quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Mergulho

Da porta de madeira de lei que dava para o jardim, encontrei rosas brancas que de tanto florir criaram teias de pétalas e espinhos de pontas falsamente arredondadas. O roseiral cobria uma lona azul marinho. Aos poucos fui retirando as rosas vivas, mortas e as pequeninas que desabrocharam em sua pequenez, mas que ainda assim se mostravam rosas.
Algumas vieram escurecidas pelo tempo, pelo vento, pelo orvalho. Havia um mar de águas, algo a ser descoberto, e na mistura de rosas e gotinhas e lonas de aparência áspera, mas que ao tocar eram macias, fui retirando o que a encobria. Após a descoberta, valeu a pena o cansaço da tensão. Ainda que por olhar o que se toca, se sente, mas o que não se pega.
Era extensa, de azulejos quadriculados, não se via o chão. Límpida e escusa, aguada fiquei na pontinha dos dedos na tentativa de ter a dimensão de seu fim. Como não o enxerguei, quis mergulhar, mas as profundidades ainda me assustavam, faziam zunidos no ouvido, embaralhavam a visão, prendiam a respiração e me deixavam longe da superfície. Olhando debaixo para cima e, por vezes, por mais que nadava, não dava para respirar o ar, mas águas.
Toquei-a rapidamente e a provei, era doce, quentinha de banhos solares. A traiçoeira fazia ondinhas, sugeria entregas. Abri os braços, pressionei as pálpebras, deixei que as águas penetrassem em meus sapatos, no náilon de minha blusa, que me absorvessem e não me deixassem recordar nenhuma operação antiga. Não tentei respirar, me rebater, buscar a vida que já conhecia na superfície. Relaxei os lábios e deixei que elas escorregassem pelos riscos de meus dentes, as entradas foram me levando para um roseiral que estava enraizado profundo, distante a olho nu.
Entregue à entrega fui me desnudando, me desamarrando das roupas antigas que realizavam caminhos inversos ao meu. Nua, cheirei as rosas que  brotavam debaixo, que protegiam e acariciavam meu corpo. Avistei a porta de madeira de lei, ela sinalizava uma abertura ao contrário. Estava tomada por sensações vivas de vidas que entravam pela porta dessa casa, que se faz profunda na medida em que só se pode descobri-la nas entregas, nos gostos de rosas dos cardápios não feitos. Na liberdade do corpo, no prazer em se lançar. Na tentativa de se descobrir na casa compartilhada, que de tão íntima, se faz dentro de nós. 

                                                                                    Priscila