quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Carta a uma menina com autismo

- ... e então o sol chega no céu mais ou menos às seis horas da manhã, e começa a ir embora lá pelas seis horas da tarde, e aí vem a noite escura.
- Mas quem dividiu o tempo assim? Deus ou as pessoas?
- (...) Foram as pessoas. Antigamente.
- Só que agora a gente não é mais livre.


Ai, minha linda, que grande problema você levantou. Queria ter uma resposta que você entendesse, mas dessa realidade óbvia em que você vive ainda estou muito distanciada por pensamentos e interpretações, derivações da realidade. Não sei mais como dispensar as ideias intermediárias que um dia me serviram para apontar para as coisas, mas que hoje se tornaram coisas em si mesmas que só apontam para si próprias - fantasmas desencarnados, véus entre mim e o concreto.

Fomos nós, sim, humanos de prepotência majestosa, que criamos divisões no tempo, esse rio invisível em que os acontecimentos borbulham ao acaso, como as espumas das ondas na praia. Inventamos diques que não prendem água alguma. Porque nossa memória não concebe o infinito na consciência ordinária, organizamos lembranças e mapeamos com linhas imaginárias esse território selvagem que é o período acidental entre o nosso nascimento e a nossa morte. E, para podermos nos encontrar neste intervalo, compartimentalizamos o tempo - saquinhos de horas, caixinhas de dias, embrulhos de meses... e em cada pacote um Presente imediato adiado para quem sabe um dia.

E então, além de dividirmos o tempo, projetamos coisas muito curiosas nessas divisões: inícios e fins, conceitos matemáticos e filosóficos, deuses e lendas. E é por isso que agora as pessoas que te cercam estão comemorando: é o final de um ano e o começo de um outro, que alguns chamam de 2011, de Ano Bom, de Criança do Futuro, de Menino Jesus... Sim, eu sei que “um ano” não existe, é só uma abstração engenhosa, e não um ente... mas também é um truque de motivação, meu amor. Nunca ouviu falar de começar o regime na segunda-feira? É essa a magia do verbo e das representações, criar as fantasias úteis. Estamos todos nos vestindo de branco, como uma tela vazia para um pintor imaginário que chamamos de deus, e renovamos nossas esperanças com a superstição enraizada de que elas podem se realizar com mais facilidade nos novos tempos se fizemos uma forcinha maior no ato de desejar. E não é que funciona, às vezes?


... Querida, e eu queria também te dizer que só deixamos de ser livres quando nos deixamos guiar apenas pelas divisões. Quando o saco de desejos e memórias que é o Eu acredita que realmente tem controle e passa a viver em um mundo rígido de ordenações ilusórias, adiando a própria felicidade em nome de datas futuras que nem existem.
Porque não existem marcos, minha linda. A verdade é que você pode recomeçar todas as manhãs, o tempo todo. Nada está acontecendo de diferente fora do mundo dos homens: a Terra gira da mesma forma no baile orgânico dos astros, e a Natureza caminha nos ciclos, não entre fins e inícios. E, quer saber? Foi uma pessoa que tem o pensamento esquisito como o seu que descobriu: o próprio Tempo é relativo. Mas aí já é uma outra história...

Mas vem cá comigo: não é porque conhecemos os bastidores que não vamos fazer parte do espetáculo. Comemoremos também, meu amor, porque temos dois grandes motivos para isso: a realidade atual do que somos e a nossa enorme teimosia em sermos melhores. E vamos celebrar o árduo trabalho que realizamos em 2010: você no caminho de se apropriar da Cultura, o que pode um dia te livrar das limitações que os outros (mais do que o tempo) te colocaram. Eu, aprendendo com você a ver o mundo dessa forma tão brutalmente pura, e tentando me lembrar do Real aquém das representações, para um dia ficar livre das limitações que a Cultura (mais do que os outros) me coloca.

Felizes novidades para você. Sou toda gratidão.