quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Sobre expectativas

É perturbador quando tentamos conhecer alguém por meio da escrita. A escrita constrói casas, edifícios, protocolos. Da escrita nascem sonhos, profissões... Quem gosta de escrever é absolutamente feliz escrevendo, dá para deixar as letrinhas soltas, ensaiando o dia todo, dá para fazer a vida com elas.

Nós, aqui da casa, fomos apresentadas por meio da escrita, “amadrinhadas” por uma escritora que observava nossa solidão literária e que queria fazer dela conexão, textos que conversassem! Quando o projeto nos supera é maravilhoso, e superar é o mesmo que se tornar vital. No primeiro texto que li da Fernanda sai dele ritmada, falando como ele, até hoje guardo na memória a imagem dos filmes clássicos da Disney, das entradas triunfais das princesas em seus castelos. O curioso é que essa lembrança me vem agora por meio do texto, mais do que dos próprios filmes, talvez a leitura tenha me proporcionado certa fruição que os próprios desenhos não conseguiram despertar – tamanho foi o encantamento. 

Quando li o texto da Erika sobre casas reais, tive uma crise de choro que me acompanhou pelo dia todo. Sabe aquela coisa de lermos autores consagrados e depois vir alguém da própria casa dizer o que você procurava anos a fio? Foi mais ou menos isso. Os textos que escrevia eram sobre casas imaginárias, desejos, sonhos, invenções... E os da Erika aterrissavam, faziam poesia do cotidiano, mostravam estranhamentos da vida a dois, refletiam uma escrita de reconhecimento para muitos. Achei-a tão corajosa, isso de escrever sobre sensações é quase que imprimir o que se fala no divã e transformar a confissão em texto arquitetado, em escrita de transformação, em declarações que explicam mundos. 

Por que será que os meus textos criavam histórias para além do cotidiano? Há tanta poesia no desconcerto da vida, talvez para entendermos que ela sabe mais do que nós, se nós não a comermos ela nos come... “A vida come a vida” como está no conto A quinta história de Clarice Lispector. Não estar em sintonia com ela é quase como entregá-la ao diabo e viver tudo que não seja a sua própria vida. É necessário encararmos o que somos, mergulharmos fundo em nós mesmos. Daí as personas podem nascer. Ter a consciência das máscaras é se (re)conhecer. 

As escritas de ambas completaram a minha e me tornaram completamente dependente. Segunda, quarta e sexta são dias que ganharam uma cor diferente, são dias de expectativas, sinto até medo delas. Quando a Erika disse que viria por fim realizar nosso encontro “real” na semana do Natal, cheguei a pensar que não deveríamos concretizá-lo, senti medo de desfazer a sintonia realizada em um mundo outro. Como faremos se não conseguirmos a mesma conexão nas conversas reais? Não sei, talvez a gente faça como um amigo falou certa vez a respeito do sexo – “depois que tudo acaba e não há nada a dizer” (que triste!) – “viramos pizza e pronto”! Achei uma ótima solução, pode ser que eu vire pizza! 

Sintonizar-se com a escrita é criar uma terceira margem, onde dela possamos dizer que chegamos atrasados, mas ainda assim não será sentido o cansaço do trânsito. É tomar cerveja e ficar zonzo sem se preocupar com quem é que irá dirigir. Compartilhar uma vida outra, uma língua outra, é quase que se apropriar de outro mundo. Porque ali podemos chegar atrasados ao restaurante, pedirmos algo exótico e experimentarmos o seu sabor sem a frustração daquele prato não ter na cozinha. Na escrita você o coloca à mesa e até decepciona o leitor com o gosto se desejar... Ah, mas bom mesmo é deixá-lo comer sentindo o melhor de todos os sabores, para que ele possa voltar sempre e com fomes novas.

Queridos, vou deixá-los porque estou atrasada para o encontro com as meninas das casas reais! Depois conto em conto como foi para vocês.

Priscila