sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Encontros e Despedidas

A visita inesperada desvaneceu-se pela porta afora, deixando as mulheres com aquele costumeiro vazio, sensação física apenas, pois receber alguém querido é enriquecedor e inunda a alma com os momentos que desfrutaram da companhia uns dos outros. Cada vez que alguém parte é difícil...faz perfeito sentido a recordação nítida de uma antiga cena em que alguém lhe disse com os olhos marejados: “É sempre pior para quem fica”.

Voltam-se todas às atividades rotineiras, cada qual no seu cantinho, em seus mundinhos habituais que as consomem a maior parte do tempo. Ela olha suas paredes, que apesar da coloração em tons leves, ficam pesadas ao contrastar com seus afazeres empilhados, então senta-se a mesa entre números e planilhas, mergulha em tais obrigações, não há escapatória. Ah que saudade das aulas de geometria, onde “uma reta era a distância entre dois pontos”...como seria mais fácil se a distância entre seu ponto de ebulição e seu ponto de equilíbrio fosse assim, uma reta...triste descobrir quão tortuosas podem ser as distâncias.

Ela tenta se concentrar, tem muito a fazer...sem êxito. À sua mente a imagem desaparecendo, tal qual Clark Gable em seu mais famoso personagem, Rhett Butler, que é absorvido pela névoa ao final de “E o vento levou”. Assim como Scarlett ela se pergunta se ele voltará, se um dia se reencontrarão, e em sua mente inquieta e peito ansioso quer saber quando e como, sonha dezenas de planos, elabora milhares de falas, nutre-se com esse misto de desalento e euforia. Por que a despedida tanto lhe fascina?

Não, seu fascínio está longe de ser pela finitude da despedida, mas sim pelo sonho que fica do retorno, dos abraços relembrados, dos acontecimentos atualizados, do “reolhar” identificando que muito se passou, mas nada se alterou. A distância não impede a cumplicidade, e até mesmo o companheirismo. Da mesma forma que a proximidade não impede a distância.

Em um ímpeto ela sai pelas ruas atrás do homem que as visitou, a tempo de vê-lo na janela do trem, e ele rapidamente identifica a aflição no olhar daquela mulher pela não compreensão desta labareda, e sutilmente lhe diz: “A distância é como os ventos: apaga as velas e acende as grandes fogueiras”.

Ela volta com um leve sorriso no rosto, seu fascínio foi compreendido. De volta à casa ela deixa de lado suas tarefas e recorre ao seu presente favorito, a pá para cavucar chão. Surpreendentemente surge uma ponta do valor da placidez de uma singela e sedutora luz de velas. P
assam-se visitas, pessoas, lugares, momentos, lembranças, retornos, encontros e despedidas, a vida se repete nas estações, por séculos. O dinamismo da movimentação de seres e lugares é cativante...dias em que ora se vai, ora se vem...mas ao fundo do porão o seu real desejo é de um dia de domingo em que todos fiquem.