sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Emergência

Alerta. Repetidamente insuportável. Sistematicamente soando, um após o outro, espaçadamente curtos e iguais, incessantemente...por mais insuportável e irritante que seja, é menos importuno que o silêncio. Aquele silêncio barulhento que não lhe permite saber o que acontece, não lhe dá alerta algum sobre a situação, não lhe indica nem o rumo do abismo.

Foi assim que ela se viu, entre alertas barulhentos e silenciosos. Na UTI o som não pára, tanto que ela se acostumou a ele, ouvia os novatos reclamarem, mas ela não o escutava mais. Acomodara-se àquela situação, não fazia esforços para melhorá-la, não reclamava, não buscava a saída da emergência.

Tão diferente daquela garota de outrora, que em meio à turbulência aérea gritou, rezou e chorou, como se lutasse bravamente para manter o avião estável, mesmo tendo ciência de que tais atitudes não alterariam a situação do vôo. Seu desejo não era morrer, até o fim não se entregaria. Se pudesse teria aprendido naquela mesma hora sobre aviação e tomado o lugar do piloto, mas não foi necessário tanto. A instabilidade climática se foi, e o pouso ocorreu normalmente. O alerta parou, e a situação de emergência passou.

Tantas outras como esta havia passado, por que se entregar agora? Ao longo da sua vida nunca desistiu, o vestibular não foi fácil, os relacionamentos, as perdas, as desilusões, as demissões. Sempre encarou e sobreviveu a todas, embora machucada, porém em pé, pronta para a próxima luta, o próximo alerta. O que mais a incomodava em todas as vezes era o próprio alerta, que diariamente lhe cutucava, e lhe obrigava a dar um passo a frente para que não a alcançasse, e assim foi.

Agora não sente mais nada, nunca esteve tão estável, deitada, monitorada, todos os dias passando exatamente como previstos, jamais teve tanto controle sobre sua vida. Lembrou de quando passava horas das suas semanas entre contas no papel de pão e decisões pessoais ou profissionais, se o dinheiro daria para o aluguel, se sobraria para arriscar em um novo investimento, se ligaria para resolver aquele antigo amor, se faria aquela tão sonhada viagem, se suportaria a dor do parto, se largaria o emprego por outro que lhe daria mais prazer, se casaria ou compraria uma bicicleta. Nunca sabia o dia de amanhã e implorava pelo dia que tivesse controle sobre tudo, que o amanhã viesse milimetricamente planejado, e este dia chegou. O alerta continuava, mas ela se recusava a ouvi-lo, se recusava a emergir da situação de emergência em que se colocara.

Do lado de fora as pessoas cansavam dos horários de visitas, sempre os mesmos, e encontravam a mesma imagem com os mesmos assuntos. Não entendiam o porquê de ela ficar tanto tempo ali, ela teve alguns problemas, mas não era para tanto. Aos poucos foram deixando de vê-la, não era agradável visitar alguém que estava entregue por conta própria. A sua doença era a falta de vontade de viver, ela não queria melhorar, preferia ficar ali a encarar um novo dia de incerteza. Cansou de sinais e alarmes de emergência, havia encontrado enfim sua tão sonhada zona de conforto, sem preocupações com amores, trabalhos, dívidas ou dúvidas. Porém havia esquecido um detalhe, aquele que é o mais incerto de todos: a morte. Entre as incertezas da vida, ela havia preferido esperar pela certeza da morte? E qual seria o compromisso na sua agenda neste dia, e no dia seguinte? Mais incerto impossível. Um horizonte de possibilidades a sua frente e ela escolheu a mais obscura de todas. Passar pela situação emergencial não foi sua opção...mas negar resposta ao alerta foi.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Sobrevida

Não quero escrever nada para o futuro, aliás como será nomeado o futuro depois do futuro? Não vou deixar nada escrito para os que virão. Já tentei fazer escrita-prenúncio e não cheguei a lugar algum, deixo-a para os poetas e para os que produzem filmes de ficção científica. Estou presa à realidade e aos sentimentos. Aprisionada ao amor que sinto pela árvore da esquina de minha casa e que querem derrubar. A senhora tem 150 anos de história e está forte como nunca, cortá-la será como abandonar um passado de sombras confortáveis. Mas a ideia é deixar a calçada clean... De branco já basta a casa com estilo minimalista. A rua tem de ser verde de árvore, porque só a esperança nos leva para perto do céu com os pés fixados na terra. Voar é para passarinho, gente como a gente é pesada demais. Pesado e profundo de tanto pensamento. Ainda bem que eles não dão diferença na balança ou pelo menos não assumem a culpa, que acaba indo para as coisas palpáveis e com gostos previsíveis. 
Hoje não consigo fazer ficção. Tenho ideias para textos reais, mas não para a vida, embora sua intensidade me leve a espirrar, a ter febres altas e a tomar vitamina efervescente para curar os sintomas.
Ontem, quando você bateu a porta e disse que não dava mais, emudeci. O amor acaba e perdemos o movimento dos braços, aliás, não sabemos o que fazer com os braços, as pernas não respondem, não temos fome e quando não tem nada mais para olhar, fechamos os olhos e tudo parece não funcionar mais. Até a água que ainda fazia fluxo dentro da gente sai, fica construindo camadas que distorcem a visão.
Por que fizemos compras no final de semana? Cozinhar com você é íntimo demais, é como preparar partes de filhos... E depois tem aquele jazz que nos acompanha, o vinho português que nem é o meu preferido, mas que acabou sendo. Até aquela jaqueta marrom detestável não sai mais de mim.
Ando em simbiose com o mundo, vivendo dos 24 presentinhos dos 24 anos. Criei um estilo-aniversário, porque não quero magoar as pessoas e deixar que elas pensem que eu não gostei. Aliás, por que a maioria das pessoas dá algo que sempre se parece com elas? Ou que elas usariam. Não que eu ache que, para comprar um presente, deveríamos ficar estudando a personalidade do outro, imaginar o possível guarda-roupa... Sabe o que mais, não conseguimos nos desvencilhar de nós nem para comprar um presente. E fico usando aquela blusa com rosa na frente. Da rosa quero o cheiro e as camadas.
Deixa para lá.
Você foi embora e abandonou as coisas e a mim. Menti outro dia e hoje escrevo, do contrário estaria fazendo aspirações de poemas de amor e pedindo para você voltar, mas isso anda tão piegas nos dias de hoje... No entanto, escreveria coisa bem viva, até porque não entendo nada de poesia concreta, embora me esforce. Poesia concreta é prenúncio? E o nome do depois do futuro?  Bem, não vou me apropriar da literatura... Só penso em sua saída, que não tem nada de ótica futura. O vazio é pra já. E se eu ficar pensando que poderia ser diferente e que daqui alguns anos poderia estar bem, vestida de noiva na igreja preferida da mamãe...
Não quero fantasiar a realidade para me livrar dela.
Dessa vez vou deixá-la entrar, tomar conta de mim, doer bem forte e sobreviver. Haverá uma sobrevida! O sol está enlouquecido, é quarta-feira, a árvore ainda não foi derrubada e os móveis chegaram à Casa Verde.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Imperatriz


Nos símbolos tarô, as coisas se habitam
como aquelas bonecas russas:
a Lua é o Feminino que preenche as Rainhas (máscaras)
e que mora na Imperatriz
e em sua irmã, a Papisa.
A Papisa é o luar branco
e a Imperatriz é o queijo, matéria-prima das coisas
a carne do corpo
a boca do beijo
e a Natureza que se enfeita com os brincos de si mesma,
feitos de flores e pedras.

Seu ritmo é a paixão do peito e sua lógica, as sensações do corpo
e o sentimento é sua verdade biológica
(como a maternidade, mãe do que é sexual -
os estágios para o coito são motivos de vaidade:
ser atraente à distância, e então
receptiva e macia para as mãos,
e saber dançar o tango)
porque que a finalidade da vida é o tesão
treinado pela perpetuação da espécie:
gestação que reúne espirito e carne nas vísceras,
explosão do parto
criação amorosa de um outro saco de pele.

Hoje, no nosso ocidente,
a mulher já não é mais a sombra pequena do homem
e, além dos biológicos,
temos papel social legítimo
e profissão,
e podemos ocupar cargos administrativos.
Só que a nossa presidenta já foi alvo de piadas
devido à inadequação presidencial de seus atributos físicos:
é que do lado de cá (onde não se usa burca)
a estética padrão sufoca o jardim onde brotam
mulheres reais, nas quais
a beleza é consequência
e não máscara de diva que cobre o caminho das lágrimas.

Envelhecer não é fácil
e com os valores impostos é desesperador:
a mulher vai ser para sempre
uma ferida aberta
uma coisa que não foi
ou que se acaba para além das rugas do espelho
ou que já era e só murcha,
morta-viva
ou plastificada pela estética de um meio.

A Imperatriz é a Natureza encarnada
mulher boneca russa que mora dentro da terra
e no ventre de cada uma, e se veste com seus frutos
mesmo nos dias nublados,
e grita na tempestade
e compra flores para casa
e canta na primavera
e ri do engraçado das coisas, não só para mostrar os dentes
e se dá a quem ama
(ou só àqueles por quem sente o desejo de essência,
que virgindade se aprende).
A Imperatriz transcende os sentidos porque sabe os que navega
em si mesma,
como a Natureza dançando com brincos de flor e pedra
e se integrando a este mundo
por sentir que o mundo é Ela.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Na Sala de Espera...

Sol, muito sol, meio dia no auge do verão. Dia útil, entra no carro fervendo e parte para aproveitar o horário de almoço e resolver assuntos particulares. No semáforo o garoto distribui papéis, pela coloração e estilo do material ela imagina que é algo que não irá lhe interessar, algo como balanceamento de carro ou novo restaurante natural...por que nunca distribuem descontos em sapatos no semáforo? Ela resolve nem abrir o vidro e correr o risco do seu ar condicionado escapar pela atmosfera fervente. Ao negar com movimento da cabeça e levantando a mão esquerda, não consegue evitar que seu olhar cruze com o do moleque suado que segue de janela a janela humildemente implorando para que aquela pilha de folhas esfarele...sentiu compaixão, mas era tarde demais.

Clínica abarrotada de gente, pega a senha e nem reclama, afinal tem convênio bom, sofre ao imaginar pessoas na fila sem atendimento, saúde não deveria ter hierarquia. Na sala de espera escolhe uma revista destas que não precisa pensar para ler, na verdade nem precisaria saber ler para compreender aquelas fotos de gente linda e feliz. Queria a cabeça livre. Claro que não consegue, coloca a revista de lado e passa a observar as pessoas, imaginar suas histórias, prever seus futuros, um de seus passatempos favoritos.

A primeira vitima de sua análise silenciosa é uma grávida, claro. Lembrou de uma amiga que em sua primeira gravidez quase brigou com uma mulher no restaurante que não parava de olhar para sua barriga, depois acostumou, é sempre assim, gerar um ser humano é um fascínio aos outros seres humanos. A grávida estava sozinha e sem aliança, ao chegar a sua vez se apoiou com dificuldade nos braços da poltrona e seguiu com o andar típico de uma gestante na boca do gol, mais de oito meses ela presumiu.

Um casal bem jovem, sentados lado a lado, não trocava uma palavra, mas estavam juntos. Havia uma tensão no ar, talvez um neném inesperado, ou seria preconceito dela julgá-los desta forma? Eles poderiam ser irmãos aguardando sua mãe que foi fazer uma consulta qualquer, e o silêncio entre eles denotaria o tédio desses afazeres necessários em família. Acha pouco provável, pareciam adolescentes surpreendidos pelo destino. Seus pensamentos e hipóteses foram interrompidos quando a sua senha apitou.

Por entre os corredores da clínica um homem barbudo andava de um lado para o outro em uma saleta enquanto outros sentados conversavam calmamente...sem dúvida ele é um futuro pai. Uma médica encostada no balcão escreve um prontuário enquanto reclama para a enfermeira das inúmeras horas que se encontra em plantão e sonha com o passar dos minutos faltantes para que seja liberada. Um senhor chora compulsivamente, ela rapidamente desvia daquela imagem, ele deve ter perdido alguém e ela não quer saber desta história agora.

Entra na sala e rapidamente realiza os exames. Ao sair faz o caminho inverso e chega à placa escrita: “Sala de Espera”. Filosofa sobre o fato de a vida ser uma grande sala de espera. Todos esperam sua senha no visor, seu momento. A grávida espera a bolsa romper, o momento do parto, o choro saudável de seu filho, uma possível reconciliação com seu progenitor. O casal jovem espera um exame negativo, uma falha no teste de farmácia, um aborto espontâneo secretamente desejado, ou mesmo que se preparem para a vinda de um elo eterno. O homem de barba espera o grito de “nasceu”, a entrega dos charutos, o filho em seus braços, as noites mal dormidas. A médica espera chegar em sua casa, colocar fim ás olheiras, uma noite de amor com seu marido ou quem sabe cair na balada. O senhor espera um milagre, ou quem sabe sua vida agora será esperar a morte e a ilusão de um dia reencontrar quem lhe deixou.

Ela retorna ao escritório e passa pelo mesmo semáforo, o panfleteiro continua lá, na espera pelo fim da resma e de poder participar do futebol com os amigos ainda esta tarde. Mesmo sabendo que aquele papel ficará por dias no banco do passageiro, ela abre a janela e colabora. Ao lado encontra jovens calouros que comemoram a aprovação no vestibular que tanto esperaram, pensa que muitos outros se encontram na fila de espera para que estes desistam da vaga.

Esperas, ásperas esperas. Esperar pode doer, mas esperar é não desistir. Segue seu dia normal, carregando consigo a espera pelos resultados do exame de fertilidade...ela espera uma ponta de esperança, espera a não vinda da decepção e espera um dia ser capaz de voltar àquela sala de espera, orgulhosa da sua espera.

Salvador Dali

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Para os que não leram Shakespeare no original

Estou procurando, revirando no fundo, bem fundo, mas não há nada, nada que sirva. Abri o baú da pandora, as roupas não servem em meus personagens, além do mais está muito quente e tudo o que vejo são casacos, pele de coelho, pele de raposa, pele de crocodilo, pele de píton. Pelos de urso panda em extinção... Apelo nenhum me serve.

Hoje não!

Quero uma escrita nua, casa sem pintar, menino travesso pelado na beira do rio, menina magrela embaixo do sol na manhã de domingo, neném despertando de sono pesado, cachorro preguiçoso deitado nas folhas secas no quintal. Qualquer coisa que fuja da fórmula.

Ela vai existir sem mim. 

Nossos encontros acidentais sempre são tão intensos que dessa vez engravidei. Seu fluxo, sua lucidez surpreenderam o meu útero. E agora não sei o que fazer com essa nova vida. Preciso nomear as coisas em sacrifício de uma nova existência.  

A cama com poemas escritos a giz rabiscam as minhas costas, fazem arco-íris nos cabelos e refazem versos, rasgam os desejos já expostos e prenunciam paisagens que antes eram inabitáveis. 

Nada de novo e tudo por nascer. São tantas formas de se fazer, está certo que às vezes fico procurando conteúdo e me esqueço dos olhos horizontais, que salvam mais do que quando você abre os braços.

Amar sem depender, sem possuir, amar o que é livre. Perto de você o mundo é perfeito e dentro de você o mundo é algo a ser feito. Quando sou capaz de ouvir sua voz, tenho em mãos uma folha em branco e o maior sentimento do mundo.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Ás de espadas




Ás de espadas: a raiz do pensamento, Logos, verbo, exatidão. A mente afiada, analítica, que corta o que quer compreender em pedacinhos. Segmentar para conhecer.
Se conselho fosse bom, eu daria este: atenção à palavra, que ela comunica mas rasga.

Pra não deixá-los na mão, recomendo o texto da Zoe, sobre o ás de espadas. Peço desculpas aos leitores, mas é lua quase cheia e estou fechada para balanço. Escrever requer pensamento, Logos, verbo, exatidão, mas a mente analítica de cá está precisando de mutismo para sentir bem esses espaços desorganizados de começo de ano, e poder preenchê-los com coisas reais. Que a palavra e o pensamento, mesmo estruturados, às vezes podem esconder um palavrório inútil que não aponta para essência alguma.

Por aqui o silêncio agora é de ouro.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Reflexo das águas

Desacelera, estaciona, desliga o carro, puxa o freio de mão. Tarde da noite, hora de desligar o motor, nem acredita que chegou o encontro tão esperado com sua casa, seu quarto, sua cama. Ah como é bom deitar o corpo cansado, sentir cada osso e músculo esticar em preparação para aquelas horas mágicas de sobrevôo ao próprio corpo, o tão esperado sono. Ouve um barulho que aprimora ainda mais este momento. A água escorre em sua janela como se lavasse a alma, limpasse essa exaustão e abençoasse sua noite. Dormir com o som da chuva é delicioso, em poucos instantes o corpo entra em alfa e já era.

Entre sonhos e viagens, um choro, um incômodo. Vira e revira seu corpo, busca aquela paz que reinava há instantes, reorganiza travesseiros, empurra lençóis e coberta se descascando como cebola...não quer perder aquele momento prazeroso, não quer abrir os olhos por completo e encarar a vida real, mas o desconforto é cada vez maior, o som do choro cada vez mais alto em seus ouvidos, impossível ignorar por mais tempo.

O choro vem da janela, da mesma direção que vinha aquele ruído que a conduzia calmamente ao leito quando chegou em casa. Pasmem. A canção de ninar havia se transformado em pranto. O chuvisco que embalou seus sonhos agora judia da realidade. A água lavou a alma e limpou tudo. Tudo mesmo. Um choro contínuo, incessante, doloroso. A vida escoa por entre ruas que não são mais ruas, são margens de novos rios que se formam artificialmente, não foi a natureza que os criou.

Ela não entende. Mas afinal, quem chora? E por que chora? Será o choro da água vindo dos homens que lutam pelo seu mundo que a natureza devasta, ou será o choro da mãe natureza que luta pelo seu mundo que o homem devasta? Ela não tem a resposta, só consegue sentir a dor deste choro, seja qual for a sua origem.

A natureza é implacável, não perdoa, não diferencia hierarquia, títulos, idade, bem ou mal, demonstra seu poder sem piedade. Derrama suas lágrimas com a mesma intensidade com que faz pessoas sorrirem ao assistirem um pôr-do-sol de frente para o mar. A mesma água que embala sonhos os destrói.

Hoje o som que ela ouve vem do televisor que ela não apagou antes de adormecer, o dia de amanhã ela não sabe. Reconhece a impotência de todos perante a matriarca e tentará seguir suas regras, minimizar sua fúria...mas será o suficiente? Entre bilhões de filhos, ela será a preferida? Convivendo sobre o mesmo solo será difícil, ela se mistura aos outros, e mais uma vez sem proteção ou tratamento exclusivo. Desliga o aparelho, o silêncio é ainda mais aterrorizante, agora ouve sua mente, refletindo sobre os remédios que podem ser dados para esta dor, para aqueles que dela padecem. Assim como uma doença, medicamentos poderão amenizar e até curar, mas nunca impedirão que volte. É possível prevenir os erros que já foram cometidos?

Ainda não são águas de março, mas há promessa de vida em cada coração. Ela tenta dormir e acreditar em sua visão míope de que aquelas gotas ainda se referem apenas a uma canção de ninar. Mas quem consegue dormir com uma canção tão triste? Seu sossego nunca mais foi o mesmo, pois ela sabe que essa água irá refletir em vários rostos, olhares e troncos...e infelizmente sabe-se lá até quando.


quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Eu não entendo nada de mundo

O mundo, meu amor, me estragou a saúde. É tão grande, plural, inatingível, pensamento itinerante na beira da praia. E de pensar, e de pensar, e de pensar, e de pensar... A minha cabeça, essa bola-grão em rotação mimética entorno sol, no sol do vão da janela que bate a todo instante, quase que, quase que adoeceu. 
Ontem tive uma alegria rápida, umas notas surgiram, depois de tanto trabalhar, na conta esquecida. Mas não foi trabalho concreto, coisa que aparece sabe, prédio na avenida principal, shopping novo, nada disso. Escrever é um meio de sobrevivência, folhas que voam sem ninguém perceber e que aquecem o chão da casinha do Totó, para não pensar no que mais podem servir. Mas o mundo quicou na minha cabeça e separou a vida de cada dia em caixinhas. Café da manhã, almoço e janta. Trabalho das 8 h às 18 h, extra de 50% para o tempo ultrapassado, banco de horas para quem quer viajar e resolver questões amorosas. Ai, que ingrata a organização que demos para o mundo!
Eu falava da alegria, mas já passou. Bateu na porta das contas atrasadas. E você fica ai, nada feliz. Será que isso de sorrir a toda prova é coisa de mulher? Porque me sinto tão sorridente desde que a torneira da cozinha parou de pingar sem ao menos precisarmos do encanador. Nada romântico a gente na sala assistindo pela décima vez Um Lugar chamado Notting Hill e a goteira na pia. Você reclama das minhas insinuações que escapam em forma de ruído, imagine essa água competindo com a da cozinha. Não dá. Sei que prefere o mundo a todos os probleminhas resolvidos sem esforço.
Nesses dias estava pensando que se você me deixasse e fosse procurar o mundo em outra mulher, o que eu faria? Ando tão acostumada com nossa vidinha, com o pastel na quarta-feira e o sorvete no sábado. Até com a bagunça da cama, já consigo me equilibrar na metadinha que dá para o ar que paira no chão. Você sempre espaçoso! Coisa de quem pensa no mundo. Não sei o que faria se meu vício fosse embora.
Pensar no mundo faz você perder o tesão? Sabe por quê? Quando penso no mundo e quero colocá-lo dentro de mim, ligo uma música bem alta e deixo a vida me levar, acompanhada da cervejinha do congelador. Ah, é tão bom! Mas você fica insatisfeito, pensando que poderia ter um trabalho melhor, que tem competência para estar na França, ou mesmo para estudar e nunca sair do lugar. Coisa do signo de libra, de quem lê o horóscopo diário, de quem se prende às superstições da terça e não resolve nada neste dia e, assim, contamina os outros.
Isso de ler Schopenhauer o deixou pessimista, sabe que mais, acho que você deveria acreditar em seus sonhos em vez de ficar pensando neles. A autoajuda é tão óbvia, mas faltam obviedades no seu pensar no mundo...
Bem, você dormiu! Eu fiquei sem o beijo noturno e o poema que cura do sono. Sei que não gosta de minha leitura, do meu ritmo, diz que é coisa de quem quer pensar diferente do que está lá (ou de você). Diz que tenho que aterrissar e que não entendo nada de mundo.
Priscila

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Dando as cartas

A partir de hoje, segunda-feira vai ser dia de tarô: uma carta para a semana.
Para a semana: o que isso significa? Uma carta de previsão, um aconselhamento, um aviso?
Um oráculo pode ser usado de muitas formas, questão de opção e preferência. Mas aviso que, como toda arte oracular, o tarô tem alguns efeitos colaterais complicados quando o seu uso não é constantemente questionado e revisto. Esses são os principais:
1. Se você espera que ele preveja o seu futuro, você corre o risco de acreditar em pedaços inanimados de papel e abrir mão do espaço infinito de possibilidades que o tarô não dá conta de alcançar (nada daria). Além disso, você pode começar a acreditar que tem o controle sobre o seu futuro, só porque acha que sabe o que vai acontecer (e você não teria controle nenhum, mesmo se soubesse).
2. Se você espera do tarô um aconselhamento, saiba que pode ficar sujeito às flutuações de humor, de disponibilidade, de bom gosto e de lucidez dos tarólogos, que são seres humanos comuns como você.
3.Se você tem a tendência de encarar uma carta como um aviso, cuidado especialmente com o uso nas épocas difíceis da sua vida, porque existe o risco da paranóia. E é um aprendizado difícil, esse de entender que os acasos não ocorrem como um sinal do mundo para você - eles acontecem porque acontecem, e você próprio é só mais um acontecimento ao acaso, entre tantos outros.
... Há que se tomar muito, muito cuidado para não projetar o caos interno em um baralho. E mais cuidado ainda com a superstição* , modalidade primitiva do pensamento que pode ser uma fonte de criatividade ou uma armadilha obsessiva.
Mas, então, para que serve o tarô?
Para muitas coisas, e vou escrever bastante sobre elas. Mas existe um uso especial, talvez o que mais se aproxime da magia com a qual é associado.


I have lived on the lip of insanity,
wanting to know reasons,
knocking on a door.
It opens.
I've been knocking from the inside!
**
(Rumi)

As cartas podem ser buraquinhos nas paredes do “eu”, através dos quais podemos espiar o jardim de possibilidades infinitas, o núcleo íntimo de todas as coisas, que fica lá fora das limitações ontológicas que colocamos a nós mesmos. Existem muitas formas de ver e experimentar este jardim, além da espiadelas pelos oráculos: podemos vê-lo através das janelas, como pela Arte, por exemplo; e pelas portas, como com sexo ou as drogas alteradoras de consciência. E também existe aquela ferramenta mágica da meditação, que desfaz o truque das paredes mostrando que elas são ilusórias. Mas o importante é perceber que o mesmo jardim que enxergamos pelo buraquinho de uma carta pode ser visto por meio de qualquer outra, o que muda é apenas o campo de visão: cada arcano mostra a partir de uma perspectiva, um viés. E toda perspectiva é parcial e válida.
Por isso, aquele pensamento “Mas e se...?”, bem recorrente durante os jogos de tarô (“Mas e se eu tivesse tirado outra carta?” “E se tivesse embaralhado mais uma vez?”, “E se tivesse vindo na semana passada?”, ...ad nauseam), não faz muito sentido para quem joga. Porque tarô não é ciência, é Arte.

Por isso, a posologia mais confortável é simples: ler para não saber, para descobrir e se inspirar. Para abrir as percepções ou aprender como abri-las. O tarô é um ótimo professor e um oráculo lindo, um dos meus prediletos - talvez pela iconografia baseada numa atmosfera medieval, que é uma paixão histórica pessoal. E tem uma estruturação conceitual (não consigo achar palavra menos blasé para me referir a isso, perdão, mas estou realmente tentando ser literal) que abre o pensamento para a liberdade das correlações. Só precisamos ficar espertos e nos lembrar que também corremos o risco de ser aprisionados quando ele se torna única referência de imagens a serem correlacionadas.
E, ironicamente – o tarô é um mestre da magia circunstancial! -, o primeiro arcano que aparece na mesa da nossa casa é o XVIII, a Lua. Será que se eu tivesse embaralhado mais...? :-)


LUA

(Em sincronicidade e gratidão a Anthônia.)


Das luzes da noite, a lua é a mais diferenciada. Encorpada, robusta, leitosa, ela é a grande rainha do céu, barriga solitária que incha e esvazia numa dança lenta, com as saias da noite a lhe cobrirem ou mostrarem os tornozelos. Enquanto as estrelas são pontos luminosos distantes, coletividade das formigas, a lua é uma figura geométrica próxima, indivídua, gorda, mocha, quase palpável, para onde podemos olhar diretamente e nos perder por horas e horas sem queimar a nossa visão.
Em um mundo natural, sem a eletricidade a nos esconder da noite, teríamos uma percepção diferente das coisas. À noite as pupilas se fecham, e o nosso senso da visão, que é dominante, cede lugar a sentidos mais primitivos – a audição e o olfato se orquestram mais alto, com maior nitidez. Mas acendemos as luzes para nos esconder do escuro, porque ele é o que não se sabe. Me lembro do apagão em São Paulo no 11 de novembro de dois anos atrás e o caos psíquico todo. Pudera... imaginem uma pessoa no centro dessa cidade em uma noite sem luz. A noite traz a realidade selvagem que se mostra só onde não pode ser reconhecida.

Mas não enxergar no escuro é tão orgânico quanto enxergar no claro e o dia também tem seus perigos, que temos a ilusão de poder controlar porque são visíveis. À noite as ilusões se despem e vem o medo não das coisas, mas de não vê-las. Não sabê-las. O que vai ser de mim, o que vai ser dos outros, o que vai ser de tudo, se eu não souber. Tememos a nós mesmos e à nossa ignorância.
Mas... tudo bem, não saber o que vai aparecer para ser vivido. Está tudo certo, tudo é assim mesmo, tudo como tem que ser. Não há nada de errado com o que é inconsciente. A ilusão é achar que podemos ou que temos que saber tudo: gera frustração, aumenta o medo e não permite que afiemos outros instintos mais sutis.
O segredo é entrar em contato com o “não sei” para transcendê-lo. Quando se aceita e se mergulha na escuridão, emerge o significado simbólico desse arcano: a Intuição. Modalidade yin de percepção, passiva, em que a mente receptiva apenas reflete as nuances dos estímulos: não sei mas sinto, ouço, intuo, e isso é suficiente para me guiar.
A intuição é um treino do silêncio, e há que se aproximar dela como de uma coruja arisca. (Comece cultivando uma curiosidade: como está a lua hoje? Você é capaz de perceber o quanto ela diminui de um dia para o outro, ampulheta no céu, relógio biológico?)



__________________

* Selecionado pela evolução e presente até em pombas, sabiam?
** Tradução livre: Vivi no lábio da insanidade, querendo saber razões e batendo em uma porta. Ela abre. Eu estava batendo pelo lado de dentro!



PS: Para quem curte uma pegada diária, a Cacau, uma amiga querida de intuição afiadíssima, tem um blog muito gostoso, o Via Tarot. E para os das artes, recomendo Zoe em doses cavalares.


domingo, 9 de janeiro de 2011

O tédio que move o mundo

É um daqueles dias chatos de rotina. Você está na frente do computador e sente um sono monótono. Boceja fundo, chega a doer os pulmões de tanto que alonga as costelas. Depois da longa expiração vem o relaxamento gostoso e então você abre os olhos.
No começo, nem se dá conta de que as coisas estão diferentes. Só milésimos de segundo depois é que nota que tem alguma coisa estranha.
O mundo não é mais o mesmo.
Você percebe quando tenta mover o seu mouse, e é como se ele sempre tivesse sido imóvel, como as pedras na praia. Você poderia segurá-lo com força, encostar os pés na parede e tomar impulso para trás, mas nem assim conseguiria movê-lo. Quando se dá conta disso, você percebe que está tudo silencioso.
Você tenta se levantar, mas a cadeira de rodinhas também está imóvel. Você tem que se contorcer para passar pelo vão estreito que ela faz com a mesa. De pé, no meio da sua sala de trabalho que sempre foi a sala de trabalho de mais outras pessoas, você olha em volta e percebe que tudo continua da mesma cor e com a mesma aparência, inclusive as pessoas, de pé ou sentadas. É como se tudo tivesse se transformado em uma estátua global de onde brotam tentáculos sólidos na forma de ventiladores, carros (você conseguiu olhar pelos vãos da persiana rígida) e um corpo imóvel suspenso no ar, provável suicida salvo da morte pela mineralização que parece ter acometido o mundo.
Você está perplexo. Sabe com o saber antigo, aprendido desde moleque, que não está sonhando, mas passa a desconfiar do que sabe. Para sair da sala precisa escalar seu chefe que está de pé na frente da porta como uma estátua para sempre, e não seria muito estranho se pensasse que isso é simbólico, mesmo frente à concretude absoluta.
Você caminha pelas ruas sem saber o que fazer. Começa a se desesperar, a seriamente se desesperar. Tenta bocejar de novo não sei quantas vezes, mas nada te dá sono suficiente. Tateia o próprio corpo com medo de tocar um mármore, mas sente a mesma autoconsistência de sempre. Isso não te deixa nem mais e nem menos confortável.
Você grita, EEEEEEEEEEI!, - como não pensou em gritar antes? Mas só depois de gritar é que se pergunta se existe alguém que o ouça, outro pedaço de carne que se mova confuso entre os granitos fúnebres.
Sente a boca seca e o coração dispara. Quer água, precisa de água, mas ela também se solidificou: você anda sobre a poça da esquina. Se estivesse em condições, usaria o sarcasmo para se comparar com cristo, mas você só consegue agradecer a deus por não estar chovendo na hora em que o mundo empedrou.
Você pensa em ir para sua casa, mas isso não faz o mínimo sentido, e eu bem que imagino o porquê. Testa a nova realidade mais uma vez, apertando as curvas daquela morena solene meio desequilibrada sobre os saltos, e só sente a matéria gelada. Você grita de novo, não sei por quanto tempo e nem você sabe, porque parece que o tempo também parou.
Você chora e continua chorando quando as gargalhadas começam a sair de você. Você, sei lá o que mais você faz. Já sei: você reza. Eu rezaria, talvez antes até, porque a fé dos céticos costuma ser a mais cega de todas - só muda o objeto de crença. Mas depois de todas as reações previstas e esperadas frente a situação tão inusitada, você pára. Não pode fazer mais nada além de tentar juntar-se, em não-ação, à rocha do mundo, às coisas, à espécie humana que se fossilizou no agora.
Tenta ficar parado mas tudo coça. De pé as pernas formigam, sentado os órgãos reclamam e deitado as costas doem, estendidas sobre a solidez do universo.
Você se lembra das técnicas de meditação que pode ter aprendido em uma trip esotérica do ano passado. Eu acho que me lembraria, mas sei lá mais o que pode significar o ano passado numa situação dessas. Você até poderia chegar à iluminação búdica porque o mundo está realmente parado e você tem tempo de sobra para infinitos nirvanas, mas você chora depois de pensar nisso. Chora até cansar.
Começa a olhar para a densidade das coisas. Sem pensar que está olhando e sem pensar que são coisas, porque elas não têm mais nome e são para sempre o que foram um dia e nem você mais tem olhos e tudo parece uma foto antiga e tudo vai ficar sempre assim como se o Alguém tivesse cansado de criar e pausado sua obra para mostrar para os donos de outros universos ou para inscrevê-la em um concurso de fotografia.
Tudo te dá um tédio. Um tédio tão fundo e visceral que você boceja. Longa, lenta e profundamente, chega a doer os pulmões de tanto que alonga as costelas.


sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Sobre Linhas

Despertador toca. Não é para acordar ainda, afinal é sábado, ela volta a se enrolar na cama, mas não consegue retomar aquele sono de antes, então decide levantar. Se espreguiça, dá um beijo no marido que ronca em alto e bom som, vai até o banheiro da suíte e encara o espelho, esboça uma careta: “será que alguma mulher no mundo se acha bonita ao acordar? Duvido!”. Escova os dentes, ainda meio sonolenta...pasta de dente lhe cai como um sonífero às vezes, abriu os olhos forçadamente, arregalando-os em frente ao espelho e foi aí que sua vida acabou.

O marido levanta assustado, corre para acudi-la sem saber ao certo o que teria acontecido, foi um berro alto, misto de surpresa, pavor, medo, horror...por que não de dor? Ele a encontra intacta, apesar da feição arrasada...seria uma barata ou qualquer outro inseto que mulher abomine? Ou seja, qualquer menos formigas...as pequeninhas. Não era, seu olhar de espanto era para o espelho, para ela mesma, para a mulher pela qual ele se apaixonou há tantos anos.

Não, não é a mesma mulher, afinal já são quase vinte anos desde aquele dia no aniversário de seu melhor amigo, quando entre um gole de whisky e outro de cerveja se fixou nos olhos da garota de blusa verde, ou azul turquesa, como ela diz. A versão dela também é menos romântica que essa, ela sempre foi mais realista do que ele. Ele estava bêbado, chato, ela quis matá-lo, ele quis embebedá-la, entre dar um gole ou uma facada, optaram por um beijo. Foi bom. Muito bom. Longo, dura há quase vinte anos.

Muitos outros momentos similares passaram, ele também já quis estrangulá-la quando trocou toda a mobília da sala em seu cartão de crédito, ela também já quis embebedá-lo para ver se falava menos sobre os problemas do trabalho. Quase deu uma garrafada nele quando aquelazinha da época da faculdade insistia em ligar no sábado a noite, ele a esfaqueava em pensamento quando a ouvia contar de suas aventuras na praia com as amigas. Apesar de tudo isso, os beijos foram bem mais constantes que qualquer atrito...o namoro, as crises de ciúmes saudáveis, os pequenos gestos, a cumplicidade nas noites intensas de tese do mestrado, o pedido de casamento, a viagem de lua de mel, vieram os filhos, tanta coisa boa viveram juntos. Não era a toa que durava quase vinte anos.

“Qual o motivo do grito?”- diz o cambaleante e esbaforido marido. Ao que ela se vira para ele, incrédula, abismada de que ele não sabia o motivo. Ele faz aquela cara de interrogação e desprezo que só os homens conseguem fazer quando ouvem algo relacionado ao universo feminino. Ela volta ao espelho, aquela linha continua lá, grudada, indisfarçável, penetrante, invasiva. Já não bastava aquelas outras brancas mais acima, que já a acompanham de uns anos para cá. Linhas malditas. Rugas, cabelos brancos, estrias, varizes, marcas de expressão. Sua vida estava acabada.

E então ele dá de ombros e volta para seus lençóis que estavam aguardando-o calorosos. Ela ainda encara aquela imagem, procura mais destas linhas, quer ter conhecimento da dimensão de seu inimigo. O pior é que ela sabe que ele é invencível. Esta guerra é perdida. Mas não as batalhas, ela pode prolongar um pouco sua derrota, pode recorrer a tropas de apoio que lhe ajudarão a combate-lo algumas vezes. Ela já faz isso com os fios brancos todos os meses.

Ok, cabisbaixa e ciente que sua vida está por alguns fios, volta a cama como alguém depressiva que escolhe não encarar a realidade do mundo. Ele, que ainda não caiu no sono profundo, reflete...ah, se ela soubesse que a única diferença que noto desta para aquela jovem de quase vinte anos atrás é a blusa verde que não existe mais. Ele crê que deve dizer algo a respeito, resolve abracá-la, ela resiste um pouco, está remoendo suas dores, e ele sussura: “Eu escolhi envelhecer ao seu lado, e você?”. Ela amolece, abre um sorriso, passa a mão no cabelo ralo e grisalho do marido, certa da decisão tomada há quase vinte anos. Cai em si da importância de cada linha, não são marcas, e sim marcos. Se for para viver tudo o que já passou, ela adoraria ser uma mulher listrada. Dormiram mais um pouco, afinal é sábado.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

"Me deixas louca."

Não venha me falar de nada que não seja OURO PRETO – tentativa primeira – apresentação!

Só dessa vez vamos deixar as palavras germinarem. Os “sonhos barrocos deslizarem pelas pedras”. Dirceu caminha apressado para encontrar Marília no chafariz. Quer se casar? Santificado está. Lá é o ponto de encontro para os que amam, para os que sonham. 

A cada passo uma ladeira, uma igreja roubando o olhar. Elas disputam altura, plenitude, se desarranjam na beleza incansável de seus formatos imemoriais. 

A cada esquina a simbiose do prazer e da felicidade. A vivência crônica de reminiscências de outros tempos. 

Uma cidade mergulhada no passado, redesenhada em cada micro arquitetura, feita em pedra-sabão, da igreja setecentista. A poesia dança como menina travessa em dias de chuva. “Como chove, como pinga no país das remembranças. Como bate, como fere, como transpassa a medula.” Nada, nada a traduz.

Representar, redesenhar sem alargar o que já salta aos olhos. Os artistas usam o tempo na tentativa de imitá-la, emoldurá-la ainda que sejam em algumas de suas minúcias. Ouro Preto é plenitude. Lá você se torna erótico, excita-se com as luzes da Rua Direita, com os pubs escada abaixo que vão embalá-lo no melhor jazz e depois consolá-lo ao som do blues e da Tequila Sunrise.
Imaginação dos tempos de outrora ou de um tempo imaginável? 

Apreciações do tempo em noites belas acompanhadas pelas chuvas que a deixam ainda mais charmosa. Nessa cidade as sombrinhas dançam todos os ritmos, se descobrem no claro e no escuro. A fantasia aterrissa nas esquinas e ladeiras da antiga Vila Rica... 

Sonhar acordado? 

Pedra sobre pedra. História sobre história. Desejos se redescobrindo nos arrepios dos pelos.
Feições em esculturas, tente levar Ouro Preto em pedras para casa.

Quer saber mais sobre arte barroca? Pergunte para o menino dormindo ao lado da Igreja Pilar, questione o vendedor de ingressos para o passeio ferroviário, ou espere ser pego por algum guia maluco, porque a beleza e a dor de sua história já contaminaram a todos que estão por lá. Dor pela cidade feita pelos escravos e que agora transformou em museus e restaurantes as suas senzalas.

Sinta o cheiro, toque os porões. Permita-se trabalhar em uma mina, tudo o que toca mais profundo é ouro que reluz nas pontas dos dedos! 

Ah, Ouro Preto que ficou em meus devaneios, em minha memória, imagem a ser feita e ressignificada em toda e qualquer tentativa-poesia. Ser ou não ser? Nada de aspirações. Cai a chuva por entre os vãos que palmilham nos paralelepípedos, gotinhas de ponto final.

Priscila