quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Sobre escritas


Olhar-se, conectar-se à solidão, à intimidade, rever as máscaras, tirá-las antes que elas grudem em você; são alguns elementos motivadores de matéria para escrita. Quando eu estava na faculdade, achava dificílimo escrever todas às vezes que me deparava com um texto de Fernando Pessoa, ou mesmo com a prosa de Machado de Assis; autores que aparentemente já disseram tudo. E como é que a gente escreve diante de textos tão belos e que atingem certa completude? Já que suas escritas salvam vidas.

No entanto, mora aqui uma vontade infinita de escrever, de traduzir aquilo que sinto ou mesmo por motivação; por experiência. Como se através das palavras eu começasse a ter um domínio, ainda que pequeno, sobre o mundo - assim como Clarice Lispector já propôs. Falando nisso, nessa semana conversei com um amigo via MSN e ele disse que ouviu no rádio uma canção que se parecia com algo que eu havia dito. Tal música eu fui conhecer depois, mas tive a sensação dele não ter gostado de ouvir os versos duas vezes. Sabe essa coisa de ser inédito? De ser preciso sempre? De descobrir e colocar em palavras aquilo que ninguém ousou?   
                                                                      
Palavras são refeitas, reescritas, revividas o que muda mesmo é o modo de dizer; o tempo, o espaço, o público, a circunstância. Uns dizem em voz baixinha, em textos engavetados. Outros a dispensam e vão aos palanques, às mesas de bar para serem ouvidos por muitos colegas. Alguns preparam auditórios... Ah, vou parar de pensar nisso senão vou deixar de escrever. Uma amiga ressaltou certa vez: “o artista falou, falou e o pior é que não disse.”

Na semana passada resolvi desacomodar as coisas e me lançar para lugares nunca idos, a não ser na escrita. E numa dessas aventuras (no sentido de ir sem roteiros turísticos ou afetivos) sentei no banco para assistir à reinauguração da casa de um poeta. Não conhecia as pessoas, e por não conhecê-las fiquei comigo. As senhoras chegavam e se cumprimentavam, algumas usavam chapéus e sorrisos emprestados, os homens de terno ensaiavam discursos; protocolos que compõe esses eventos.

A casa do poeta agora é patrimônio cultural. Ainda assim não pude adentrar na casa, fiquei no quintal. Às vezes a gente vai buscar arte e acaba sendo recebido pela política enviesada; de lobbys e interesses pessoais. Mas fato é que se sentar no meio dos saltos, ficar mais perto do asfalto do que do palanque, nos dá uma sensação de não pertencer a nada e as palavras parecem brotar dali, escapar pelas pontas dos dedos e aparecer no papel sem ao menos forçarmos a imaginação. Fiquei desarticulada, mas as pretinhas articuladíssimas, se reconhecendo uma após a outra. Talvez eu tenha esquecido todos os textos já lidos, porque as danadas saíram livres... E depois de colocadas; procurei a tradução para o que tinha presenciado, e esse mesmo poema que nasceu clamou por uns versos lidos em voz alta de Guilherme de Almeida:

"Íngreme, estreita, escura e curva é a escada que sobe para minha mansarda. Capaz de desanimar os velhos fôlegos cardíacos, nunca, entretanto, intimidou meu já muito vivido coração. Pelo contrário: leva-me leve, alado como os anjos da escada de Jacó. Jamais me arrependi de tê-la subido. Sempre me arrependi de tê-la descido. Porque é mesmo uma ascensão ir pelos seus degraus acima: um desprendimento do rasteiro, numa ânsia de quietude, isolamento e sonho, para o pleno ingresso nos meus Paraísos Interiores."

A poesia sabe mais do que o poeta e do que qualquer um. O importante é subir as escadas, desligar-se das horas vorazes e adentrar nos “paraísos interiores” do artista, para que deles possamos encontrar os nossos. 

Priscila