quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A matéria de que são feitos os sonhos (The stuff dreams are made of – Shakespeare)

Escrevo para achar as respostas. Escrevo para tentar explicar a vida que se faz diariamente dentro de mim. Escrevo para me desnudar. Escrevo para tentar explicar o que não se explica. Escrevo para mistificar o que sou. Escrevo para construir um lar. Escrevo para me encontrar e me perder. Escrevo para revelar desejos, para descobrir vontades. Escrevo para me (re)construir. Escrevo para ser, ainda que essa escrita nasça frágil, capenga, confusa, com volume baixo, sem falo; ela também sou eu. Escrevo para expor o coração, mesmo que meus sonhos se sobreponham ao que sou. Escrevo então para me salvar! Escrevo - logo existo - e, assim, fico livre de mim!
            E nessa escrita quarta peguei emprestada as asas do último aniversário da Erika: “É traje para fantasiar-se”, disse. Pedi ajuda para Fer, para que encaixasse certinho e deixasse que a separação das duas asas ficasse exatamente no meio, na minha coluna, naquele osso extenso que começa na nuca e termina com o nome de coquis. Fui para o jardim e encontrei uma árvore enorme, centenária, com as raízes fincadas no chão. Era a nossa conselheira, sempre que temos um problema a abraçamos e de sua força vinda da terra e do sol voltamos a fazer o caminho. Cravei os pés, as mãos em seu troco, e sem medo de cair subi. As asas estavam pesadas, para que afinal eu precisaria delas? Seria necessário um peso-asa para materializar meu sonho em tê-las? É preciso colocar asas para subir numa árvore, como tentativa de alçar voos? Decidi abandoná-las e desci, percebi que sua força estava na terra, assim como a minha deveria estar.  
Meus pés estavam pelando e de tão marrons e machucados adentrei na casa. Queria antes organizar os estranhamentos. São três quartos, três camas, três escovas de dente, três louças, “tríade, trinômio, trindade, trímero, triângulo, trio, trinca, três, terno, triplo, tríplice, tripé, tribo.” Ainda bem que três é ímpar. Tinha um vazamento na geladeira abrindo pares de águas pelo chão. Mas o rapaz do conserto veio logo.  
Como as coisas desorganizam a vida. Após a geladeira arrumada, faltava ainda lavar a louça de antes do café, tirar a poeira dos livros, a cama que ainda estava por fazer, o filme por alugar. Os telefonemas todos, as revistas no chão, as roupas na lavanderia, o menino do vizinho chorando... A vida e seu amontoado de coisas. Contudo da janela do quarto, da poeira, havia algo que se ressaltava, algo para além da desorganização da casa, uma força, uma beleza que me fazia mergulhar de corpo e alma em páginas brancas e ai era: “vivê-la ou morrê-la enquanto vive”, como numa decida de snowboard; uma experiência única, confusa, doída que transbordava do cotidiano.

 É dessa vida-lar que encontrei matéria para tentar escritas, ainda que sejam de sonhos, e sonhos têm começo, meio e fim, até para que eles possam ser ressignificados, refeitos, revividos em outras formas. Dessa casa que construímos, com os alicerces fincados no chão, organizada ou desorganizada, podemos alçar voos sem a necessidade de asas fantásticas, sem vaidades. Dela extraímos a coragem para descobrirmos o mundo, desbravá-lo e depois termos para onde voltar, para que, então, a viagem possa ser refeita.
Com o lar construído o céu passa a ser o limite.

Priscila