quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

SOBRE AMAR E ESCREVER

Perigo! Quando ele aparece é algo assim como a escrita, um tsunami, um tornado, uma cratera no asfalto para o nascimento de uma flor, um moinho de vento destruindo toda e qualquer forma estabelecida, uma folha em branco sendo invadida por letras pretas que unidas criarão uma nova história: calma! Estamos chegando perto. Possivelmente seja isso, uma invasão de soldados dentro de você para a proclamação de uma república com regras novas, de tudo, absolutamente tudo novo. 

Difícil falar dele porque ele tem dialeto próprio. Como é que a gente escolhe palavras tão antigas para discorrer sobre algo tão púbere?

Pensando bem aquela barba mal feita tem seu charme, delineia a boca rosada e cria certa feminilidade em um rosto másculo...

A casa está uma bagunça, um caos, mas o rapaz insiste em procurar a bateria da máquina fotográfica... Às vezes é um saco, tudo arrumado e quando ele chega é assim, essa desorganização física. Os óculos escuros estão em cima do fogão que tem embaixo um pano de prato.

“- Por que é que o pano de prato nunca fica no aparador?”

As desorganizações continuam.

Passos atrás da cadeira não me dão paz ao menos para escrever. O amor tira a paz?

Por vezes é difícil fugir da autobiografia, vou deixá-la aparecer em letras vermelhas para não confundir o leitor. De resto é ficção, reflexão profunda sobre a escrita, palavra articulada sobre o escrever: juro!

Quando a casa está caindo fora e dentro de você, organizar as palavras é o mesmo que organizar a vida, pelo menos para quem escreve. Desconheço quem tenha conseguido organizar o amor. Essa coisa de não se entregar à desorganização é como que se segurar em cima de um poste de luz com os olhos vendados e de lá... AAAAAAAAAAAMMÉÉÉÉMMMMMM! Quem não enxerga não ama, e quem ama deixa de enxergar. É mesmo uma contradição.

Escrevemos enquanto tem alguém lavando a louça em nosso lugar, enquanto tem alguém colocando as toalhas de banho para lavar. Enquanto alguém assiste a um programa de TV, à Tropa de Elite 2... O mesmo acontece com o amor, o mundo todo em outra lógica e você trancado no quarto amando sem parar.

Os barulhos dos pratos na cozinha não param. Não, não saio daqui até que seja concluída essa ideia, esse cenário, essa coisa que anda me revirando o estômago.

Abramos a porta das palavras. E como é que a gente escreve sobre o amor com todos os eletrodomésticos comprados, a conta de luz atrasada, o cachorro sujo, sujíssimo roendo o seu mais novo sapato.

“Chega Rogério, acabou a farra, vá para lá dormir.”

Como é que se manda o amor dormir? Não, não, não, hoje não vou salvar vidas. Mas esse menino mata e como mata, mata uma vida e te dá outra assim, fazendo você de bobo, o bobo mais feliz da maternidade que acha o recém-nascido com cara de ameixa parecido com ele. Ilusão de ótica? Sei lá, estava na vida tranquila até que el(e) chegou... 

Priscila