quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Terceira

Sexta-feira, diva da semana, se torna ainda mais aguardada em períodos de mudança, a hora de encarar o assombroso e almejado novo. Ela checa o endereço novamente, sim, está parada diante da porta de sua nova residência. Retira sua cópia da chave da bolsa, tem dificuldade para acertar a fechadura pelo tremor das mãos. Tremor este que é reflexo de seu coração disparado, porém seus olhos brilham. Ela gira a maçaneta e arrasta adentro suas bagagens que, mesmo carregadas de experiências, dispõem de muitos espaços a serem preenchidos.

A casa é linda, com cores fartas, aroma de flores cítricas, iluminação própria, aconchegou-se. Sua ansiedade é digna de jovem que sai de casa para iniciar faculdade, mas ela já passou desta fase há anos, por que então este sentimento de volta? E desta vez ela vai dividir as tarefas e responsabilidades com mais dois moradores. Duas, na verdade. Ela olha as três portas, duas já foram escolhidas, resta-lhe a terceira. E não é que, mesmo se as outras estivessem livres, ela ia escolher a terceira de qualquer maneira? Coisas de instinto, ótimo sinal.

Seu quarto é de vasta amplitude, quase infinita, independentemente geminado aos outros, dono de uma liberdade que a possibilita redecorá-lo e redescobri-lo a cada semana. Aquele frio na barriga delicioso toma conta dela...mas e se ela não tiver peças suficientes para mobiliá-lo? Pausa. Ah, mas criatividade nunca lhe faltou! Já houve sim momentos em que uma parte quebrou, se perdeu, ou não ficou exatamente como ela queria, mas uma solução sempre surgiu, uma segunda opção, o capricho de uma remenda, funcionaria para suprir uma área em branco...tranquilizou-se...por pouco tempo, estava agitada.

Um misto de curiosidade e impulso a fez bater na porta do primeiro cômodo, a qual se abriu exibindo a bela e mística figura de uma antiga conhecida, alguém que já viveu ali antes...talvez não exatamente ali, mas em uma casa mais bagunçada, repleta de crianças e pré-adolescentes cheio de expectativas, diversas vezes contidos por limites impostos pela educação interiorana. Impossível não recordar desta garota canhota que, ao baixar a cabeça frente a uma folha de papel, produzia beleza através de letras grandes e arredondadas...o prazer de reencontrá-la de forma tão próxima, e tão cúmplice, lhe dava a certeza de que nunca foram realmente separadas.

Na ponta dos pés ela espia o outro cômodo da casa, a moradora não se encontra naquele momento, então ela sorrateiramente observa as fotos na parede, os textos deixados em cima da cama, o retrato em preto e branco sobre a cômoda...e lhe chama a atenção que, colocando de forma piegas, o destino lhe reservou um novo sobrenome Armenio à sua vida. Mesmo que ela não estivesse presente fisicamente, seu encantamento e sensibilidade estavam. Afinal, como não se curvar em adoração a quem foi responsável pela construção da casa, a base para este início de história?

E, inevitavelmente, toda vez que surge a palavra CASA, ela se recorda de seu conto de fadas preferido, a Bela e a Fera...”Home is where your heart is” (Casa é onde seu coração está), e já que o romantismo exacerbado da ficção que se diz infantil prevalece neste momento...”There is no place like home” (não há lugar como nossa casa), já dizia Dorothy com seus sapatinhos vermelhos durante sua busca pelo retorno ao lar, ao lugar onde se sente segura, confortável e capaz de sonhar sem medo de ousar.

E assim sua alma se enche de alegria ao constatar que, a partir de hoje, seu coração estará aqui.

E este é apenas o prefácio da narrativa destas três personagens, sejam elas três sonhadoras, três bruxas, três princesas, três lobas, três crianças, três metamorfoses ambulantes, definitivamente três mulheres...unidas por uma única fada madrinha: Anthonia. Bem-vindos a nossa casa!