quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Trouxeste a chave?

- Para quê?

Não estou conseguindo dormir. Tem uma menina sentada na calçada, não é possível ouvir sua voz, sua sombra dá para o portão dos fundos e às vezes ela parece chorar. As horas passam e ela não se utiliza do corpo, não ameaça qualquer movimento brusco. As lágrimas caem, eu sei, mas não por vontade própria.
Essa menina saiu do teatro municipal quando não tinha mais ninguém na plateia, muito tempo depois que as luzes se apagaram, e pelos ecos ouvidos do lado de fora parecia gritar sem parar. Ela usa uma língua outra, tão diferente das quais estamos acostumados. Não fala goodbye, não lê revistas, não vai ao supermercado, não toma banho, não tem carro ou viagem marcada. Ninguém a vê nos eventos da cidade, não sei nem se frequenta a escola.

Ela sentada embaixo da lua parece saber mais do que qualquer almanaque divulgado por trinta anos seguidos, todos os dias, em edição condensada, e ainda assim atingindo um número de 130 páginas diárias na Folha de São Paulo. Ela não sabe sobre os acontecimentos, só da lua estática lá de cima. Não sei se tem afinidades com alguém, ela não revela sentimentos e parece não se equivocar. Não sofre com a falta de dinheiro, estou pensando em como é que ela se banca. 

Acha tudo imprestável; o menino da esquina lhe ofereceu um doce, um sapato novo, uma bola de papel; ela não quis, continuou observando a lua e deixando as lágrimas tombarem quando não couberam mais dentro dos olhos. 

Essa menina-solidão não fala do mundo, mas para o mundo. Muitos já lutaram para conseguir conhecê-la, mas só ela nos reconhece e sem maiores intimidades consegue transfigurar o que nos rodeia. Possivelmente adotando petúnias “das vilezas do chão”. Talvez seu amor cantado no escuro seja o álibi perfeito para muitos suicídios, ou, para os mais otimistas; salvação. Não sei com certeza, porque ela não fala assim tête-à-tête, então acaba dando margem, abrindo uma terceira margem para muitas interpretações. 

Uma página em branco a assusta, a faz tremer e quando deixa nela pingar uma letra; acaba jorrando o pote todo com mais pretinhas que provocam, porque não falam Nada; nada sobre o tempo úmido, sobre o show de quinta-feira passada. Essa menina tira as redondas da penetração, do gozo chocoso e deixa espirrar na nossa cara a falta danada da falta. Não se atreve a falar do amor em voz alta, em horas contadas.

Serve-se da lua refletida no chão, dos gafanhotos que brincam em seu centro, e que se agrupam um atrás do outro como renas; até fazerem um trenó que se reflete lá em cima, que faz a gente pegar emprestada a imagem de um símbolo de outro país, dos filmes reprisados em vésperas da chegada do peru.
Trouxeste a chave? Essa menina está ali sentada, vamos abrir a porta e deixá-la tecer algo que precisa ser renomeado, mas que para nós em tom anunciado chamam de Natal. Natal de promessas para ser feliz; Natal de árvores mágicas fincadas no chão. Natal de menina desenhando trenó na lua.

Abramos então a porta e deixemos a menina entrar e construir imagens com as palavras que nos faltar. Há casas que se compõem de atos, ruídos, mobiliário, televisão; essa aqui é muito engraçada e se faz com palavras, com gramática quase insana, de relacionamento voluptuoso. Por aqui não existe rei nem regências; mas “uma certa luxúria com a liberdade que convém” até, para quem quer trazer o Natal. 

Priscila