segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A árvore de natal



Casa enfeitada, só faltava a árvore de natal.
Fomos para o bosque além do jardim à procura de um pinheiro bonito. Achamos um bem gordinho, de um verde intenso e ardido que fazia destacar. Perguntamos se ele queria virar árvore de natal de uma casa imaginada e ele topou no ato – imaginem só, poder andar e conhecer as gentes do reino animal, claro que ele queria. (Talvez fosse como um visionário dentro daquela população: todo lugar tem seu fujão, como a Anthônia diria.)
Veio se equilibrando sobre as raízes como uma bailarina na ponta. Curvou-se respeitoso para entrar na casa, e escolheu ficar ali no cantinho mais escuro da sala, perto das almofadas macias onde as visitas costumam fumar narguilé.
Pedimos que se sentisse livre para se enfeitar como quisesse, e ele devagar foi relaxando e deixando seu instinto o recriar: tateou o chão com as pontas das raízes, que foram encontrando as porosidades do concreto até tocarem o solo vivo, se aprofundando na terra. De pé, enraizado, se espreguiçou para experimentar um tamanho ideal e olhou por algum tempo para nós e para a casa, numa meditação vegetal.
E então, esticando com surpreendente flexibilidade os seus ramos curiosos, foi pinçando aqui e ali algumas coisas que costumamos guardar como significados ou memórias encarnadas: pedras bonitas de um rio tranquilo, animais em miniaturas, bonecas russas que moram dentro de outras que moram dentro de outras, uma romã seca do jardim, dobraduras em guardanapo com o formato de uma refeição especial. Embrulhou-os com papel vegetal antes de deitá-los aos pés, seu grande presente de natal para as três: o que temos de mais Real, lembretes a cada instante das coisas que somos de fato. (“Bobagem, né” - a Fer comentou-, “lotar o momento presente com ideias sobre quem gostaríamos de ser.”)
Nossos desejos, vontades e pedidos pra Santo Expedito não foram difíceis de encontrar, não: estavam dentro dos muitos balões de pensamento que flutuavam pela casa, alguns até se acumulando no teto e fazendo força para cima, quase arrancando a ardósia do chão. Sem dizer nada, fez deles bolinhas douradas e se adornou feito uma cigana vaidosa.
(A Pri, pensativa, falou que os presentes importantes ele já nos tinha dado, o resto era só de enfeitar.)
E então, por último, subiu por além de todas as atmosferas e pegou as Três Marias para se coroar. Escreveu nelas nossos nomes para que, quando nos perdêssemos demais pensando em nós mesmas - presentes que somos -, ou em nossos desejos - enfeites que mudam com o tempo -, nos lembrássemos de olhar para cima. E de ver com olhos virgens, em toda noite aberta, nosso nome projetado lá longe, em estrelas que têm a mesma matéria que compõe a nossa carne e que, acontecendo há tantos milhões de distâncias – onde o tempo se dilui no espaço até o universo começar -, mostram o infinito de possibilidades em que podemos nos perder, nos encontrar.



Possibilidades infinitas:
fé é o estado natural
para quem flui com a vida.
Pés fincados no Real
desejos como adereços
e o céu coroando a cabeça -
onde há espaço de sobra
para crescer em si mesmo.