quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Apresentem-se, por favor!

Ah, sim, temos um nome! E isso já é o suficiente para nos considerarmos vivos. A idade - nós dizemos na época da escola, para preenchermos o silêncio da pouca experiência e da sensação de não sabermos o que será do amanhã. Afinal, a última aula do dia era a de Educação Física.
Depois de nos domesticarmos e seguirmos algumas leis que podem ser chamadas de “realizações”, ir além do próprio nome fica ainda mais difícil.
Em um dia primeiro, a sala de conversas estava esfumaçada com vozes, cores e com o perfume das chegadas. Pouco dava para perceber além das tonalidades dos paletós e da alegria exposta em algumas pessoas que se encontram depois da chamada férias... Pilhérico como depois delas as colegas que se encontravam pareciam estar ainda mais felizes, talvez pela não-obrigação... Oras!
Enquanto a porta - em seu zig-zag - não cessava, uma voz ainda mais alta se colocou: “apresentem-se, por favor! Pois temos uma pessoa nova entre nós.”
O falatório terminou.
Quem sou eu? Será que sou alguém? O que fiz até hoje me faz ser alguém? Que sei do que serei, eu que não sei o que sou? Sou o que penso? Mas eu penso tanta coisa... Sou o que fiz? Mas o que fiz é relevante para contar?
Como nunca dá tempo para pensar em tudo isso, a resposta acaba sendo um institucional de nós mesmos. Mas sempre surpreende tentar enxergar a caminhada de cada um, que por muitas vezes está colocada no corte de cabelo, para não dizer de coisas outras que aparecem muito mais nas mulheres, seres naturalmente expostos. Ainda que, ainda que... Bem, disse a professora, que era então de biologia e amante das células e do que tem forma e não se pode ver a olho nu.
Adiante, outra se colocou revelando o arqueado de sua sobrancelha; defendeu tese em Dalton Trevisan, o vampiro de Curitiba, que escutava atrás das portas.
Nos olhares que foram se seguindo, houve um que na boca pouco se colocou, as amigas memoraram um jantar oferecido por ela depois do estudo de o banquete de Platão e das palavras que as receberam tendo um final mais ou menos assim: “quem aprende mais, ama mais”. Nenhuma voz, mas gotículas apareceram nos olhos dessa mulher que se adentrou.
Importante o amor que se dá ao fazer a mesa, a cama, a palavra posta.
Outras apresentações soaram naquela tarde com ventos uivantes e gelados, opostos a uma cidade quente. Cidade apresentada como uma donzela atenta aos últimos lançamentos de cosméticos e meninos nomeados por colunas de jornais. O gato sem nome da bonequinha de luxo muito sofreria por ali, onde tampouco é Nova York. Sem contar a apresentação do som de duplas sertanejas... Quando nem sempre se está apaixonado e largando tudo, ainda que em idade considerada decente para tanto.
Mas naquele espaço, as apresentações eram escutadas assim como as gotas de café entre um gesto e outro. Pães frescos, olhares atentos ao que se diz e à procura do que ainda não foi falado.
“Apresentem-se, por favor!” Dizia novamente a voz que mediava as dispersões.
Sacrifício da existência a palavra. Apresentemo-nos para fazer ruir o fato de estarmos vivos.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Para João

Depois que mudei três vezes de andar, encaixei o piano no estreito elevador e expus os quadros nus na praça central, em sobressalto de atraso, resolvi escrever. É verdade que ando distante de seus pensamentos... Isso me entristece, não por vaidade, mas sei; dentro desse deus-nos-acuda que é você, talvez você tenha, talvez você tenha: “tenha me esquecido!” E foi então que decretei luta corpórea contra o tempo e decidi dar um basta, não dá mais para ele ir se fazendo sem minha permissão. Nessa roda parada, ando desenhando pequenos atos em cartas de amor, mas não consigo deixar de achar que devo escrever sobre os cinco minutos da mulher antes de se levantar. Tracejar para você a textura do lençol sussurrando no lado de dentro das pernas e nos brancos leitos jorrados do corpo, refém dos mais guardados e aguardados desejos. Desejinhos, aliás, nessas horas não dá para exigir muito por trás da brancura que esconde os lábios mordidos, da sombra que escorrega pelas beiradas da pele dançante. Pelos saltando das pontinhas hirsutas da pele: um a um se erguendo lentamente, buscando brandas performances, sendo mais do que esconderijo da cútis. Peles e apelos em suspensão, as paredes-quatro implorando a retirada da mínima regatinha, para que partes encobertadas possam ser acariciadas pela mantinha fina, transparente e perigosa. Os pensamentos argutos impossibilitando que alguém bata à porta e se surpreenda com toda a intimidade exposta cheirando à manhã...  
Será que consigo? Será, João?

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Nessa angústia pela velhice

Pedi para que ao menos trinta anos corressem, mas no vão fiquei exausta de tanto colocar a noz para trabalhar... Sentimentos assim madurinhos demoram tempos para serem nomeados. As marcas aparecem quanto mais distraída e exausta eu estiver...  
Sem resposta, desisti de mim.
O que gosto em você é essa vida que não se gosta, como um novelo de lã que já bordou um milhão de toalhas. Porque, meu amor, em cada veia-país das suas mãos tem um rio correndo. Cada pequena ruga dos pés até o último fio branco saltado em sua cabeça traduz a beleza de quem tanto construiu e desconstruiu. Quantas histórias-vidas, desencontros... Amores passados do ponto e os que ainda se escondem na saliva mais lenta, caída nessa última porta que deixou seu coração com dor; como sangue pisado.
Os seus filhos tão grandes, tão maiores do que eu. Meninos em que você desacretidou e, por excesso de amor, demorou a olhá-los como são. E agora têm os netos, as papinhas e aquela coisa de que a gente faz tudo para no fim voltar para o mesmo lugar.
Esses seus olhos tão densos, quantos segredos guardam e quantos já se perderam? Nessa sua conversa que começa de agora para frente e me deixa sem saber o que ficou para trás. Sem contar o sono que você diz ser sagrado, e eu querendo não dormir e funcionar sem parar, ficar como boba olhando seu corpo cansado e ouvindo seu jeito de dizer que vai cochilar; “só mais cinco minutos”.
O telefone no plano mais caro e com fio. A vitrola e os discos escutados sem o mínimo barulho das entranhas da porta. A música que transporta... Como um artista que leva seu público para outro lugar. O canto da transcendência e o tempo paralisado. Na música que para você não é ruído, mas movência sagrada.
 Será que um dia você vai me contar o que em forma está, será? Você disse que há coisas que não podem ser ditas... E caminho, assim, com esse silêncio de agudos e gritos de peles. Será a forma o que chamam de velhice? A mesma que é bela? De alma dançante, esperta, sabida... De marcas infinitas e olheiras rasgadas?
Você é como as muralhas de Machu Picchu e as moças diferentes do Rio de Janeiro... A cultura talvez dê tempo para correr atrás. Mas esse sentimento todo, esse todo sentimento do mundo, essa música de ritmo já relido... Qual será o original? Não adianta pensar porque quando me surpreendo com qualquer coisa, você me devolve a surpresa com risos de quem já sabia, e minha ânsia por envelhecer fica cada vez maior.
 Nessa época de vampiros insaciáveis, virei morcego para voar e tentar alcançar você e todo esse seu infinito dito particular.




terça-feira, 14 de junho de 2011

Trio

"Cada qual sabe amar a seu modo; o modo, pouco importa; o essencial é que saiba amar." Machado de Assis

Havia o silêncio nos olhos e uma trava no final da língua que não deixava nada engolir. Eram três estranhas. A intimidade uterina não lhes servia para nada, senão para se amarem e se desamarem com a mesma comoção. Não se olhavam nos olhos por medo, por forma igualmente rasgada e chorosa. Nos olhos, insistentemente neles, estavam as sobras de toda uma família que desmoronava em águas ancestrais e que embora houvesse, não havia por dentro. De sombra pesada e sorrisos, os caninos afiados também faziam parte igual desse trio, além do sentimento ancorado nas costas como paixão cristã, que parecia durar por toda uma vida.
Nem um almoço de domingo com vinho, aquele trazido pelo avô do sul, prometia em goles múltiplos amenizar a força que fazia os ombros dessas meninas, nada revelava doçura em palavra qualquer dita e que as fizessem irmãs. Afinal eram sim, não tinha como não serem. Havia uma realidade exposta mesmo sem verbo colocado. Talvez pelo ar, talvez pelo silêncio tácito da palavra que não podia ser dita e muito menos resolvida. Ah, eram irmãs assim.
No domingo cumpriam o calendário e a união, mas sem prece atrás das cadeiras. As meninas não rezavam, pois o tempo naquela escuridão foi Deus e passou uma massa corrida nas lembranças relembradas com dor. O tempo tivera então distraído toda a falta de enquadramento daquelas três que falavam nas entranhas do implícito amor; que o pai nunca tivera sentado na ponta mesa, nunca tivera discursado como um rei, nunca - nunca que elas se lembrassem.
          Na mesa sem direção, o pai parecia alertá-las depois do já acontecido, ele sabia ensinar, mas mudo assistia aos tropeços das meninas que tropeçavam cada dia mais e mais e mais. O tropeço tornou-se então o pai, mais atuante do que aquele senhor que tinha a razão e não a expunha, e que ainda assim era o homem que tanto condenava.
Errar é rotina para quem nasce ao contrário e de ponta cabeça é apresentado para o mundo. Para as meninas então... E, no entanto, elas tentavam não errar aos domingos. Não se pode arriscar no domingo. À tarde beijavam-se como de costume: numa rápida despedida e não com menos amor. Depois se trancavam, cada uma a seu modo, mas valendo-se daquilo que sempre tiveram em comum; do silêncio do que mais uma vez não foi dito e dum amor que não tem senão aquilo que se sente.     

terça-feira, 31 de maio de 2011

Cinco e vão

É quando você menos merece e me assusta com sua confusão, quando meteoritos caem sobre esse lar. Nesse entra e sai de gente e, em vão, você me pede para esquecer. Quando você diz que sou sol e você lua, um entardece e o outro continua. Suas palavras imperdoáveis e não há nada a fazer. Digo que amo assim, você no sim, sem tempo de pensar em respiração.  

Pedras ancestrais das minas, chuva de granito no primeiro carro, água quente nas reservas, chope gelado no pinguim e quando cheguei... Lá se foi o trema. Cabelos crescendo, beijo pelas beiradas, café da manhã e violão; terra e seus errantes navegantes, Pessoa na pessoa e rosa no Rosa. Eu presa às vitrines, valsando lirismo. Você Clarice e eu Machado. Você blues e eu bossa. Você para dentro e eu para fora. Filho Miguel, filho Vicente, filho que ainda nem sente, mas ente virá como estrela cadente caindo no colo, espirrando leite nos colchões. 

Sem contar a forma, a norma, a sua língua domada, exata e seca e dura e, e, e. Será que dá para entender Mallarmé? Sem sentimentalismo, ai, mas e o conteúdo? Sua mente cansada de tanto de mentar, eu querendo ver tudo acabar num belo dia de amores e cachorros correndo pela praça, açaí na tigela e depois sono e sonho. Brigadeiro na colher e à noite quibe cru. Viagem a Paris, prêt-à-porter da Chanel e você quer visitar o Louvre. Romantismo há, ainda que... Sei não, como se ama por lá?

Mas se nessas e outras você precisar ir e eu ficar... Ah, não! Sou filha da revolução, tudo tem jeito para dar! Separação é coisa para quem ama de segunda vez, a minha é inteira primeira, certeira, sem ix, sem is, sem fim.   


sexta-feira, 20 de maio de 2011

Sobre Exposições

Uma tarde tediosa de sábado, sem programações na vida real, e muito menos na televisão. Entre um assalto a geladeira e outro, um pedaço de papel em cima da mesa de jantar lhe chama atenção. Não sabe quem o deixou ali, mas ao bater o olho sentiu que sua tarde de sábado estaria solucionada. Rapidamente tirou o pijama que vestia há mais de 12 horas, agasalhou-se para enfrentar o frio, e partiu.

O endereço era próximo, foi caminhando, era o típico de passeio que ela adorava, ainda mais com aquele clima propício. Chegou ao local, nunca o tinha percebido antes, era discreto, sem muito alarde, um pequeno anúncio na porta e a movimentação de poucas pessoas para o evento. Tal evento não era muito comum naquela região, era uma exposição de arte.

Logo na entrada conheceu o artista, um senhor de meia idade, cabelos grisalhos, olheiras fundas, barba por fazer, tinha seu charme...como todo artista. Com muita simpatia recebia a todos com um belo sorriso, e se oferecia para explicar um pouco o significado do seu trabalho. A maioria das pessoas não prestava atenção, ia direto para as obras, olhando-as com veemência, com urgência, com pressa para tirar conclusões.

Ela parou no salão principal, não olhou as obras, tampouco ouviu o artista e suas explicações ensaiadas...se prendeu na observação das pessoas que ali estavam, suas ações e reações. Ah, ela adorava observar o comportamento humano. Era gente de todo tipo e estilo, aqueles que sabiam exatamente o que faziam ali, provavelmente acostumados a tais ambientes e trabalhos, gente curiosa, gente que entrou por acaso, pais ensinando arte aos filhos, excursões de colégios e faculdades, amigos e familiares prestigiando o artista...e ela, filmando tudo.

De repente ela entendeu o significado da “exposição”. Não era exposição das obras, era o artista que estava exposto, escancarado, enquanto todos tentavam entender quem era este homem, como ele pensava e o que acontecia com ele. Ele se expressou através de tintas a óleo, de cores, de desenhos e rabiscos. Os visitantes o analisavam como se fossem seus terapeutas, o julgavam como se ele estivesse no banco dos réus, o qualificavam como se fosse um calouro. E ele? Ele tentava se fazer ouvido através de um sorriso tenso e palavras extraídas de um roteiro decorado para agradar o público.

Ela tentou ser diferente, olhar as obras sem pré-conceitos, segregando-as do senhor que ficara logo ali a poucos metros. Impossível. Ao olhar uma imagem de mulher chorando ela imagina se seria mãe, irmã, esposa, ex-namorada, amiga...e o motivo que a levara às lágrimas. Em uma paisagem bucólica anseia por saber se tal lugar tão belo realmente existe, e se fez parte da vida do senhor...talvez tenha sido criado lá, pensa intrigada. E assim foi, interpretando uma a uma, tentando não ser tão julgadora, coisa que outros na sala o faziam em alto e bom tom...de deboches a elogios exacerbados, cada qual igualmente pesados de serem ouvidos.

Ao sair, parabenizou o artista, e o fez de forma sincera, de coração. Não entende tanto daquele tipo de arte, apesar de ter gostado do que viu...porém mais do que isso, lhe parabenizou pela coragem de se expor a desconhecidos, de se abrir a interpretações alheias, de permitir palpites, críticas, elogios, e até mesmo ofensas. Ela sentia tanta dificuldade em lidar com isso nas atitudes, sentimentos e palavras inevitavelmente expostos no dia-a-dia, que o admirou demais por fazê-lo como profissão.

Seria este o verdadeiro trunfo da alma de artista? A capacidade de ser vidraça, vulnerável ao ataque de eventuais pedras, sabendo se defender e se reconstituir quando atingida? Ou até mesmo quando coberta de flores, ainda conseguir ser aquela vidraça original, simples e talentosa em sua função, sem desmerecer suas semelhantes que se encontram trincadas? Em meio a tais reflexões, vestiu o casaco e saiu caminhando rumo a sua casa...ela e sua discreta e medrosa alma de anônima.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Persona 1


Nem um blues, time keeps movin’on! Nem Chivas Regal para segurar o sono da meia-noite. Nada, nada. Nenhuma conversa desnuda, só medo do desejo. Será possível sobreviver à contaminação?  

Viver sem conviver com a desorganização, em concha. Tem medo de mim, de mim, de saber de mim? Quem é você? Sobram tantas suposições. Carro novo, roupa nova, trabalho surgindo em pencas na precariedade dos dias sem vazão. Trânsito caótico, aflição dormindo no ponto. Onde é que foram parar as vontades? Por que temos que nos esquecer daquilo que fomos de melhor? Por que não podemos ser ainda melhores do que fomos?

Será um viver em regressão? Fechar as portas que foram abertas, abafar as experiências, colocá-las num mostruário de fomes enredadas e nunca mais vividas. Não dá para zonear a zona de conforto? Você tem medo da dor? Dá para quebrar esse espelho? Dói mais com ele nos olhando todos os dias. Talvez se nos libertássemos dele, suportaríamos o corte e ficaríamos com as surpresas. Buscar a perfeição é fantasiar demais. Ser perfeito é uma fantasia? 

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Luta temporal

Nem todo o amor do mundo suporta o amarelado que muitas vezes atribuímos ao tempo. Esse senhor que se não for reciclado, repensado, (re)apaixonado, (re)desejado é tão cruel. Esse professor que se lhe dermos poder, acabamos virando reféns de suas cordas esgarçadas, de seus gestos repetitivos aos quais aceitamos. Pois o tempo é ambíguo, nos fere a cara sem deixar de dar bom dia todas as manhãs.
O sol que começa antes mesmo de começarmos a pensar na vida, ou trocando em miúdos, a pensar no dia; causa-nos o efeito de possibilidades. Esse sol jovem, ardente, longe em espaço e perto em radiação, nos torna desejantes de um lugar ao seu lado - quem tem luz e lugar está com tudo. Em tempo, o menino rei é cúmplice do professor. Eles atuam juntos compactuando sedução e sabedoria.
Imbatíveis, não é mesmo? E nós “batíveis”, passíveis de revoltas marinhas, de contaminação, de cólera sempre a ser revisitada. Tão prontos para destruirmos qualquer possibilidade de amor ao próximo. Nós que muitas vezes cruzamos os dias sem percebermos o outro por distração, pela TV que nos esquecemos de desligar, pelo trânsito intratável... Nós que ao adquirirmos certo estrabismo, quando por instantes nos despertamos dele, nos traumatizamos e ficamos frágeis. Nós que por mais que almejamos sermos outros, somos tão humanos e há tempos erramos e pisamos no errado sem parar. E, como dói errar!
Febre, febre! Febre desse tempo que nos rege, desse sol que por encanto, sedução cortante rente à carne, expõe os nossos ossos sem protetor. É tempo de juventude condensada. A experiência agora é coisa pro futuro. O presente é presença rápida, as mentes se dissolveram no amarelado do tempo. Fecham-se todos os livros para assistirmos ao prazer transitório, à paralisia da modernidade.
Tem alguém ai? 


sexta-feira, 1 de abril de 2011

Sobre Casas e Arrumações

Poeira, guardando as tralhas, limpando o chão, lavando a louça, varrendo o jardim...como junta sujeira em pouco espaço de tempo. A casa estava de pernas pro ar, muita bagunça, muita coisa fora do lugar, muito lixo para jogar fora...e ela nem tinha percebido como aconteceu este acúmulo de coisas, simplesmente um dia acordou horrorizada, sentindo um odor forte e incômodo, e saiu desinfetando, espanando, purificando.

Casa brilhando, cheirosa, arrumada. Pronto, ela podia sentar e desfrutar de um bom livro, um saboroso vinho, um papo gostoso com as amigas, uma paixão louca. Ainda não! Esse movimento de limpeza da sua morada não adiantou, ela ainda sentia sujeira interna, e não nas paredes, no piso, nos cantos, e sim dentro de si. Algo a incomodava muito e não eram seus cinco sentidos que reconheciam isso, vinha de dentro e passava batido ao espelho.

Começou a limpeza pelo cérebro, sentando na poltrona e insistindo no bom livro. Em minutos já o devorava, queria mais, e assim seguiu reciclando conhecimentos, deixando de lado velhos conceitos, permitindo a entrada do novo, do adequado ao momento atual. Como sentia falta disso, do saber, do buscar, do seu lado curioso abafado por teorias obsoletas. O mundo é tão vasto de idéias...para que continuar apegada a uma visão limitada das coisas, da vida, de tudo?

Se sentindo melhor foi para o próximo cômodo. Na verdade foi para o supermercado, a geladeira estava vazia e não suportava mais consumir produtos artificiais. Encheu o carrinho de sabores, cores e aromas, salivava imaginando o momento de chegar em casa e apreciá-los, junto com uma taça de vinho, entre uma página e outra de um dos livros. Ingerindo gostosuras, passou a exalar leveza, como se seu sistema digestivo agradecesse e enviasse boas energias pela corrente sanguínea para o restante do corpo, e este anunciava ao mundo.

Teve certeza que estava pronta para reorganizar seu jardim externo quando pegou sua agenda de telefones. A cada registro uma lembrança, uma saudade, uma vontade de interagir...o mesmo em suas redes sociais virtuais. Buscou aproximação com uma, duas, três, inúmeras pessoas. Incrível, todos também sentiam sua falta e aguardavam este contato, contaram novidades, o elo que os unia era exatamente o mesmo, independente da poeira empilhada pelo tempo de afastamento. Quando se trata de amigos de verdade não há idade, sexo, quilometragem ou incompreensão...eles são amigos, e este título basta.

Por último, e ainda um pouco resistente, chegou ao lugar mais importante e revirado, o seu quarto, o coração da casa. Abriu armários e selecionou roupas, mexeu nas gavetas e arquivou bilhetes, vasculhou cômodas e aproveitou peças que estavam sem utilidade, separou muita coisa que não lhe servia mais, abrindo mão e doando para quem lhes daria mais vida. Espirros alérgicos, sofrimento. Limpou pessoas que já haviam partido há tempos, mas que ainda ocupavam lugar precioso neste pequeno ambiente tão exclusivo. Algumas estavam encostadas, outras no meio do caminho, até machucando quando por ali passava a caminho da sua cama para encontrar seu sono...enfim, não deveriam mais estar ali.

Seu depósito ficou abarrotado, passou a chave na porta e depois a enterrou. A casa estava pronta para retomar o que nunca se foi e para receber novas histórias, para acumular novos ciscos...inevitáveis. Com renovações diárias, muita precaução e todo o tempo do mundo ela reinaugurou sua antiga residência. Desta vez mais atenta para que a faxina da alma ocorra periodicamente, na esperança de evitar o surgimento de marcas difíceis de serem removidas.

terça-feira, 29 de março de 2011

Sobre o tempo ainda uma vez

O mistério do tempo é consumi-lo sem percebê-lo
É fazer-se infinito para não assistirmos a sua passagem
É fingir-se contar em anos em vez de momentos

Calendário, relógio, despertador, cronômetro
Engodo para idearmos prendê-lo, controlá-lo

Ampulheta, instrumento leal do tempo
Regressivamente, nos impõe a gravidade
De haver um último grão
Rabiscando na areia a nossa fragilidade

Mas o tempo é imparcial
Não distingue rico de pobre
Preto de branco, homem de mulher
Devora-se sem escolhas

Matar o tempo é matar-se sem sentido
Perdê-lo é viver em vão

Faz-se devagar nos maus momentos
Depressa quando o queremos

Ponteiro invisível da vida
Peça indispensável do fim

A sua fome é insaturável
A sua vontade é categórica
A sua procura é unânime

Se oculta nas sombras que se movimentam
Nos acessórios que não mais enquadram
Nas pessoas que nunca mais vimos
Na devassidão das frutas que não foram colhidas
Nas lembranças já deslembrada

Revela-se nas fotos que se desbotam
Nas cartas que amarelam
Nas crianças que crescem
Nas rugas que aparecem

Deixa-nos a esperança de Pandora
Nas ações dos que virão
No nascimento dos rebentos

sexta-feira, 18 de março de 2011

Prisioneira

Ela corre afoita, desesperada, busca uma porta, uma janela, um vão que seja...precisa fugir desta prisão. Não encontra saída alguma, nem alguém para lhe amparar quanto a seus questionamentos. Não sabe como foi parar nesta prisão de segurança máxima sem ao menos lembrar qual delito cometeu, se é que realmente o fez.

Paredes acinzentadas, uma imensidão vazia, mas a sensação de monitoramento, de observação de cada passo, cada gesto, cada palavra. O tempo todo. Sente um peso em cada osso do seu corpo, cada músculo, cada gordurinha, principalmente as que estão fora do lugar. Continua caminhando naquele pátio, vê ao longe muros altos intransponíveis, sabe que não será fácil escapar, para não se dizer impossível.

E ela, sempre tão correta em suas atitudes, volta a questionar o porquê desta prisão. Não quer escapar como uma fugitiva, quer provar sua inocência e conquistar sua liberdade, ela não é criminosa. Quando será seu julgamento? Quem é seu advogado, se é que ele existe...e afinal, o que ela precisa provar para o mundo? Ela sabe que até seus amigos e familiares olham-na de forma distinta, desconfiados, em uma expectativa eterna de que ela assuma sua culpa ou se prove inocente.

Pelos cantos daquela cadeia há lembranças espalhadas, momentos que viveu, coisas que ouviu, cenas que presenciou. A combinação de tudo fez com que ela estabelecesse regras de comportamento em que qualquer infração pode ser fatal e irreversível, trancando-a na solitária para repensar, e então em uma próxima vez, irá pensar muitas vezes antes de fazer qualquer coisa, condenando para sempre sua espontaneidade e vontade.

E nesta prisão ela está sozinha, o cerco se fechou em volta de si mesma, da sua cobrança e preocupação com a vigilância alheia. Se ela ousar e caminhar um pouco mais, notará que os portões não estão trancados, apenas encostados. As câmeras muitas vezes desligadas. Os julgadores imorais e sem poder para um veredicto. Seus amigos e familiares são ao mesmo tempo platéia e pronto-atendimento se necessário. Na verdade ela é seu próprio júri e carcereiro.

O olhar que ela sente é dela mesma, e não dos outros. Ela mesma deve se libertar, enfrentar o mundo como quiser e puder, e se alguém se incomodar ou julgar erroneamente pode ser sinal de uma liberdade ainda maior, sinal de que está no caminho certo do sucesso, da felicidade. O fato de atrair atenção para si tende a ser um bom sinal, mas não pode deixar que isto bloqueie sua trajetória, que a prenda. A prisão que ela vive diariamente é a sua própria mente, que a limita em algumas atitudes e que a julga sob uma lei que talvez só exista ali. Por que é tão difícil viver sem se preocupar? Para ela, o “Carpe Diem” de Horácio se encontra cada vez mais distante...

sexta-feira, 11 de março de 2011

Arcano II - O Sacerdócio Feminino


YIN

Talvez narrativas fiem vidas.
Talvez eu não tenha sido como me contei,
talvez nunca serei.
Talvez nem haja eu,
apenas a tecelagem contínua entre dois pólos -
cujo projeto
(que desconheço)
pulsa-me a traçar teias de associações arbitrárias
sentidos trans-lúcidos
dissipáveis pelo toque da dúvida como bolhas de sabão.

(Por trás do véu, a natureza sem foco
a noite, as coisas que acontecem
sem sentido ou intenção -
aqui se faz um mundo
outro ali, em outra oitava
... e o momento um acorde
dedilhado em terças e sextas
e não haja um maestro.)

Talvez os homens das ciências sejam certos
e o nosso multiverso seja órfão.
Talvez sejam mais loucos que os fanáticos da Sé.
Talvez seja só uma questão de abstração inútil
e as coisas façam-se porque assim são feitas
ou ao invés de aranhas sejamos primatas que descobriram o sentido
(ou a falta dele)
e houve um Alberto Caeiro.

Talvez nossa narrativa tenha enrijecido idéias,
platônicos discretos exilados na ponta do iceberg.
(Talvez Apolo e Dionísio fossem gêmeos e a virgem tenha nascido do oráculo.)

Talvez os hindus estejam certos e um deus me sonhe
ou tudo seja o espelho e o tigre que são o mesmo
como Borges e Tirésias, que alertaram para a escuridão.

Talvez eu esteja errada,
talvez eu creia.
Teço um labirinto em que sei
e outro antigo em que me queimariam por saber
e outro em que me perco
e outro em que me acho
e outro em que sou nada
(e cada um com suas paredes
pretensamente sólidas,
pretensamente reais)
e o ato de tecer só faz contar
a natureza que se desdobra em mim -
a maior das minhas histórias e a inevitável,
e que talvez seja a poesia.

Teci mundos olhando para os antigos,
para os sonhos que me antecederam.
Teci veias para me enterrar na placenta
e redes hídricas e vermelhas para me reunir em alguém que,
nove meses depois,
foram chamar de um nome escandinavo.

Talvez seja a verdade última, o naufrágio,
e eu me derreta no oceano frio do mundo
como o gelo no copo do uísque do meu pai.
Talvez a vida me perpasse desgastando as paredes dos meus poros
e me leve em pó para o deserto quente onde o tempo nasceu
como naquele sonho desconexo,
e o tempo seja mesmo o deserto e o vento.

Ah, dançar com o talvez da Dúvida,
a deusa voraz por altares pagãos e epistemologia
como a noite faminta pelo dia.
Tolerar o calafrio do espelho na água da superfície
e mergulhar no frescor do desconhecido,
nos pios das corujas cegas, poetas da escuridão.

O peso do infinito, matéria-prima do fio
os deuses e a Certeza -
outra deusa duvidosa, enlouquecida em descrédito...
fiar-se com belos dedos, única âncora que há.