sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Resoluções

O Senhor da Razão bateu na porta e elas se entreolharam. Era tarde da noite e as três estavam no quintal contemplando seu novo jardim, finalizado esta semana, enquanto debatiam novos planos de decoração. Ela se levantou, abriu a porta e recebeu um ofício das mãos deste senhor sinistro, que logo se foi, como de praxe ele sempre passa rápido quando o queremos por perto. As outras a aguardavam ansiosas para saber o que continha em tal documento, e ela leu em voz alta: “Foi decretado oficialmente o início do final do ano”. Silêncio, frio na barriga, foram dormir.

Ao deitar na sua cama, não se aconchegou de bruços para dormir, e sim de costas mirava a luminária com os olhos parados, como se literalmente buscasse uma luz. Não estava perdida, mas refletia sobre a notícia há pouco recebida, indignada como ela não percebeu antes que isto aconteceria, que o ano acabaria. Abriu a gaveta e tirou uma folha intacta, várias linhas escritas por seu próprio punho. Que vergonha desse pedaço de papel! Ele está intacto porque em momento algum ela se lembrou de voltar a lê-lo, e há quase doze meses ela havia prometido que lhe faria visitas semanais. O papel refletia aquele olhar de “Imperdoável, minha cara”, e ela mesmo assim resolveu encará-lo, linha por linha, mesmo sabendo que cada uma delas seria como um tapa na face. A primeira linha foi surpreendentemente indolor, o que não aconteceu nas próximas.

Abriu a porta do armário e se olhou no espelho atrás da mesma...sabia que não estava com o corpo da Gisele, inclusive nem passou na porta daquela academia que ela tinha visitado e jurado que frequentaria, e continuava a sentir urticária só de imaginar aqueles barulhos dos pesos dos aparelhos de musculação. Convencida de que não cumpriu, porém sem arrependimentos, se limitou a riscá-la da lista futura, “Vamos manter a coerência desta vez”, pensou. Abriu sua carteira e viu que também não havia ganhado dinheiro como o Eike, apesar de ter trabalhado muito, mas ganhou o suficiente para suas necessidades e até alguns caprichos extras, e o melhor de tudo, com sua cabeça leve no travesseiro todas as noites.

Assim foi, esmiuçando item a item, passando pelos mais inviáveis, financeiramente e temporalmente, como dar a volta ao mundo em 30 dias, até àqueles que não lhe faziam mais sentido, por incluírem pessoas e hábitos que foram encerrados no mesmo pacote de alguns de seus ciclos vitais, naturalmente. Mas em um determinado ponto da lista ela parou e sorriu realizada, as letras brilhavam como holofotes de programa de auditório que anunciam “Você Venceu”, e isto a fez se virar e dormir como um anjo.

No outro dia, logo cedo, aparentemente as três tiveram a mesma idéia, e logo a casa estava lindamente bagunçada, suas vozes animadas e gargalhadas ecoavam, cada uma havia resgatado de seus maleiros caixas de artigos natalinos. Sentaram no chão em meio aos arranjos de todos os tipos, e juntas iluminaram a casa, como se mostrassem para aquele senhor que a mensagem foi compreendida, e que estavam preparadas.

Enquanto uma colocava música típica e a outra subia ao banco para pregar as luzinhas, ela rapidamente voltou ao seu quarto e resgatou mais uma vez a lista. Todos os itens riscados, com exceção de dois deles. Aquele primeiro item indolor, que lhe mandava “Ser feliz”, o qual julgava extremamente fácil cumpri-lo pela forma que se sentia hoje; e também aquele item brilhante, que era dono de uma vividez inabalável.

E assim, voltou para mostrar às outras a lista que fez para o próximo ano, a qual foi plastificada, enrijecida para durar muitos e muitos anos, resumida àquele item vivo e radiante, o qual certamente lhe completaria por todos os outros: “Escrever mais”.