quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Retrato em preto e branco

Sentada na triste cadeira do cine Eldorado, pouca mobilidade, chiados perseguem os contidos, mas necessários movimentos. Ao lado, algumas faces desconhecidas, memórias que pelo olhar parecem terem sido perdidas, tomadas por alguma instância incômoda.
A tela se abre como cortinas pretas, ao centro uma menina branca espera pelos pais num orfanato em mais um final de semana. Fora abandonada, vive ao acaso de uma vida por se construir, por se ganhar em meio a um buraco negro de mágoas, de esperas e nunca chegadas.
Tem nos olhos o reflexo preto e branco dos dias, das roupas-freiras, dos quartos grandes e impessoais. Restou-lhe a costura, quando por demais já crescia e não cabia nas grades da cama emprestada, daquelas que quando se ultrapassa os pés pelos seus vãos, sabe-se que é chegada a hora de lhe ceder a quem ainda não envelheceu o suficiente para nela caber.
Para essa menina sem amor, o que resta, por vez, é a vida consumida nas esquinas, onde só se caminham após o entardecer. Para os outros, os vestidos das dançarinas e a música cantada com alegria para os ouvidos despercebidos, para corpos tomados pela sensação rápida do prazer. Para a menina que cantava e costurava a roupagem, restava a dor de não querer estar ali.
Desse retrato em preto e branco essa menina recolheu as malas que de vento e abandono sempre estiveram prontas e foi a Paris, na tentativa de viver sem ser do ninho, na casa de um dos poucos homens generosos que a ouvia cantar.
Ali degustou livros desnuda, sem indicação de serem ou não bons. Das dançarinas que divertiam o homem que a hospedava, retirou-lhes o que não vestir. Transformou a infância em tecidos pretos e brancos ousados, desfigurados, alargados, sobretudo maiores do que as camas estreitas da criança que rápido venceu.
Da inquietação, dos dias nublados, da angústia-navalha por não ser o que a vida lhe entregou, aprendeu a amar com entrega, aprendeu novamente a se frustrar. Desse preto e branco manchado em sua existência, recortou a memória dos traços, dos tecidos, da moda que nos acompanha, fazendo dela movimento, classe, sofisticação e arte ainda por se descobrir.
Trago para decorar a nossa casa um retrato em preto e branco de Coco antes de Chanel, menina brilhante que, posteriormente, personificou a mulher moderna e se tornou um símbolo atemporal de estilo, liberdade e elegância.

Priscila Topdjian