sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Uma Outra Casa

Foi uma semana agitada nesta casa, entre transes e mergulhos, a vida continuava porta adentro. Mas hoje ela decidiu que sairia em busca de novidades para compartilhar com suas companheiras, afinal o melhor de se ter uma casa é poder sair, viver, desbravar, e depois ter para onde voltar com segurança e muita história para contar. Mas ir para onde? Entre o triste caos que se encontrava mundo afora, em que as lágrimas escorriam do rosto do nosso Cristo Redentor, seu coração desejava encontrar um canto de paz, onde reinaria o bem e a alegria.

Pensou em ir embora para Pasárgada, mas não era de amizade com o rei que ela precisava, tampouco de grande aventuras, a sua única vontade era encontrar outras semelhantes que a entendessem por sintonia, identificação. Mulheres, só elas mesmas para se compreenderem... e olhe lá. Passou em sua mente aqueles lugares comuns como salões de beleza, shopping centers e portões de colégio...credo, se surpreendeu pelo pensamento machista e antiquado. Não que ela não gostasse de se cuidar, de fazer compras ou sonhasse em um dia buscar seus filhos na escola, mas sabia muito bem que mulheres são capazes de ocupar qualquer lugar do planeta, sem limites, basta querer.

Saiu pela vizinhança, caminhando na rua tranquila e arborizada, pensamentos distantes, quando uma casa de portão branco se destacou, não pela casa em si, mas pela luz que irradiava de suas portas e janelas. Curiosa como é, se aproximou, e antes que tivesse coragem de mexer no cadeado para se certificar de que estava trancada, uma senhora surgiu atrás dela, “Pode entrar, o cadeado está só pendurado, a casa está aberta”. Tomou um susto, claro, e silenciosamente fez sinal de que esperaria do lado de fora por enquanto, e a mulher sorriu como se soubesse que ela voltaria atrás nesta decisão, e entrou com seus passos firmes, carregando em seu antebraço direito um livro grosso com uma capa de matelassê estampado, um charme.

Continuou a observar a casa, o jardim e as plaquinhas de madeiras com dizeres lhe convidavam a entrar, mas ela não sabia o que lhe esperava, e conservadoramente recuou para o outro lado da rua, um ponto que a permitia continuar o processo de vigia. Mais e mais mulheres chegavam, todas muito diferentes fisicamente, não tinham a mesma cor, idade, classe social, credo ou estado civil, somente o sexo. Reparando bem elas tinham outra semelhança além de serem mulheres, elas demonstravam atitude em seu jeito de caminhar, demarcando pé ante pé a que veio ao mundo, juntas exalavam determinação como uma alcatéia. Uma leve inveja lhe bateu ao constatar que gostaria de ser como elas...e ao mesmo tempo, sem se dar conta como, já estava dentro de uma sala com todas elas.

A recepção foi calorosa, inexplicavelmente como se ela frequentasse ali há muito tempo e conhecesse cada expressão daqueles rostos, e mais do que depressa essas amigas lhe emprestaram um dos livros para que acompanhasse a leitura em círculos. O sino tocou e elas entraram em uma outra órbita, em contos antigos e incrivelmente atualizados com a realidade vivida por cada uma delas...naturalmente as discussões brotavam, desabrochavam e floresciam, assim como ela no centro da mesa. Vozes na sala ao lado cantavam para os ossos, em um coral que bradava beleza e bons fluídos.

E assim surgiu uma rotina, todas as semanas ela estava lá, se abastecendo de cultura e selvageria entre aqueles cômodos abençoados por livros, filmes, músicas, quadros e gestos humanos...às vezes encontramos mulheres chorando, na maioria das vezes gargalhando, mas sempre se iluminando e transbordando em auto-conhecimento. Ontem houve a confraternização de final de ano desta casa, e para ela foi uma consagração de um amor cada vez maior por este grupo de mulheres que correm com os lobos.

Obs: Para quem quiser conhecer esta casa, ela realmente existe: www.casadasflores.art.br