segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Mais sobre casas reais

Héstia, deusa grega da lareira. Esse projeto Theoi é genial.


A gente sabe daqui do fundo quando a casa vira um lar. Sabe igual o cheiro de um bolo pronto, o bem-estar de uma postura correta, um bocejo espontâneo em que se entrega ao vazio e se mata a sede de ar.
Tive muitas casas em minha vida, mas só dois lares: o da infância e o de agora, um apartamento que no começo era um vazio pequeno ocupado por objetos, bando de sem-tetos inanimados que não se comunicavam entre si. E eu e meu marido, perplexos com as coisas reunidas de duas vidas e sem saber como encaixá-las, objetos e histórias. Respiramos fundo, compramos cerveja gelada e toleramos nossos limites, espalhando as etapas de arrumação em muitos meses.
Demorou, mas fizemos sozinhos cada detalhe: o colorido nos contornos-paredes da casa, as dobras do espaço com os móveis, o lugar e função para cada o objeto. E o tempo foi passando e as coisas foram se acomodando, fazendo seu puxadinho no ambiente, se fixando nos cantos.
Mas um dia, arrumando a minha casa, percebi que alguns objetos insistiam em passear, ciganos, pelos cômodos, e se aventurar em outros lugares da casa. Que a perspectiva do meu olhar para eles mudava constantemente. E – não sei se porque eu estava alegre, ou porque o beija-flor tinha ficado uns trinta segundos me encarando da janela - me deu uma sensação tão grande de possibilidades, de novas formas dentro das fixas necessárias, de fluidez, que eu nem sei explicar.
Eu acredito que a relação poética entre as coisas e eventos é a fonte da criatividade para o olhar surpreso para o mundo* , e que essa relação se mostra quando abrimos nossa alma para elas. E foi em um momento assim, em que dois objetos nômades se encontraram dentro de mim por um acaso arbitrário, que percebi que era da relação com as coisas da minha casa – e, por extensão, da minha cidade, do meu universo inteiro – que brotava o meu eu** cotidiano, tecido a partir das imagens cultivadas na minha cabeça (e alimentadas por toxinas ou por húmus do passado, conforme a minha escolha). E que o meu lar era o jardim em que eu podia refletir o cultivo íntimo na tela da minha rotina. Aquele era o MEU espaço, e minhas coisas eram bússolas e placas orientando meu trânsito pelo rumo cotidiano.
Por ser, em si, uma morada – para o homem, para os filhos, para si mesma -, a mulher se mistura com a casa, amálgama de carne e concreto, ossos e estrutura. E a casa pode ser o seu peso ou o seu templo de conexão com o milagre de todo dia, com a calma de fazer as coisas com começo, meio e fim*** e, dentro do ciclo contínuo, perceber a própria pulsação.
Enraizar, crescer, florir e dar frutos. E se mudar quando o espaço ficar pequeno demais para o tamanho da árvore – porque, afinal de contas, somos humanos e nossas raízes são móveis.

... e, assim, na rotina construída e tranquila da escrita semanal, vou me enraizando nessa outra casa, que também está se tornando um lar. Boa semana, meninas.

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* E poucas mulheres aprendem que o olhar surpreso para o mundo é o segredo da juventude eterna.
** ... esse conceito inventado, feito de memórias e percepção cognitiva de continuidade - porque é evolutivamente vantajoso ser assim, não porque o “eu” seja alguma coisa que de fato exista.
** *Ao invés de deixar tudo em aberto, se atropelar e empurrar pra depois, construindo a própria ansiedade.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Uma Outra Casa

Foi uma semana agitada nesta casa, entre transes e mergulhos, a vida continuava porta adentro. Mas hoje ela decidiu que sairia em busca de novidades para compartilhar com suas companheiras, afinal o melhor de se ter uma casa é poder sair, viver, desbravar, e depois ter para onde voltar com segurança e muita história para contar. Mas ir para onde? Entre o triste caos que se encontrava mundo afora, em que as lágrimas escorriam do rosto do nosso Cristo Redentor, seu coração desejava encontrar um canto de paz, onde reinaria o bem e a alegria.

Pensou em ir embora para Pasárgada, mas não era de amizade com o rei que ela precisava, tampouco de grande aventuras, a sua única vontade era encontrar outras semelhantes que a entendessem por sintonia, identificação. Mulheres, só elas mesmas para se compreenderem... e olhe lá. Passou em sua mente aqueles lugares comuns como salões de beleza, shopping centers e portões de colégio...credo, se surpreendeu pelo pensamento machista e antiquado. Não que ela não gostasse de se cuidar, de fazer compras ou sonhasse em um dia buscar seus filhos na escola, mas sabia muito bem que mulheres são capazes de ocupar qualquer lugar do planeta, sem limites, basta querer.

Saiu pela vizinhança, caminhando na rua tranquila e arborizada, pensamentos distantes, quando uma casa de portão branco se destacou, não pela casa em si, mas pela luz que irradiava de suas portas e janelas. Curiosa como é, se aproximou, e antes que tivesse coragem de mexer no cadeado para se certificar de que estava trancada, uma senhora surgiu atrás dela, “Pode entrar, o cadeado está só pendurado, a casa está aberta”. Tomou um susto, claro, e silenciosamente fez sinal de que esperaria do lado de fora por enquanto, e a mulher sorriu como se soubesse que ela voltaria atrás nesta decisão, e entrou com seus passos firmes, carregando em seu antebraço direito um livro grosso com uma capa de matelassê estampado, um charme.

Continuou a observar a casa, o jardim e as plaquinhas de madeiras com dizeres lhe convidavam a entrar, mas ela não sabia o que lhe esperava, e conservadoramente recuou para o outro lado da rua, um ponto que a permitia continuar o processo de vigia. Mais e mais mulheres chegavam, todas muito diferentes fisicamente, não tinham a mesma cor, idade, classe social, credo ou estado civil, somente o sexo. Reparando bem elas tinham outra semelhança além de serem mulheres, elas demonstravam atitude em seu jeito de caminhar, demarcando pé ante pé a que veio ao mundo, juntas exalavam determinação como uma alcatéia. Uma leve inveja lhe bateu ao constatar que gostaria de ser como elas...e ao mesmo tempo, sem se dar conta como, já estava dentro de uma sala com todas elas.

A recepção foi calorosa, inexplicavelmente como se ela frequentasse ali há muito tempo e conhecesse cada expressão daqueles rostos, e mais do que depressa essas amigas lhe emprestaram um dos livros para que acompanhasse a leitura em círculos. O sino tocou e elas entraram em uma outra órbita, em contos antigos e incrivelmente atualizados com a realidade vivida por cada uma delas...naturalmente as discussões brotavam, desabrochavam e floresciam, assim como ela no centro da mesa. Vozes na sala ao lado cantavam para os ossos, em um coral que bradava beleza e bons fluídos.

E assim surgiu uma rotina, todas as semanas ela estava lá, se abastecendo de cultura e selvageria entre aqueles cômodos abençoados por livros, filmes, músicas, quadros e gestos humanos...às vezes encontramos mulheres chorando, na maioria das vezes gargalhando, mas sempre se iluminando e transbordando em auto-conhecimento. Ontem houve a confraternização de final de ano desta casa, e para ela foi uma consagração de um amor cada vez maior por este grupo de mulheres que correm com os lobos.

Obs: Para quem quiser conhecer esta casa, ela realmente existe: www.casadasflores.art.br

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Mergulho

Da porta de madeira de lei que dava para o jardim, encontrei rosas brancas que de tanto florir criaram teias de pétalas e espinhos de pontas falsamente arredondadas. O roseiral cobria uma lona azul marinho. Aos poucos fui retirando as rosas vivas, mortas e as pequeninas que desabrocharam em sua pequenez, mas que ainda assim se mostravam rosas.
Algumas vieram escurecidas pelo tempo, pelo vento, pelo orvalho. Havia um mar de águas, algo a ser descoberto, e na mistura de rosas e gotinhas e lonas de aparência áspera, mas que ao tocar eram macias, fui retirando o que a encobria. Após a descoberta, valeu a pena o cansaço da tensão. Ainda que por olhar o que se toca, se sente, mas o que não se pega.
Era extensa, de azulejos quadriculados, não se via o chão. Límpida e escusa, aguada fiquei na pontinha dos dedos na tentativa de ter a dimensão de seu fim. Como não o enxerguei, quis mergulhar, mas as profundidades ainda me assustavam, faziam zunidos no ouvido, embaralhavam a visão, prendiam a respiração e me deixavam longe da superfície. Olhando debaixo para cima e, por vezes, por mais que nadava, não dava para respirar o ar, mas águas.
Toquei-a rapidamente e a provei, era doce, quentinha de banhos solares. A traiçoeira fazia ondinhas, sugeria entregas. Abri os braços, pressionei as pálpebras, deixei que as águas penetrassem em meus sapatos, no náilon de minha blusa, que me absorvessem e não me deixassem recordar nenhuma operação antiga. Não tentei respirar, me rebater, buscar a vida que já conhecia na superfície. Relaxei os lábios e deixei que elas escorregassem pelos riscos de meus dentes, as entradas foram me levando para um roseiral que estava enraizado profundo, distante a olho nu.
Entregue à entrega fui me desnudando, me desamarrando das roupas antigas que realizavam caminhos inversos ao meu. Nua, cheirei as rosas que  brotavam debaixo, que protegiam e acariciavam meu corpo. Avistei a porta de madeira de lei, ela sinalizava uma abertura ao contrário. Estava tomada por sensações vivas de vidas que entravam pela porta dessa casa, que se faz profunda na medida em que só se pode descobri-la nas entregas, nos gostos de rosas dos cardápios não feitos. Na liberdade do corpo, no prazer em se lançar. Na tentativa de se descobrir na casa compartilhada, que de tão íntima, se faz dentro de nós. 

                                                                                    Priscila

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Alma lavada

Ontem cheguei em casa em transe. A Fer e a Pri estavam acordadas - nessa casa inventada é raro alguém dormir porque as horas têm vontade própria e não obedecem ao relógio. Ficaram curiosíssimas quando me viram em estado de graça, mas não consegui dizer nem uma palavra: sentei, tirei os sapatos e fiquei ali, olhando para o vazio com um sorriso largo e exausto no rosto - igualzinho expressão de hipersatisfação sexual, igualzinho. Elas ficaram meio constrangidas e voltaram para o quintal pra tomar mais luar de lua gorda vermelha (inventamos que isso inverte os efeitos envelhecedores do sol e está funcionando por enquanto, a pele tá uma beleza). Eu vim para o meu quarto fazer a digestão afetiva. Mas até agora, aqui nos meus imaginários aposentos, o eco do show de ontem está pulsando tão intenso nas vísceras que ainda não subiu, volátil, pra cabeça. Nadinha de abstrações, ainda: estou mergulhada na experiência de ontem num nível pré-verbal e quero ficar no meu quarto hoje, janto por aqui mesmo. Hoje não tenho o que dizer. Se o looping estiver muito alto, me avisem que coloco fone de ouvido:

and anytime you feel the pain, hey jude, refrain / don't carry the world upon your shoulders / for well you know that it's a fool who plays it cool / by making his world a little colder.

Sorte que guardo uns textos antigos dentro da escrivaninha e dá pra postar pra tapear a abstenção. Encontrei esse aqui. Vou sair do quarto rapidinho e colocá-lo no corredor, naquele aparador de madeira viva onde ficam nossos porta-retratos. E voltar para o meu quarto correndo.




Estandarte

é
eu
sei
pensei
em tantas
formas e toda fórmula
possível de se imaginar. cheguei
até a trapacear o ritmo pela métrica,
respirar de um jeito desorgânico e me encaixar
num formato de mentira, culpando o mundo por isso.
mas um dia, parando de pensar, consegui me desenhar
fluida, estável, densa, sólida e de proporções
tão fáceis de se inventar
sem verso
medida
ritmo
com
passo
de quem quer andar.



sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Encontros e Despedidas

A visita inesperada desvaneceu-se pela porta afora, deixando as mulheres com aquele costumeiro vazio, sensação física apenas, pois receber alguém querido é enriquecedor e inunda a alma com os momentos que desfrutaram da companhia uns dos outros. Cada vez que alguém parte é difícil...faz perfeito sentido a recordação nítida de uma antiga cena em que alguém lhe disse com os olhos marejados: “É sempre pior para quem fica”.

Voltam-se todas às atividades rotineiras, cada qual no seu cantinho, em seus mundinhos habituais que as consomem a maior parte do tempo. Ela olha suas paredes, que apesar da coloração em tons leves, ficam pesadas ao contrastar com seus afazeres empilhados, então senta-se a mesa entre números e planilhas, mergulha em tais obrigações, não há escapatória. Ah que saudade das aulas de geometria, onde “uma reta era a distância entre dois pontos”...como seria mais fácil se a distância entre seu ponto de ebulição e seu ponto de equilíbrio fosse assim, uma reta...triste descobrir quão tortuosas podem ser as distâncias.

Ela tenta se concentrar, tem muito a fazer...sem êxito. À sua mente a imagem desaparecendo, tal qual Clark Gable em seu mais famoso personagem, Rhett Butler, que é absorvido pela névoa ao final de “E o vento levou”. Assim como Scarlett ela se pergunta se ele voltará, se um dia se reencontrarão, e em sua mente inquieta e peito ansioso quer saber quando e como, sonha dezenas de planos, elabora milhares de falas, nutre-se com esse misto de desalento e euforia. Por que a despedida tanto lhe fascina?

Não, seu fascínio está longe de ser pela finitude da despedida, mas sim pelo sonho que fica do retorno, dos abraços relembrados, dos acontecimentos atualizados, do “reolhar” identificando que muito se passou, mas nada se alterou. A distância não impede a cumplicidade, e até mesmo o companheirismo. Da mesma forma que a proximidade não impede a distância.

Em um ímpeto ela sai pelas ruas atrás do homem que as visitou, a tempo de vê-lo na janela do trem, e ele rapidamente identifica a aflição no olhar daquela mulher pela não compreensão desta labareda, e sutilmente lhe diz: “A distância é como os ventos: apaga as velas e acende as grandes fogueiras”.

Ela volta com um leve sorriso no rosto, seu fascínio foi compreendido. De volta à casa ela deixa de lado suas tarefas e recorre ao seu presente favorito, a pá para cavucar chão. Surpreendentemente surge uma ponta do valor da placidez de uma singela e sedutora luz de velas. P
assam-se visitas, pessoas, lugares, momentos, lembranças, retornos, encontros e despedidas, a vida se repete nas estações, por séculos. O dinamismo da movimentação de seres e lugares é cativante...dias em que ora se vai, ora se vem...mas ao fundo do porão o seu real desejo é de um dia de domingo em que todos fiquem.



quarta-feira, 17 de novembro de 2010

VISITA


Batem à porta. Quarta-feira, já passa das 20h, na cozinha o bule borbulha águas-ideias das meninas que preparam o chá de despedida para o dia. “Quem será?” Do olho mágico a aba do chapéu esconde um homem barbado, casaca escura, estatura média baixa, olhos encovados... Apreensivo, rodopia uma bengala charmosa que sombreia seu par de sapatos, caminha de uma extremidade à outra arrastando os pés no chão.
A porta é aberta, ele se desculpa pelo horário, já que do Cosme Velho à Casa das Três Mulheres demora quase dois dias vindo de trem e, além do mais, após saltar na estação não pôde tomar um bonde, pois os horários tinham sido atravessados.
Ele se irrita por não encontrar um porta-chapéus, expliquei que havíamos mudado a pouco mais de uma semana... O recém-chegado olhou para estante que se encontrava ao lado das xícaras de chá e avistou uma sequencia de livros que levava a letra dourada das iniciais de seu penúltimo e último nome. As escritas estavam ali, existindo pela consciência de seu próprio corpo, mas agora se encontravam com seu criador. Foi então que, observados por elas, nos sentamos:
- Cansado?
- Tudo cansa até a solidão.
- Mas o senhor não teve filhos?
- Não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.
- Está se sentindo bem?
- Sinto a consciência, cara senhora. A consciência é o mais cru dos chicotes... O povo precisa fazer anualmente o seu exame de consciência. Pelo menos, de quatro em quatro anos, no dia das eleições.
- O senhor votou em qual candidato?
- Nenhum. Não me irrito, portanto, se me pagam mal um benefício. Antes cair das nuvens que de um terceiro andar.
- Sei, sei, o senhor, como muitos, perdeu a fé.
- Não é bem assim. Tenho o coração disposto a aceitar tudo, não por inclinação à harmonia, senão por tédio à controvérsia.
- Acha que o Brasil vai bem ou perdeu-se?
- O país real, esse é bom; o povo revela os melhores instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco.
Meu interlocutor disfarça leve bocejo e comenta, com um vestígio de sorriso irônico, que dormir é um modo interino de morrer. De repente, ele está mais loquaz. Do sono sinônimo de morte pula para o tempo, sinônimo de tédio, e sugere o dilema: matamos o tempo, o tempo nos enterra.
As luzes fraquejam. Por nós aparece o pássaro da meia-noite. Olho a casa vazia, minha voz ecoa, nesse distrair o velho mestre desaparece. Desvaneceu-se. Será que recebemos a visita do bruxo Machado de Assis? Vou deixar o meu querido leitor fazer o julgamento. Se não identificar, dou-lhe um piparote, e adeus.


Em nossa casa a visita do homem que conhecemos de nome ou de chapéu, ou mesmo das escritas que mantém em si eterna contemporaneidade. 

 Priscila Topdjian





segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O meu pai era paulista.

A Coco Chanel preta e branca sorriu quando viu que era hora de desempacotar os presentes. Combinamos de abri-los à noite, no luar quieto do quintal.
Expliquei a brincadeira: toda lua nova e cheia - um hábito quinzenal - fazer fogo com madeira recolhida das caixas de fim de feira. Foi quase um ato solene, nossa primeira fogueira.
E então comecei a abrir os presentes que trouxe pra nossa casa. O primeiro, um microscópio falante de alta definição, pra aumentar o invisível. Dispensa televisão: apresenta com legenda cada detalhe do mundo, cada pedaço pequeno.
Para o porão, três pás para cavucar o chão e descobrir fósseis, lembranças, testemunhas do passado, passos de moradores antigos e carbonos radioativos. O telescópio para o teto, pra diminuir o tamanho das coisas e egos e lembrar que o universo é todo poeira do mesmo saco.
Trouxe pro nosso lavabo um Buda de calças molhadas - quem sabe as visitas aprendem a meditar na privada (meditar é fazer nada). E a estátua de São Francisco é pra botar no jardim, na entrada do labirinto, onde dá medo de entrar e onde moram as borboletas amarelas que colecionei em Macondo (elas contam a saída pra quem sabe escutar).
Atrás da toca do coelho, pensei em pôr o jardim de inverno onde reina a lagarta da Alice que faz formas com fumaça - fechado para os desavisados por causa da erva e do cacto, ambos contra-indicados para os males da cegueira. O canteiro medicinal pus ali, onde tem luz abundante, do lado da rosa gigante que abre uma cor por dia.
E, por último, um relógio noturno para pendurar no varal, que mostra a fase da lua mesmo quando o céu é nublado, pra gente não se perder no calendário humano artificial.

Depois de fincada a bandeira da imaginação na Casa das Três Mulheres – um sobrado construído na teia de aranha moderna, nas reticências dos bits, nas telas de outras pessoas -, quando o fogo era brasa velha e a noite já ia alta, fizemos o nosso primeiro brinde:
- Evoé, jovens à vista!
Que histórias são raízes, passado e genealogia. Vamos contar as nossas como quem procura pistas.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Terceira

Sexta-feira, diva da semana, se torna ainda mais aguardada em períodos de mudança, a hora de encarar o assombroso e almejado novo. Ela checa o endereço novamente, sim, está parada diante da porta de sua nova residência. Retira sua cópia da chave da bolsa, tem dificuldade para acertar a fechadura pelo tremor das mãos. Tremor este que é reflexo de seu coração disparado, porém seus olhos brilham. Ela gira a maçaneta e arrasta adentro suas bagagens que, mesmo carregadas de experiências, dispõem de muitos espaços a serem preenchidos.

A casa é linda, com cores fartas, aroma de flores cítricas, iluminação própria, aconchegou-se. Sua ansiedade é digna de jovem que sai de casa para iniciar faculdade, mas ela já passou desta fase há anos, por que então este sentimento de volta? E desta vez ela vai dividir as tarefas e responsabilidades com mais dois moradores. Duas, na verdade. Ela olha as três portas, duas já foram escolhidas, resta-lhe a terceira. E não é que, mesmo se as outras estivessem livres, ela ia escolher a terceira de qualquer maneira? Coisas de instinto, ótimo sinal.

Seu quarto é de vasta amplitude, quase infinita, independentemente geminado aos outros, dono de uma liberdade que a possibilita redecorá-lo e redescobri-lo a cada semana. Aquele frio na barriga delicioso toma conta dela...mas e se ela não tiver peças suficientes para mobiliá-lo? Pausa. Ah, mas criatividade nunca lhe faltou! Já houve sim momentos em que uma parte quebrou, se perdeu, ou não ficou exatamente como ela queria, mas uma solução sempre surgiu, uma segunda opção, o capricho de uma remenda, funcionaria para suprir uma área em branco...tranquilizou-se...por pouco tempo, estava agitada.

Um misto de curiosidade e impulso a fez bater na porta do primeiro cômodo, a qual se abriu exibindo a bela e mística figura de uma antiga conhecida, alguém que já viveu ali antes...talvez não exatamente ali, mas em uma casa mais bagunçada, repleta de crianças e pré-adolescentes cheio de expectativas, diversas vezes contidos por limites impostos pela educação interiorana. Impossível não recordar desta garota canhota que, ao baixar a cabeça frente a uma folha de papel, produzia beleza através de letras grandes e arredondadas...o prazer de reencontrá-la de forma tão próxima, e tão cúmplice, lhe dava a certeza de que nunca foram realmente separadas.

Na ponta dos pés ela espia o outro cômodo da casa, a moradora não se encontra naquele momento, então ela sorrateiramente observa as fotos na parede, os textos deixados em cima da cama, o retrato em preto e branco sobre a cômoda...e lhe chama a atenção que, colocando de forma piegas, o destino lhe reservou um novo sobrenome Armenio à sua vida. Mesmo que ela não estivesse presente fisicamente, seu encantamento e sensibilidade estavam. Afinal, como não se curvar em adoração a quem foi responsável pela construção da casa, a base para este início de história?

E, inevitavelmente, toda vez que surge a palavra CASA, ela se recorda de seu conto de fadas preferido, a Bela e a Fera...”Home is where your heart is” (Casa é onde seu coração está), e já que o romantismo exacerbado da ficção que se diz infantil prevalece neste momento...”There is no place like home” (não há lugar como nossa casa), já dizia Dorothy com seus sapatinhos vermelhos durante sua busca pelo retorno ao lar, ao lugar onde se sente segura, confortável e capaz de sonhar sem medo de ousar.

E assim sua alma se enche de alegria ao constatar que, a partir de hoje, seu coração estará aqui.

E este é apenas o prefácio da narrativa destas três personagens, sejam elas três sonhadoras, três bruxas, três princesas, três lobas, três crianças, três metamorfoses ambulantes, definitivamente três mulheres...unidas por uma única fada madrinha: Anthonia. Bem-vindos a nossa casa!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Retrato em preto e branco

Sentada na triste cadeira do cine Eldorado, pouca mobilidade, chiados perseguem os contidos, mas necessários movimentos. Ao lado, algumas faces desconhecidas, memórias que pelo olhar parecem terem sido perdidas, tomadas por alguma instância incômoda.
A tela se abre como cortinas pretas, ao centro uma menina branca espera pelos pais num orfanato em mais um final de semana. Fora abandonada, vive ao acaso de uma vida por se construir, por se ganhar em meio a um buraco negro de mágoas, de esperas e nunca chegadas.
Tem nos olhos o reflexo preto e branco dos dias, das roupas-freiras, dos quartos grandes e impessoais. Restou-lhe a costura, quando por demais já crescia e não cabia nas grades da cama emprestada, daquelas que quando se ultrapassa os pés pelos seus vãos, sabe-se que é chegada a hora de lhe ceder a quem ainda não envelheceu o suficiente para nela caber.
Para essa menina sem amor, o que resta, por vez, é a vida consumida nas esquinas, onde só se caminham após o entardecer. Para os outros, os vestidos das dançarinas e a música cantada com alegria para os ouvidos despercebidos, para corpos tomados pela sensação rápida do prazer. Para a menina que cantava e costurava a roupagem, restava a dor de não querer estar ali.
Desse retrato em preto e branco essa menina recolheu as malas que de vento e abandono sempre estiveram prontas e foi a Paris, na tentativa de viver sem ser do ninho, na casa de um dos poucos homens generosos que a ouvia cantar.
Ali degustou livros desnuda, sem indicação de serem ou não bons. Das dançarinas que divertiam o homem que a hospedava, retirou-lhes o que não vestir. Transformou a infância em tecidos pretos e brancos ousados, desfigurados, alargados, sobretudo maiores do que as camas estreitas da criança que rápido venceu.
Da inquietação, dos dias nublados, da angústia-navalha por não ser o que a vida lhe entregou, aprendeu a amar com entrega, aprendeu novamente a se frustrar. Desse preto e branco manchado em sua existência, recortou a memória dos traços, dos tecidos, da moda que nos acompanha, fazendo dela movimento, classe, sofisticação e arte ainda por se descobrir.
Trago para decorar a nossa casa um retrato em preto e branco de Coco antes de Chanel, menina brilhante que, posteriormente, personificou a mulher moderna e se tornou um símbolo atemporal de estilo, liberdade e elegância.

Priscila Topdjian

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Início

Começar sempre é desafiador. Qual será que vai ser o tom desse blog?

Preparei um texto sobre o feminino pra começar o movimento, mas virou projeto para um próximo post. Porque queria começar mesmo escrevendo brevemente sobre escrever, e como isso pode ser libertador e construtivo.

Porque escrever é um ato criador, mais do que criativo. Possibilita uma abertura para dentro, para a infinitude de pensamentos e imagens tão constantes (e desapercebidas) em nossa mente, o contato com vozes mais profundas e esquecidas. O ato criador de escrever é um ritual de conexão com todas as camadas de vozes que nos habitam - como ouvir cada instrumento de uma orquestra. Conhecemo-nos no espelho do papel, e nos supreendemos com o que brota e com a sensação de brotar, rosas na barriga.

Mas escrever também é uma batalha dialética com os olhos alheios que nos habitam como críticas ou censura, trava-línguas que quem escreve conhece bem. E sei o quanto é difícil ser filha de cidade pequena, em que somos adestradas pelo meio a funcionar de acordo com o adequado, o previsível, o ensaiado, enquanto a voz criativa da natureza dentro do peito fica enterrada.

Escrever com duas amigas de Rio Preto vai ser um exercício constante de fortalecer esse impulso orgânico, que quebra máscaras para si mesmo como a raiz de uma árvore rompe o cimento. E é com esse espírito que tenho a felicidade de abrir nosso espaço. Feminino, inteligente, sensível e doce, sei que será. O resto, estou doida para saber.

Sucesso pra gente!