segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Sobre escritas, também.

Desconheço os processos da Escrita -
sei que ela grita e que, orgânica,
não submete sua natureza à minha
(não por falta de tentativa):
apenas intuo ciclos,
ressacas marés maremotos
a mágoa das tempestades,
o ar-tornado poesia, os tsunamis evasivos
e os textos vulcões terremotos que rasgam fendas por dentro,
buracos e cicatrizes na alma,

e vazam eu derretido.

... E pressinto as estações,
perplexa com os segundos do tempo e a inevitabilidade do ritmo.

Vejo a primavera nítida das cores,
função da flor e da arte: construir alma nas coisas, provocar intensidades
em que memórias e nomes são banquete para os sentidos.
Palavras que brotam da testa com naturalidade endêmica,
e dançam tecendo ideias que embaralham os conceitos
recriando sentidos possíveis como em um jogo de tarô.
... Ah, a escrita passaporte para a imaginação criativa,
dom demiúrgico de criar, criança
que se pega sabendo falar e nomeia como quem dá vida.
A fonte da juventude: no princípio era o verbo
ou dia de primavera florida?


E então a Escrita amadura no calor do verão vermelho
e aprende a voar lá para o alto e a ver o labirinto inteiro,
por cima das coisas da vida.
Surgem as abstrações infinitas: busca-se compreender o processo da Escrita
e o processo de compreender o processo,
espelhos na frente de espelhos e o mundo é reticências -
escrever sobre escrever
escrever sobre a Escrita
escrever sobre escrever sobre escrever a Escrita.
Pensamento obsessivo.
Penso, logo escrevo.
Dane-se a vida: palavra-Ícaro que quer alcançar o sol
e tem asas derretidas.
A alteridade se torna o sufoco da autocrítica
e o Eu quer ser visto em palavras bonitas como os biquínis das surfistas.
Os olhos de um Outro aqui dentro julgam a criação antes de sua criação
e travam o grito no espelho.
Verão:
estação em que a escrita de um Eu ilusório,
feito de certezas e memórias,
acredita que é a última palavra sobre a realidade...
até ser jogada de novo para sua história.


Mas é só lição de humildade, romper o ego no meio
e o sol é um pêndulo que volta para o escuro de onde veio.

E depois de voar para o céu e cair tão sal da terra,
a Escrita envelhece de tédio na maturidade do outono,
o oposto da primavera:
nada de novo se anuncia, folhas e cabelos caem.
Mas flores secas também são belas:
é época de colheita, de tirar do forno os bons poemas
que escaparam do impulso infantil e assaram por meses em espera.
Escrita madura. Sólida, calma, certa.

Até que se anuncie o silêncio,
e então do inverno nasça a Escrita que ainda não há.
No vazio verbal, palavras mudas se temperam à sua própria sorte:
me desapego do dito e volto para o breu da casa de dentro
para experimentar o eu, não o pensamento.
Canto desenho danço toco bongô violão tão mal
e feliz que ninguém escuta, porque o ato é um ritual
solitário.
Prendo a respiração para ouvir no peito o som cru de um coração arbitrário,
fonte do grito que não entendo e nem aspiro saber do que é feito:
a vida se enraíza nas sinapses do cérebro,
no lado direito.

...

Desconheço os misteriosos processos da Escrita
e minhas intuições têm a exatidão duvidosa
de uma meteorologista nessa Terra enlouquecida.
Não sei o que é gritado, não sei quem grita
e não sei por que cala, quando quer, a voz da vida.

Talvez porque o Eu nem saiba escrever.
Talvez porque o Eu não seja dono do grito.
Talvez porque o Eu só
... seja escrito.