sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Alicerces

Quase em frente a esta casa há uma mansão, imponente e ostentosa como uma mansão real deve ser. Desde o dia da mudança esta lhe chamou a atenção, até chegou a pensar em um momento, enquanto buscava a numeração da sua nova casa, “bem que poderia ser esta”...e em fração de segundos teve a fantasia de subir aquelas escadas de mármore, se perder em dezenas de aposentos, compartilhar aquela mesa de madeira de lei comprida com suas companheiras de casa e amigos. Enfim, não era aquela casa.

Dia após dia ela a admirava da janela do seu quarto, cada dia reconhecia um detalhe novo que não tinha percebido antes, como as maçanetas das portas trabalhada em tons de dourado, “provavelmente folheadas a ouro”, pensava. Os portões de entrada eram altos como de um palácio, oferecendo segurança para seus moradores, mas diferentemente de muros as grades não impediam que as grandiosas colunas se exibissem àqueles que por ali passavam e cobiçavam cada tijolo desta criação humana. Um belo dia ela comentou com as outras sobre a casa, a opinião quanto a sua beleza era unânime, assim como a estranheza de nunca terem visto seus moradores.

Mas a casa era habitada sim, luzes se acendiam, enaltecendo ainda mais a beleza durante a noite, assim como os jardins externos se mantinham sempre floridos e bem aparados...não entendia como, pois jardineiro algum foi visto por nenhuma das três vizinhas...também ouvia-se barulhos, vez ou outra um ruído de televisor, uma música não identificada, um tossido ou espirro menos discreto. Ah e como esquecer da garagem recheada de automóveis novos do tipo que qualquer homem desejaria...e também parados, o som do ruído de seus motores não era ouvido, ficavam ali apenas de enfeite.

Em um fim de tarde ela se encheu de coragem e foi bater a porta, ou melhor, tocar a estilosa campainha ao lado do portão, ao interfone veio uma voz fraca, como se estranhando que alguém tivesse ousado perturbá-la em seu reino. Um pouco assustada ela seguiu com seu plano e se identificou como vizinha, usando a velha desculpa da xícara de açúcar. O portão suntuosamente se abriu e ela entrou pelo caminho de pedras que havia até a porta principal. Não pôde deixar de reparar que as flores, grama e arbustos que tanto gostava eram artificiais, daí a explicação da impecabilidade dos mesmos.

Quando a porta abriu surge uma jovem mulher, muito arrumada e educada, mas de olhar triste e cansado. Disse viver ali sozinha, também não tinha açúcar, mas era nítido que a curiosidade existia da parte da moradora do palacete, que clamava por mais um pouco de prosa e dava indícios de um sentimento similar à carência, provocada pela solidão. A desculpa para entrar havia funcionado, ela não queria açúcar mesmo, então começou a conversar com aquela mulher de idade próxima a sua. Quando disse em qual casa vivia os olhos da outra se iluminaram e comentou “Nossa, morar naquela casa deve ser um sonho, os alicerces são belíssimos!”.

Espantada ela voltou a sua casa, não conhecia de arquitetura ou engenharia, e pela nomenclatura não soube identificar fisicamente o que seriam estes tais alicerces. Mas ao olhar sua casa pelo lado de fora e ao virar-se para comparar com a tal mansão, os reconheceu logo de cara. A sua casa foi construída em uma base sólida, tinha amor, tinha respeito, tinha sentimentos, tinha raiz, tinha vida. Adentrou sorrindo para as outras duas que colocavam a mesa do jantar, trazia consigo a mulher da casa ao lado, que logo tirou seus sapatos e se sentiu a vontade nesta estrutura simples, construída com o coração, e de valor imobiliário inestimável. Esta casa era sim muito real.