Arte, por exemplo; e pelas portas, como com sexo ou as drogas alteradoras de consciência. E também existe aquela ferramenta mágica da meditação, que desfaz o truque das paredes mostrando que elas são ilusórias. Mas o importante é perceber que o mesmo jardim que enxergamos pelo buraquinho de uma carta pode ser visto por meio de qualquer outra, o que muda é apenas o campo de visão: cada arcano mostra a partir de uma perspectiva, um viés. E toda perspectiva é parcial e válida.
Por isso, aquele pensamento “Mas e se...?”, bem recorrente durante os jogos de tarô (“Mas e se eu tivesse tirado outra carta?” “E se tivesse embaralhado mais uma vez?”, “E se tivesse vindo na semana passada?”, ...ad nauseam), não faz muito sentido para quem joga. Porque tarô não é ciência, é Arte.

Por isso, a posologia mais confortável é simples: ler para não saber, para descobrir e se inspirar. Para abrir as percepções ou aprender como abri-las. O tarô é um ótimo professor e um oráculo lindo, um dos meus prediletos - talvez pela iconografia baseada numa atmosfera medieval, que é uma paixão histórica pessoal. E tem uma estruturação conceitual (não consigo achar palavra menos blasé para me referir a isso, perdão, mas estou realmente tentando ser literal) que abre o pensamento para a liberdade das correlações. Só precisamos ficar espertos e nos lembrar que também corremos o risco de ser aprisionados quando ele se torna única referência de imagens a serem correlacionadas.
E, ironicamente – o tarô é um mestre da magia circunstancial! -, o primeiro arcano que aparece na mesa da nossa casa é o XVIII, a Lua. Será que se eu tivesse embaralhado mais...? :-)


LUA

(Em sincronicidade e gratidão a Anthônia.)


Das luzes da noite, a lua é a mais diferenciada. Encorpada, robusta, leitosa, ela é a grande rainha do céu, barriga solitária que incha e esvazia numa dança lenta, com as saias da noite a lhe cobrirem ou mostrarem os tornozelos. Enquanto as estrelas são pontos luminosos distantes, coletividade das formigas, a lua é uma figura geométrica próxima, indivídua, gorda, mocha, quase palpável, para onde podemos olhar diretamente e nos perder por horas e horas sem queimar a nossa visão.
Em um mundo natural, sem a eletricidade a nos esconder da noite, teríamos uma percepção diferente das coisas. À noite as pupilas se fecham, e o nosso senso da visão, que é dominante, cede lugar a sentidos mais primitivos – a audição e o olfato se orquestram mais alto, com maior nitidez. Mas acendemos as luzes para nos esconder do escuro, porque ele é o que não se sabe. Me lembro do apagão em São Paulo no 11 de novembro de dois anos atrás e o caos psíquico todo. Pudera... imaginem uma pessoa no centro dessa cidade em uma noite sem luz. A noite traz a realidade selvagem que se mostra só onde não pode ser reconhecida.

Mas não enxergar no escuro é tão orgânico quanto enxergar no claro e o dia também tem seus perigos, que temos a ilusão de poder controlar porque são visíveis. À noite as ilusões se despem e vem o medo não das coisas, mas de não vê-las. Não sabê-las. O que vai ser de mim, o que vai ser dos outros, o que vai ser de tudo, se eu não souber. Tememos a nós mesmos e à nossa ignorância.
Mas... tudo bem, não saber o que vai aparecer para ser vivido. Está tudo certo, tudo é assim mesmo, tudo como tem que ser. Não há nada de errado com o que é inconsciente. A ilusão é achar que podemos ou que temos que saber tudo: gera frustração, aumenta o medo e não permite que afiemos outros instintos mais sutis.
O segredo é entrar em contato com o “não sei” para transcendê-lo. Quando se aceita e se mergulha na escuridão, emerge o significado simbólico desse arcano: a Intuição. Modalidade yin de percepção, passiva, em que a mente receptiva apenas reflete as nuances dos estímulos: não sei mas sinto, ouço, intuo, e isso é suficiente para me guiar.
A intuição é um treino do silêncio, e há que se aproximar dela como de uma coruja arisca. (Comece cultivando uma curiosidade: como está a lua hoje? Você é capaz de perceber o quanto ela diminui de um dia para o outro, ampulheta no céu, relógio biológico?)



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* Selecionado pela evolução e presente até em pombas, sabiam?
** Tradução livre: Vivi no lábio da insanidade, querendo saber razões e batendo em uma porta. Ela abre. Eu estava batendo pelo lado de dentro!



PS: Para quem curte uma pegada diária, a Cacau, uma amiga querida de intuição afiadíssima, tem um blog muito gostoso, o Via Tarot. E para os das artes, recomendo Zoe em doses cavalares.