quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Sobre Aprovações

É véspera de Natal mais uma vez, as cidades se iluminam, as ruas se enchem de pessoas sorridentes com seus pacotes e laçarotes, e por mais calor que faça, o bom velhinho se faz presente em todos os lugares com suas botas cano alto e sua roupa de plumas. Espírito Natalino, despertado de diversas maneiras. Seres que riem, que choram, que se deprimem com as músicas, que se afagam em meio a lembranças, movidos com a força de um dia que inexplicavelmente mexe com as pessoas.

Ela acorda bem cedo e caminha entre pinheiros enfeitados e bonequinhos de neve em pleno verão latino, e chega a uma agência de correio do bairro, onde encontra algumas das velhas conhecidas cartinhas de Natal. Impossível não se emocionar. Entre pedidos de bolas, bonecas e carrinhos, algumas crianças pedem algo para comer, um emprego para o pai, a volta de uma mãe que o abandonou ou foi “levada pelo papai do céu”, a cura de uma doença...seu coração trinca com a sinceridade daquelas palavras, advindas da dor.

Em um primeiro momento ela se assusta, foge, evita seguir esta leitura que a deixa tão abalada, passando os olhos rapidamente pelas folhas e se fixando àquelas que descrevem pedidos de brinquedos. Não funciona, a dor não se mede, não se julga, não se compara. Em um pedido de boneca ela encontra implicitamente a ilusão dolorida de uma menina que projeta em sua boneca a vida que almeja ter um dia, mas que ainda não tem consciência do quão difícil será, e quão frustrante se seu plano falhar. E o garoto que quer uma bola para ser destaque no esporte, movendo sua pátria enquanto ouve o hino e enche seus pais de orgulho, enquanto vivencia a angústia da possibilidade de um sonho banido por obstáculos que enfrentará para conseguir o seu lugar.

Quem nunca escreveu uma carta deste tipo? Ela com certeza já havia escrito, mas esta magia não fazia mais parte de sua vida adulta. Pegou a caneta esferográfica amarrada ao balcão do correio, abriu sua bolsa e retirou uma página da sua agenda sob o olhar de estranheza do funcionário do correio. Por que não escrever uma destas agora? Que bobagem! Ela não se achava no direito de invadir este espaço dedicado às crianças, aos que crêem na existência de um senhor que lhe manda presentes em uma única noite do ano. E ainda mais, com a condição de que tenha sido uma “boa menina” durante o ano.

No caminho de volta para casa se recordou da noite em que receberam a visita de sua madrinha e outros amigos, e que debatiam sobre escritas. A tal carta para o Papai Noel também era um texto, e assim como todos os outros estão sujeitas a interpretações e julgamentos de quem as lê. A motivação para que aquele pedaço de papel significasse algo era a dor de quem escreve, um incômodo não compreendido que sufoca a ponto de transbordar, que deve ser colocado para fora e encontra na escrita o meio para se materializar, sua forma de fazer um apelo, de colocar suas personalidades e ilusões, se transformando em um atleta, uma modelo, um provedor ou até mesmo de um Deus.

Sentou-se à sua escrivaninha e escreveu, escreveu e escreveu para o Papai Noel sem receio algum de não ser aprovada em seu crivo de bondade ou de idade. Se o velhinho é tão bom quanto dizem ele notará a sensibilidade da escrita que vem do coração, que flui junto com o sangue que transita em suas artérias, que levanta seus pelos do corpo todo e a faz digitar de forma tão intensa que lhe causa um misto de ânsia e êxtase. Aprovada ou não, o presente ela já ganhou!

Obs: Feliz Natal com muito AMOR para todos vocês, em especial às mulheres que se tornaram parte de mim: Pri, Érika e a nossa madrinha Lucila !!!