segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O meu pai era paulista.

A Coco Chanel preta e branca sorriu quando viu que era hora de desempacotar os presentes. Combinamos de abri-los à noite, no luar quieto do quintal.
Expliquei a brincadeira: toda lua nova e cheia - um hábito quinzenal - fazer fogo com madeira recolhida das caixas de fim de feira. Foi quase um ato solene, nossa primeira fogueira.
E então comecei a abrir os presentes que trouxe pra nossa casa. O primeiro, um microscópio falante de alta definição, pra aumentar o invisível. Dispensa televisão: apresenta com legenda cada detalhe do mundo, cada pedaço pequeno.
Para o porão, três pás para cavucar o chão e descobrir fósseis, lembranças, testemunhas do passado, passos de moradores antigos e carbonos radioativos. O telescópio para o teto, pra diminuir o tamanho das coisas e egos e lembrar que o universo é todo poeira do mesmo saco.
Trouxe pro nosso lavabo um Buda de calças molhadas - quem sabe as visitas aprendem a meditar na privada (meditar é fazer nada). E a estátua de São Francisco é pra botar no jardim, na entrada do labirinto, onde dá medo de entrar e onde moram as borboletas amarelas que colecionei em Macondo (elas contam a saída pra quem sabe escutar).
Atrás da toca do coelho, pensei em pôr o jardim de inverno onde reina a lagarta da Alice que faz formas com fumaça - fechado para os desavisados por causa da erva e do cacto, ambos contra-indicados para os males da cegueira. O canteiro medicinal pus ali, onde tem luz abundante, do lado da rosa gigante que abre uma cor por dia.
E, por último, um relógio noturno para pendurar no varal, que mostra a fase da lua mesmo quando o céu é nublado, pra gente não se perder no calendário humano artificial.

Depois de fincada a bandeira da imaginação na Casa das Três Mulheres – um sobrado construído na teia de aranha moderna, nas reticências dos bits, nas telas de outras pessoas -, quando o fogo era brasa velha e a noite já ia alta, fizemos o nosso primeiro brinde:
- Evoé, jovens à vista!
Que histórias são raízes, passado e genealogia. Vamos contar as nossas como quem procura pistas.