sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Tim Tim

Final de ano é uma comemoração atrás da outra, e na casa não se fazia diferente, as três comemoravam diariamente toda e qualquer novidade, um novo quadro, uma nova canção que toca, um novo adereço. Sexta-feira e ela ainda se recupera da comemoração de quarta-feira a noite, afinal foi uma celebração extraordinária, um mês desde o início, da mudança, da constituição desta casa.

Era feriado em alguns locais, dia de Imaculada Conceição, mas não na casa. Aqui não há dia útill, horário comercial, final de semana ou feriado, ela está sempre aberta, e assim esteve durante todo este mês. Era uma ocasião especial e cada uma estava no seu quarto, se preparando para o evento, e podiam-se ouvir os pensamentos nervosos delas quanto a recepção, se os convidados compareceriam, se viriam acompanhados, se haveria comes e bebes suficientes para que as pessoas se sentissem satisfeitas, se as acomodações eram aconchegantes a ponto de deixar todos a vontade e com desejo de voltar outro dia.

E assim uma delas foi a primeira a ficar pronta e lindamente deu início, foi a primeira a se apresentar a um público inicialmente tímido, muitos não sabiam do que se tratava e adentraram pela curiosidade, mas ali permaneceram, na expectativa do que viria em seguida. E veio aquela elegantemente vestida em preto e branco, conquistando outros novos participantes e mantendo a atenção dos que já estavam ali presentes. E a terceira carregou mais alguns festeiros para a sala de estar, e encerrou o primeiro ciclo, deixando a impressão de que outros virão.

A celebração continuou em meio a sonhos, casas, encontros, visitas, e a receptividade dos convidados era contagiante, atraindo outras pessoas que passavam na rua e nunca haviam visto estas mulheres, ou desconheciam seu novo lar. Ouvia-se pelos cantos: “De onde surgiu esta casa?”, outros mencionavam nomes de arquitetos responsáveis que elas mesmas nunca ouviram falar, e continuavam “São três irmãs que vivem na casa?”, e afirmavam “não são irmãs, porém traçam juntas cada ornamento nos mínimos detalhes antes de abrir aos visitantes para que haja entrosamento”. As três anfitriãs trocavam olhares e sorrisos de cumplicidade por terem, despretensiosamente, despertado tais reações, e ganhavam confiança a cada comentário para um próximo ciclo, uma nova apresentação.

Após trinta dias, elas vivem a emoção de um amigo secreto diário, a cada visita que surge de origem desconhecida, com ou sem recomendação, contabilizadas anonimamente ou através de declarações explícitas de entusiasmo, elas se revelam. Na quitanda do bairro, no farol do trânsito, na caixa de correio ou dentro de suas próprias casas (as outras casas reais) elas são abordadas e surpreendidas por pessoas que já lhes visitaram em sua casa imaginariamente compartilhada e tem algo a dizer a respeito.

Em uma casa real, hoje seria dia de arrumação, juntar e lavar louças, encerar assoalho, levar o lixo para fora. Mas nesta casa não, aqui a festa continua todos os dias, e o acúmulo de pessoas e os rastros destas que por aqui passam, a tornam cada vez mais imaculada. Que as visitas retornem, que haja sempre espaço para os novos, e que venham mais trinta mil dias desta fluidez natural de tríplice irmandade não combinada, a qual surpreende até mesmo cada uma das mulheres que aqui vivem. Saúde!