segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Mais sobre casas reais

Héstia, deusa grega da lareira. Esse projeto Theoi é genial.


A gente sabe daqui do fundo quando a casa vira um lar. Sabe igual o cheiro de um bolo pronto, o bem-estar de uma postura correta, um bocejo espontâneo em que se entrega ao vazio e se mata a sede de ar.
Tive muitas casas em minha vida, mas só dois lares: o da infância e o de agora, um apartamento que no começo era um vazio pequeno ocupado por objetos, bando de sem-tetos inanimados que não se comunicavam entre si. E eu e meu marido, perplexos com as coisas reunidas de duas vidas e sem saber como encaixá-las, objetos e histórias. Respiramos fundo, compramos cerveja gelada e toleramos nossos limites, espalhando as etapas de arrumação em muitos meses.
Demorou, mas fizemos sozinhos cada detalhe: o colorido nos contornos-paredes da casa, as dobras do espaço com os móveis, o lugar e função para cada o objeto. E o tempo foi passando e as coisas foram se acomodando, fazendo seu puxadinho no ambiente, se fixando nos cantos.
Mas um dia, arrumando a minha casa, percebi que alguns objetos insistiam em passear, ciganos, pelos cômodos, e se aventurar em outros lugares da casa. Que a perspectiva do meu olhar para eles mudava constantemente. E – não sei se porque eu estava alegre, ou porque o beija-flor tinha ficado uns trinta segundos me encarando da janela - me deu uma sensação tão grande de possibilidades, de novas formas dentro das fixas necessárias, de fluidez, que eu nem sei explicar.
Eu acredito que a relação poética entre as coisas e eventos é a fonte da criatividade para o olhar surpreso para o mundo* , e que essa relação se mostra quando abrimos nossa alma para elas. E foi em um momento assim, em que dois objetos nômades se encontraram dentro de mim por um acaso arbitrário, que percebi que era da relação com as coisas da minha casa – e, por extensão, da minha cidade, do meu universo inteiro – que brotava o meu eu** cotidiano, tecido a partir das imagens cultivadas na minha cabeça (e alimentadas por toxinas ou por húmus do passado, conforme a minha escolha). E que o meu lar era o jardim em que eu podia refletir o cultivo íntimo na tela da minha rotina. Aquele era o MEU espaço, e minhas coisas eram bússolas e placas orientando meu trânsito pelo rumo cotidiano.
Por ser, em si, uma morada – para o homem, para os filhos, para si mesma -, a mulher se mistura com a casa, amálgama de carne e concreto, ossos e estrutura. E a casa pode ser o seu peso ou o seu templo de conexão com o milagre de todo dia, com a calma de fazer as coisas com começo, meio e fim*** e, dentro do ciclo contínuo, perceber a própria pulsação.
Enraizar, crescer, florir e dar frutos. E se mudar quando o espaço ficar pequeno demais para o tamanho da árvore – porque, afinal de contas, somos humanos e nossas raízes são móveis.

... e, assim, na rotina construída e tranquila da escrita semanal, vou me enraizando nessa outra casa, que também está se tornando um lar. Boa semana, meninas.

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* E poucas mulheres aprendem que o olhar surpreso para o mundo é o segredo da juventude eterna.
** ... esse conceito inventado, feito de memórias e percepção cognitiva de continuidade - porque é evolutivamente vantajoso ser assim, não porque o “eu” seja alguma coisa que de fato exista.
** *Ao invés de deixar tudo em aberto, se atropelar e empurrar pra depois, construindo a própria ansiedade.