quarta-feira, 17 de novembro de 2010

VISITA


Batem à porta. Quarta-feira, já passa das 20h, na cozinha o bule borbulha águas-ideias das meninas que preparam o chá de despedida para o dia. “Quem será?” Do olho mágico a aba do chapéu esconde um homem barbado, casaca escura, estatura média baixa, olhos encovados... Apreensivo, rodopia uma bengala charmosa que sombreia seu par de sapatos, caminha de uma extremidade à outra arrastando os pés no chão.
A porta é aberta, ele se desculpa pelo horário, já que do Cosme Velho à Casa das Três Mulheres demora quase dois dias vindo de trem e, além do mais, após saltar na estação não pôde tomar um bonde, pois os horários tinham sido atravessados.
Ele se irrita por não encontrar um porta-chapéus, expliquei que havíamos mudado a pouco mais de uma semana... O recém-chegado olhou para estante que se encontrava ao lado das xícaras de chá e avistou uma sequencia de livros que levava a letra dourada das iniciais de seu penúltimo e último nome. As escritas estavam ali, existindo pela consciência de seu próprio corpo, mas agora se encontravam com seu criador. Foi então que, observados por elas, nos sentamos:
- Cansado?
- Tudo cansa até a solidão.
- Mas o senhor não teve filhos?
- Não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.
- Está se sentindo bem?
- Sinto a consciência, cara senhora. A consciência é o mais cru dos chicotes... O povo precisa fazer anualmente o seu exame de consciência. Pelo menos, de quatro em quatro anos, no dia das eleições.
- O senhor votou em qual candidato?
- Nenhum. Não me irrito, portanto, se me pagam mal um benefício. Antes cair das nuvens que de um terceiro andar.
- Sei, sei, o senhor, como muitos, perdeu a fé.
- Não é bem assim. Tenho o coração disposto a aceitar tudo, não por inclinação à harmonia, senão por tédio à controvérsia.
- Acha que o Brasil vai bem ou perdeu-se?
- O país real, esse é bom; o povo revela os melhores instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco.
Meu interlocutor disfarça leve bocejo e comenta, com um vestígio de sorriso irônico, que dormir é um modo interino de morrer. De repente, ele está mais loquaz. Do sono sinônimo de morte pula para o tempo, sinônimo de tédio, e sugere o dilema: matamos o tempo, o tempo nos enterra.
As luzes fraquejam. Por nós aparece o pássaro da meia-noite. Olho a casa vazia, minha voz ecoa, nesse distrair o velho mestre desaparece. Desvaneceu-se. Será que recebemos a visita do bruxo Machado de Assis? Vou deixar o meu querido leitor fazer o julgamento. Se não identificar, dou-lhe um piparote, e adeus.


Em nossa casa a visita do homem que conhecemos de nome ou de chapéu, ou mesmo das escritas que mantém em si eterna contemporaneidade. 

 Priscila Topdjian