segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Alma lavada

Ontem cheguei em casa em transe. A Fer e a Pri estavam acordadas - nessa casa inventada é raro alguém dormir porque as horas têm vontade própria e não obedecem ao relógio. Ficaram curiosíssimas quando me viram em estado de graça, mas não consegui dizer nem uma palavra: sentei, tirei os sapatos e fiquei ali, olhando para o vazio com um sorriso largo e exausto no rosto - igualzinho expressão de hipersatisfação sexual, igualzinho. Elas ficaram meio constrangidas e voltaram para o quintal pra tomar mais luar de lua gorda vermelha (inventamos que isso inverte os efeitos envelhecedores do sol e está funcionando por enquanto, a pele tá uma beleza). Eu vim para o meu quarto fazer a digestão afetiva. Mas até agora, aqui nos meus imaginários aposentos, o eco do show de ontem está pulsando tão intenso nas vísceras que ainda não subiu, volátil, pra cabeça. Nadinha de abstrações, ainda: estou mergulhada na experiência de ontem num nível pré-verbal e quero ficar no meu quarto hoje, janto por aqui mesmo. Hoje não tenho o que dizer. Se o looping estiver muito alto, me avisem que coloco fone de ouvido:

and anytime you feel the pain, hey jude, refrain / don't carry the world upon your shoulders / for well you know that it's a fool who plays it cool / by making his world a little colder.

Sorte que guardo uns textos antigos dentro da escrivaninha e dá pra postar pra tapear a abstenção. Encontrei esse aqui. Vou sair do quarto rapidinho e colocá-lo no corredor, naquele aparador de madeira viva onde ficam nossos porta-retratos. E voltar para o meu quarto correndo.




Estandarte

é
eu
sei
pensei
em tantas
formas e toda fórmula
possível de se imaginar. cheguei
até a trapacear o ritmo pela métrica,
respirar de um jeito desorgânico e me encaixar
num formato de mentira, culpando o mundo por isso.
mas um dia, parando de pensar, consegui me desenhar
fluida, estável, densa, sólida e de proporções
tão fáceis de se inventar
sem verso
medida
ritmo
com
passo
de quem quer andar.