sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Sobre Redescobertas

Outro ano que se foi, outro ano que deixa rastros, deixa vestígios. 365 dias é muito tempo para passar batido, mas não tanto para que não haja nada novo. Foi um ano de redescobrir velhos prazeres, velhos medos, velhos hábitos, velhos idosos. Em 2010 redescobri a mim mesma, nua e crua, sem rótulos, sem vícios.

O ano de 2010 já começou diferente, com um reveillon que há muitos anos eu não passava, em casa, em família. Não obstante redescobri essa mesma casa como meu LAR quatro meses depois, assim como redescobri minha família como meu eterno porto seguro e minha única fonte necessária para sobrevivência. Redescobri o conforto do colo de mãe, de mimo de pai, de laços fraternais diários, além de ter “a cama pronta e o rango no fogão”, como diria Lulu Santos. Em contrapartida, redescobri as dificuldades de dividir meu espaço, o ônus da convivência, os conflitos de personalidades sob o mesmo teto.

Eu redescobri minha adoração por São Paulo, mesmo sentindo a necessidade de afastar para dar valor, assim como havia feito com Rio Preto, cidade que hoje vivo e redescobri como minha Pasárgada, onde não sou amiga do rei, mas redescobri amizades reais e que durante todo este tempo que fiquei fora me acompanharam de longe. Me redescobri como cidadã do mundo, adaptável, afinal “voltar para casa” não é tão simples assim...e pode ser que o barco vire, também pode ser que não...redescobri a terapia que me ajuda nesta paciência quanto aos próximos passos que darei, a não sofrer por antecipação.

Com a redescoberta logística, veio também a redescoberta profissional, atuando em mares nunca dantes navegados e redescobrindo que disciplinas odiadas na faculdade podem ser muito mais interessantes na prática, além de redescobrir que 10 anos de experiência colaboram e muito para qualquer segmento que você deseja atuar. Redescobri a não ter medo de ousar, de dizer que não sei, de dizer que vou buscar conhecimento e tentar.

Aos 31 anos redescobri que é possível emagrecer sem remédios, que continuo uma sedentária feliz e saudável, e que é possível olhar no espelho e me achar linda e madura em cada imperfeição identificada, mesmo que sejam várias. Falei das amizades velhas redescobertas, mas não posso esquecer-me da redescoberta de que é possível fazer novas amizades a essa altura da vida e em horas de papo ter a impressão que aqueles amigos sempre estiveram ali. Assim como tem a parte ruim de redescobrir pessoas que não são o que aparentam, e com estas eu redescobri a piedade, coitadas.

Ah, o amor, este foi redescoberto pelos caminhos mais tortuosos e dolorosos, mas como uma história de novela da Gloria Perez, ou um conto de fadas, redescobrindo aquele “velho amor, ainda e sempre”. Redescobri que para ser feliz a dois, só é realmente necessário duas pessoas que se amam...incrível, não? Pois é, redescobertas aparentam ser fáceis, mas levam bem mais que 365 dias para surgirem. E muitas vezes as redescobertas carregam antigas descobertas que desejávamos que sumissem, mas não somem, são os velhos problemas redescobertos...e alguns requerem uma nova forma de conviver com os mesmos, a qual ainda estou tentando descobrir.

A maior redescoberta do ano foi a que faço neste exato momento, a escrita. Este prazer que sempre tive, independente de grandes técnicas literárias, e que por muitos anos não foi prioridade ou levado a sério em minha vida, foi finalmente redescoberto. Hoje escrevo sem assunto específico, coloco no papel (ou melhor, na tela) o que sempre ficou estocado aqui dentro buscando uma porta de emergência qualquer para se libertar. Através de um blog com mais duas mulheres em similar situação, redescobrimos juntas uma nova casa.

Encerro o ano, mas espero que as redescobertas permaneçam. É sempre bom ter a oportunidade de olhar através de outros ângulos e redescobrir o que deixamos escondidinho em algum canto pelo qual passamos durante nossas vidas. Somos o que construímos, com acabamento ou não, mas são os valores que representam nossas bases e merecem ser reforçados sempre, são eles que nos mantém em pé, todos os dias, e de cabeça erguida. A cada um de vocês desejo que suas redescobertas no próximo ano sejam sempre com o intuito de buscar a paz e, além disso, desejo saúde, que nunca é demais. Feliz 2011!

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Carta a uma menina com autismo

- ... e então o sol chega no céu mais ou menos às seis horas da manhã, e começa a ir embora lá pelas seis horas da tarde, e aí vem a noite escura.
- Mas quem dividiu o tempo assim? Deus ou as pessoas?
- (...) Foram as pessoas. Antigamente.
- Só que agora a gente não é mais livre.


Ai, minha linda, que grande problema você levantou. Queria ter uma resposta que você entendesse, mas dessa realidade óbvia em que você vive ainda estou muito distanciada por pensamentos e interpretações, derivações da realidade. Não sei mais como dispensar as ideias intermediárias que um dia me serviram para apontar para as coisas, mas que hoje se tornaram coisas em si mesmas que só apontam para si próprias - fantasmas desencarnados, véus entre mim e o concreto.

Fomos nós, sim, humanos de prepotência majestosa, que criamos divisões no tempo, esse rio invisível em que os acontecimentos borbulham ao acaso, como as espumas das ondas na praia. Inventamos diques que não prendem água alguma. Porque nossa memória não concebe o infinito na consciência ordinária, organizamos lembranças e mapeamos com linhas imaginárias esse território selvagem que é o período acidental entre o nosso nascimento e a nossa morte. E, para podermos nos encontrar neste intervalo, compartimentalizamos o tempo - saquinhos de horas, caixinhas de dias, embrulhos de meses... e em cada pacote um Presente imediato adiado para quem sabe um dia.

E então, além de dividirmos o tempo, projetamos coisas muito curiosas nessas divisões: inícios e fins, conceitos matemáticos e filosóficos, deuses e lendas. E é por isso que agora as pessoas que te cercam estão comemorando: é o final de um ano e o começo de um outro, que alguns chamam de 2011, de Ano Bom, de Criança do Futuro, de Menino Jesus... Sim, eu sei que “um ano” não existe, é só uma abstração engenhosa, e não um ente... mas também é um truque de motivação, meu amor. Nunca ouviu falar de começar o regime na segunda-feira? É essa a magia do verbo e das representações, criar as fantasias úteis. Estamos todos nos vestindo de branco, como uma tela vazia para um pintor imaginário que chamamos de deus, e renovamos nossas esperanças com a superstição enraizada de que elas podem se realizar com mais facilidade nos novos tempos se fizemos uma forcinha maior no ato de desejar. E não é que funciona, às vezes?


... Querida, e eu queria também te dizer que só deixamos de ser livres quando nos deixamos guiar apenas pelas divisões. Quando o saco de desejos e memórias que é o Eu acredita que realmente tem controle e passa a viver em um mundo rígido de ordenações ilusórias, adiando a própria felicidade em nome de datas futuras que nem existem.
Porque não existem marcos, minha linda. A verdade é que você pode recomeçar todas as manhãs, o tempo todo. Nada está acontecendo de diferente fora do mundo dos homens: a Terra gira da mesma forma no baile orgânico dos astros, e a Natureza caminha nos ciclos, não entre fins e inícios. E, quer saber? Foi uma pessoa que tem o pensamento esquisito como o seu que descobriu: o próprio Tempo é relativo. Mas aí já é uma outra história...

Mas vem cá comigo: não é porque conhecemos os bastidores que não vamos fazer parte do espetáculo. Comemoremos também, meu amor, porque temos dois grandes motivos para isso: a realidade atual do que somos e a nossa enorme teimosia em sermos melhores. E vamos celebrar o árduo trabalho que realizamos em 2010: você no caminho de se apropriar da Cultura, o que pode um dia te livrar das limitações que os outros (mais do que o tempo) te colocaram. Eu, aprendendo com você a ver o mundo dessa forma tão brutalmente pura, e tentando me lembrar do Real aquém das representações, para um dia ficar livre das limitações que a Cultura (mais do que os outros) me coloca.

Felizes novidades para você. Sou toda gratidão.



SOBRE AMAR E ESCREVER

Perigo! Quando ele aparece é algo assim como a escrita, um tsunami, um tornado, uma cratera no asfalto para o nascimento de uma flor, um moinho de vento destruindo toda e qualquer forma estabelecida, uma folha em branco sendo invadida por letras pretas que unidas criarão uma nova história: calma! Estamos chegando perto. Possivelmente seja isso, uma invasão de soldados dentro de você para a proclamação de uma república com regras novas, de tudo, absolutamente tudo novo. 

Difícil falar dele porque ele tem dialeto próprio. Como é que a gente escolhe palavras tão antigas para discorrer sobre algo tão púbere?

Pensando bem aquela barba mal feita tem seu charme, delineia a boca rosada e cria certa feminilidade em um rosto másculo...

A casa está uma bagunça, um caos, mas o rapaz insiste em procurar a bateria da máquina fotográfica... Às vezes é um saco, tudo arrumado e quando ele chega é assim, essa desorganização física. Os óculos escuros estão em cima do fogão que tem embaixo um pano de prato.

“- Por que é que o pano de prato nunca fica no aparador?”

As desorganizações continuam.

Passos atrás da cadeira não me dão paz ao menos para escrever. O amor tira a paz?

Por vezes é difícil fugir da autobiografia, vou deixá-la aparecer em letras vermelhas para não confundir o leitor. De resto é ficção, reflexão profunda sobre a escrita, palavra articulada sobre o escrever: juro!

Quando a casa está caindo fora e dentro de você, organizar as palavras é o mesmo que organizar a vida, pelo menos para quem escreve. Desconheço quem tenha conseguido organizar o amor. Essa coisa de não se entregar à desorganização é como que se segurar em cima de um poste de luz com os olhos vendados e de lá... AAAAAAAAAAAMMÉÉÉÉMMMMMM! Quem não enxerga não ama, e quem ama deixa de enxergar. É mesmo uma contradição.

Escrevemos enquanto tem alguém lavando a louça em nosso lugar, enquanto tem alguém colocando as toalhas de banho para lavar. Enquanto alguém assiste a um programa de TV, à Tropa de Elite 2... O mesmo acontece com o amor, o mundo todo em outra lógica e você trancado no quarto amando sem parar.

Os barulhos dos pratos na cozinha não param. Não, não saio daqui até que seja concluída essa ideia, esse cenário, essa coisa que anda me revirando o estômago.

Abramos a porta das palavras. E como é que a gente escreve sobre o amor com todos os eletrodomésticos comprados, a conta de luz atrasada, o cachorro sujo, sujíssimo roendo o seu mais novo sapato.

“Chega Rogério, acabou a farra, vá para lá dormir.”

Como é que se manda o amor dormir? Não, não, não, hoje não vou salvar vidas. Mas esse menino mata e como mata, mata uma vida e te dá outra assim, fazendo você de bobo, o bobo mais feliz da maternidade que acha o recém-nascido com cara de ameixa parecido com ele. Ilusão de ótica? Sei lá, estava na vida tranquila até que el(e) chegou... 

Priscila 

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Sobre Aprovações

É véspera de Natal mais uma vez, as cidades se iluminam, as ruas se enchem de pessoas sorridentes com seus pacotes e laçarotes, e por mais calor que faça, o bom velhinho se faz presente em todos os lugares com suas botas cano alto e sua roupa de plumas. Espírito Natalino, despertado de diversas maneiras. Seres que riem, que choram, que se deprimem com as músicas, que se afagam em meio a lembranças, movidos com a força de um dia que inexplicavelmente mexe com as pessoas.

Ela acorda bem cedo e caminha entre pinheiros enfeitados e bonequinhos de neve em pleno verão latino, e chega a uma agência de correio do bairro, onde encontra algumas das velhas conhecidas cartinhas de Natal. Impossível não se emocionar. Entre pedidos de bolas, bonecas e carrinhos, algumas crianças pedem algo para comer, um emprego para o pai, a volta de uma mãe que o abandonou ou foi “levada pelo papai do céu”, a cura de uma doença...seu coração trinca com a sinceridade daquelas palavras, advindas da dor.

Em um primeiro momento ela se assusta, foge, evita seguir esta leitura que a deixa tão abalada, passando os olhos rapidamente pelas folhas e se fixando àquelas que descrevem pedidos de brinquedos. Não funciona, a dor não se mede, não se julga, não se compara. Em um pedido de boneca ela encontra implicitamente a ilusão dolorida de uma menina que projeta em sua boneca a vida que almeja ter um dia, mas que ainda não tem consciência do quão difícil será, e quão frustrante se seu plano falhar. E o garoto que quer uma bola para ser destaque no esporte, movendo sua pátria enquanto ouve o hino e enche seus pais de orgulho, enquanto vivencia a angústia da possibilidade de um sonho banido por obstáculos que enfrentará para conseguir o seu lugar.

Quem nunca escreveu uma carta deste tipo? Ela com certeza já havia escrito, mas esta magia não fazia mais parte de sua vida adulta. Pegou a caneta esferográfica amarrada ao balcão do correio, abriu sua bolsa e retirou uma página da sua agenda sob o olhar de estranheza do funcionário do correio. Por que não escrever uma destas agora? Que bobagem! Ela não se achava no direito de invadir este espaço dedicado às crianças, aos que crêem na existência de um senhor que lhe manda presentes em uma única noite do ano. E ainda mais, com a condição de que tenha sido uma “boa menina” durante o ano.

No caminho de volta para casa se recordou da noite em que receberam a visita de sua madrinha e outros amigos, e que debatiam sobre escritas. A tal carta para o Papai Noel também era um texto, e assim como todos os outros estão sujeitas a interpretações e julgamentos de quem as lê. A motivação para que aquele pedaço de papel significasse algo era a dor de quem escreve, um incômodo não compreendido que sufoca a ponto de transbordar, que deve ser colocado para fora e encontra na escrita o meio para se materializar, sua forma de fazer um apelo, de colocar suas personalidades e ilusões, se transformando em um atleta, uma modelo, um provedor ou até mesmo de um Deus.

Sentou-se à sua escrivaninha e escreveu, escreveu e escreveu para o Papai Noel sem receio algum de não ser aprovada em seu crivo de bondade ou de idade. Se o velhinho é tão bom quanto dizem ele notará a sensibilidade da escrita que vem do coração, que flui junto com o sangue que transita em suas artérias, que levanta seus pelos do corpo todo e a faz digitar de forma tão intensa que lhe causa um misto de ânsia e êxtase. Aprovada ou não, o presente ela já ganhou!

Obs: Feliz Natal com muito AMOR para todos vocês, em especial às mulheres que se tornaram parte de mim: Pri, Érika e a nossa madrinha Lucila !!!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Sobre expectativas

É perturbador quando tentamos conhecer alguém por meio da escrita. A escrita constrói casas, edifícios, protocolos. Da escrita nascem sonhos, profissões... Quem gosta de escrever é absolutamente feliz escrevendo, dá para deixar as letrinhas soltas, ensaiando o dia todo, dá para fazer a vida com elas.

Nós, aqui da casa, fomos apresentadas por meio da escrita, “amadrinhadas” por uma escritora que observava nossa solidão literária e que queria fazer dela conexão, textos que conversassem! Quando o projeto nos supera é maravilhoso, e superar é o mesmo que se tornar vital. No primeiro texto que li da Fernanda sai dele ritmada, falando como ele, até hoje guardo na memória a imagem dos filmes clássicos da Disney, das entradas triunfais das princesas em seus castelos. O curioso é que essa lembrança me vem agora por meio do texto, mais do que dos próprios filmes, talvez a leitura tenha me proporcionado certa fruição que os próprios desenhos não conseguiram despertar – tamanho foi o encantamento. 

Quando li o texto da Erika sobre casas reais, tive uma crise de choro que me acompanhou pelo dia todo. Sabe aquela coisa de lermos autores consagrados e depois vir alguém da própria casa dizer o que você procurava anos a fio? Foi mais ou menos isso. Os textos que escrevia eram sobre casas imaginárias, desejos, sonhos, invenções... E os da Erika aterrissavam, faziam poesia do cotidiano, mostravam estranhamentos da vida a dois, refletiam uma escrita de reconhecimento para muitos. Achei-a tão corajosa, isso de escrever sobre sensações é quase que imprimir o que se fala no divã e transformar a confissão em texto arquitetado, em escrita de transformação, em declarações que explicam mundos. 

Por que será que os meus textos criavam histórias para além do cotidiano? Há tanta poesia no desconcerto da vida, talvez para entendermos que ela sabe mais do que nós, se nós não a comermos ela nos come... “A vida come a vida” como está no conto A quinta história de Clarice Lispector. Não estar em sintonia com ela é quase como entregá-la ao diabo e viver tudo que não seja a sua própria vida. É necessário encararmos o que somos, mergulharmos fundo em nós mesmos. Daí as personas podem nascer. Ter a consciência das máscaras é se (re)conhecer. 

As escritas de ambas completaram a minha e me tornaram completamente dependente. Segunda, quarta e sexta são dias que ganharam uma cor diferente, são dias de expectativas, sinto até medo delas. Quando a Erika disse que viria por fim realizar nosso encontro “real” na semana do Natal, cheguei a pensar que não deveríamos concretizá-lo, senti medo de desfazer a sintonia realizada em um mundo outro. Como faremos se não conseguirmos a mesma conexão nas conversas reais? Não sei, talvez a gente faça como um amigo falou certa vez a respeito do sexo – “depois que tudo acaba e não há nada a dizer” (que triste!) – “viramos pizza e pronto”! Achei uma ótima solução, pode ser que eu vire pizza! 

Sintonizar-se com a escrita é criar uma terceira margem, onde dela possamos dizer que chegamos atrasados, mas ainda assim não será sentido o cansaço do trânsito. É tomar cerveja e ficar zonzo sem se preocupar com quem é que irá dirigir. Compartilhar uma vida outra, uma língua outra, é quase que se apropriar de outro mundo. Porque ali podemos chegar atrasados ao restaurante, pedirmos algo exótico e experimentarmos o seu sabor sem a frustração daquele prato não ter na cozinha. Na escrita você o coloca à mesa e até decepciona o leitor com o gosto se desejar... Ah, mas bom mesmo é deixá-lo comer sentindo o melhor de todos os sabores, para que ele possa voltar sempre e com fomes novas.

Queridos, vou deixá-los porque estou atrasada para o encontro com as meninas das casas reais! Depois conto em conto como foi para vocês.

Priscila

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Sobre escritas, também.

Desconheço os processos da Escrita -
sei que ela grita e que, orgânica,
não submete sua natureza à minha
(não por falta de tentativa):
apenas intuo ciclos,
ressacas marés maremotos
a mágoa das tempestades,
o ar-tornado poesia, os tsunamis evasivos
e os textos vulcões terremotos que rasgam fendas por dentro,
buracos e cicatrizes na alma,

e vazam eu derretido.

... E pressinto as estações,
perplexa com os segundos do tempo e a inevitabilidade do ritmo.

Vejo a primavera nítida das cores,
função da flor e da arte: construir alma nas coisas, provocar intensidades
em que memórias e nomes são banquete para os sentidos.
Palavras que brotam da testa com naturalidade endêmica,
e dançam tecendo ideias que embaralham os conceitos
recriando sentidos possíveis como em um jogo de tarô.
... Ah, a escrita passaporte para a imaginação criativa,
dom demiúrgico de criar, criança
que se pega sabendo falar e nomeia como quem dá vida.
A fonte da juventude: no princípio era o verbo
ou dia de primavera florida?


E então a Escrita amadura no calor do verão vermelho
e aprende a voar lá para o alto e a ver o labirinto inteiro,
por cima das coisas da vida.
Surgem as abstrações infinitas: busca-se compreender o processo da Escrita
e o processo de compreender o processo,
espelhos na frente de espelhos e o mundo é reticências -
escrever sobre escrever
escrever sobre a Escrita
escrever sobre escrever sobre escrever a Escrita.
Pensamento obsessivo.
Penso, logo escrevo.
Dane-se a vida: palavra-Ícaro que quer alcançar o sol
e tem asas derretidas.
A alteridade se torna o sufoco da autocrítica
e o Eu quer ser visto em palavras bonitas como os biquínis das surfistas.
Os olhos de um Outro aqui dentro julgam a criação antes de sua criação
e travam o grito no espelho.
Verão:
estação em que a escrita de um Eu ilusório,
feito de certezas e memórias,
acredita que é a última palavra sobre a realidade...
até ser jogada de novo para sua história.


Mas é só lição de humildade, romper o ego no meio
e o sol é um pêndulo que volta para o escuro de onde veio.

E depois de voar para o céu e cair tão sal da terra,
a Escrita envelhece de tédio na maturidade do outono,
o oposto da primavera:
nada de novo se anuncia, folhas e cabelos caem.
Mas flores secas também são belas:
é época de colheita, de tirar do forno os bons poemas
que escaparam do impulso infantil e assaram por meses em espera.
Escrita madura. Sólida, calma, certa.

Até que se anuncie o silêncio,
e então do inverno nasça a Escrita que ainda não há.
No vazio verbal, palavras mudas se temperam à sua própria sorte:
me desapego do dito e volto para o breu da casa de dentro
para experimentar o eu, não o pensamento.
Canto desenho danço toco bongô violão tão mal
e feliz que ninguém escuta, porque o ato é um ritual
solitário.
Prendo a respiração para ouvir no peito o som cru de um coração arbitrário,
fonte do grito que não entendo e nem aspiro saber do que é feito:
a vida se enraíza nas sinapses do cérebro,
no lado direito.

...

Desconheço os misteriosos processos da Escrita
e minhas intuições têm a exatidão duvidosa
de uma meteorologista nessa Terra enlouquecida.
Não sei o que é gritado, não sei quem grita
e não sei por que cala, quando quer, a voz da vida.

Talvez porque o Eu nem saiba escrever.
Talvez porque o Eu não seja dono do grito.
Talvez porque o Eu só
... seja escrito.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Alicerces

Quase em frente a esta casa há uma mansão, imponente e ostentosa como uma mansão real deve ser. Desde o dia da mudança esta lhe chamou a atenção, até chegou a pensar em um momento, enquanto buscava a numeração da sua nova casa, “bem que poderia ser esta”...e em fração de segundos teve a fantasia de subir aquelas escadas de mármore, se perder em dezenas de aposentos, compartilhar aquela mesa de madeira de lei comprida com suas companheiras de casa e amigos. Enfim, não era aquela casa.

Dia após dia ela a admirava da janela do seu quarto, cada dia reconhecia um detalhe novo que não tinha percebido antes, como as maçanetas das portas trabalhada em tons de dourado, “provavelmente folheadas a ouro”, pensava. Os portões de entrada eram altos como de um palácio, oferecendo segurança para seus moradores, mas diferentemente de muros as grades não impediam que as grandiosas colunas se exibissem àqueles que por ali passavam e cobiçavam cada tijolo desta criação humana. Um belo dia ela comentou com as outras sobre a casa, a opinião quanto a sua beleza era unânime, assim como a estranheza de nunca terem visto seus moradores.

Mas a casa era habitada sim, luzes se acendiam, enaltecendo ainda mais a beleza durante a noite, assim como os jardins externos se mantinham sempre floridos e bem aparados...não entendia como, pois jardineiro algum foi visto por nenhuma das três vizinhas...também ouvia-se barulhos, vez ou outra um ruído de televisor, uma música não identificada, um tossido ou espirro menos discreto. Ah e como esquecer da garagem recheada de automóveis novos do tipo que qualquer homem desejaria...e também parados, o som do ruído de seus motores não era ouvido, ficavam ali apenas de enfeite.

Em um fim de tarde ela se encheu de coragem e foi bater a porta, ou melhor, tocar a estilosa campainha ao lado do portão, ao interfone veio uma voz fraca, como se estranhando que alguém tivesse ousado perturbá-la em seu reino. Um pouco assustada ela seguiu com seu plano e se identificou como vizinha, usando a velha desculpa da xícara de açúcar. O portão suntuosamente se abriu e ela entrou pelo caminho de pedras que havia até a porta principal. Não pôde deixar de reparar que as flores, grama e arbustos que tanto gostava eram artificiais, daí a explicação da impecabilidade dos mesmos.

Quando a porta abriu surge uma jovem mulher, muito arrumada e educada, mas de olhar triste e cansado. Disse viver ali sozinha, também não tinha açúcar, mas era nítido que a curiosidade existia da parte da moradora do palacete, que clamava por mais um pouco de prosa e dava indícios de um sentimento similar à carência, provocada pela solidão. A desculpa para entrar havia funcionado, ela não queria açúcar mesmo, então começou a conversar com aquela mulher de idade próxima a sua. Quando disse em qual casa vivia os olhos da outra se iluminaram e comentou “Nossa, morar naquela casa deve ser um sonho, os alicerces são belíssimos!”.

Espantada ela voltou a sua casa, não conhecia de arquitetura ou engenharia, e pela nomenclatura não soube identificar fisicamente o que seriam estes tais alicerces. Mas ao olhar sua casa pelo lado de fora e ao virar-se para comparar com a tal mansão, os reconheceu logo de cara. A sua casa foi construída em uma base sólida, tinha amor, tinha respeito, tinha sentimentos, tinha raiz, tinha vida. Adentrou sorrindo para as outras duas que colocavam a mesa do jantar, trazia consigo a mulher da casa ao lado, que logo tirou seus sapatos e se sentiu a vontade nesta estrutura simples, construída com o coração, e de valor imobiliário inestimável. Esta casa era sim muito real.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Sobre escritas


Olhar-se, conectar-se à solidão, à intimidade, rever as máscaras, tirá-las antes que elas grudem em você; são alguns elementos motivadores de matéria para escrita. Quando eu estava na faculdade, achava dificílimo escrever todas às vezes que me deparava com um texto de Fernando Pessoa, ou mesmo com a prosa de Machado de Assis; autores que aparentemente já disseram tudo. E como é que a gente escreve diante de textos tão belos e que atingem certa completude? Já que suas escritas salvam vidas.

No entanto, mora aqui uma vontade infinita de escrever, de traduzir aquilo que sinto ou mesmo por motivação; por experiência. Como se através das palavras eu começasse a ter um domínio, ainda que pequeno, sobre o mundo - assim como Clarice Lispector já propôs. Falando nisso, nessa semana conversei com um amigo via MSN e ele disse que ouviu no rádio uma canção que se parecia com algo que eu havia dito. Tal música eu fui conhecer depois, mas tive a sensação dele não ter gostado de ouvir os versos duas vezes. Sabe essa coisa de ser inédito? De ser preciso sempre? De descobrir e colocar em palavras aquilo que ninguém ousou?   
                                                                      
Palavras são refeitas, reescritas, revividas o que muda mesmo é o modo de dizer; o tempo, o espaço, o público, a circunstância. Uns dizem em voz baixinha, em textos engavetados. Outros a dispensam e vão aos palanques, às mesas de bar para serem ouvidos por muitos colegas. Alguns preparam auditórios... Ah, vou parar de pensar nisso senão vou deixar de escrever. Uma amiga ressaltou certa vez: “o artista falou, falou e o pior é que não disse.”

Na semana passada resolvi desacomodar as coisas e me lançar para lugares nunca idos, a não ser na escrita. E numa dessas aventuras (no sentido de ir sem roteiros turísticos ou afetivos) sentei no banco para assistir à reinauguração da casa de um poeta. Não conhecia as pessoas, e por não conhecê-las fiquei comigo. As senhoras chegavam e se cumprimentavam, algumas usavam chapéus e sorrisos emprestados, os homens de terno ensaiavam discursos; protocolos que compõe esses eventos.

A casa do poeta agora é patrimônio cultural. Ainda assim não pude adentrar na casa, fiquei no quintal. Às vezes a gente vai buscar arte e acaba sendo recebido pela política enviesada; de lobbys e interesses pessoais. Mas fato é que se sentar no meio dos saltos, ficar mais perto do asfalto do que do palanque, nos dá uma sensação de não pertencer a nada e as palavras parecem brotar dali, escapar pelas pontas dos dedos e aparecer no papel sem ao menos forçarmos a imaginação. Fiquei desarticulada, mas as pretinhas articuladíssimas, se reconhecendo uma após a outra. Talvez eu tenha esquecido todos os textos já lidos, porque as danadas saíram livres... E depois de colocadas; procurei a tradução para o que tinha presenciado, e esse mesmo poema que nasceu clamou por uns versos lidos em voz alta de Guilherme de Almeida:

"Íngreme, estreita, escura e curva é a escada que sobe para minha mansarda. Capaz de desanimar os velhos fôlegos cardíacos, nunca, entretanto, intimidou meu já muito vivido coração. Pelo contrário: leva-me leve, alado como os anjos da escada de Jacó. Jamais me arrependi de tê-la subido. Sempre me arrependi de tê-la descido. Porque é mesmo uma ascensão ir pelos seus degraus acima: um desprendimento do rasteiro, numa ânsia de quietude, isolamento e sonho, para o pleno ingresso nos meus Paraísos Interiores."

A poesia sabe mais do que o poeta e do que qualquer um. O importante é subir as escadas, desligar-se das horas vorazes e adentrar nos “paraísos interiores” do artista, para que deles possamos encontrar os nossos. 

Priscila

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Falha técnica

Aqui no mundo real estou com um probleminha no lap top que não me deixa ficar com ele ligado mais do que 20 minutos. Deve ser o ventilador, porque ele está esquentando muito.
Até tentei escrever a mão, mas descobri que sou mais viciada no word do que na internet.
Venho na semana que vem, escrevendo de Rio Preto, onde espero que o computador não esteja febril (me disseram que o calor da terrinha está de derreter os miolos).
E na semana que vem tem encontrinho real da nossa casa!!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Tim Tim

Final de ano é uma comemoração atrás da outra, e na casa não se fazia diferente, as três comemoravam diariamente toda e qualquer novidade, um novo quadro, uma nova canção que toca, um novo adereço. Sexta-feira e ela ainda se recupera da comemoração de quarta-feira a noite, afinal foi uma celebração extraordinária, um mês desde o início, da mudança, da constituição desta casa.

Era feriado em alguns locais, dia de Imaculada Conceição, mas não na casa. Aqui não há dia útill, horário comercial, final de semana ou feriado, ela está sempre aberta, e assim esteve durante todo este mês. Era uma ocasião especial e cada uma estava no seu quarto, se preparando para o evento, e podiam-se ouvir os pensamentos nervosos delas quanto a recepção, se os convidados compareceriam, se viriam acompanhados, se haveria comes e bebes suficientes para que as pessoas se sentissem satisfeitas, se as acomodações eram aconchegantes a ponto de deixar todos a vontade e com desejo de voltar outro dia.

E assim uma delas foi a primeira a ficar pronta e lindamente deu início, foi a primeira a se apresentar a um público inicialmente tímido, muitos não sabiam do que se tratava e adentraram pela curiosidade, mas ali permaneceram, na expectativa do que viria em seguida. E veio aquela elegantemente vestida em preto e branco, conquistando outros novos participantes e mantendo a atenção dos que já estavam ali presentes. E a terceira carregou mais alguns festeiros para a sala de estar, e encerrou o primeiro ciclo, deixando a impressão de que outros virão.

A celebração continuou em meio a sonhos, casas, encontros, visitas, e a receptividade dos convidados era contagiante, atraindo outras pessoas que passavam na rua e nunca haviam visto estas mulheres, ou desconheciam seu novo lar. Ouvia-se pelos cantos: “De onde surgiu esta casa?”, outros mencionavam nomes de arquitetos responsáveis que elas mesmas nunca ouviram falar, e continuavam “São três irmãs que vivem na casa?”, e afirmavam “não são irmãs, porém traçam juntas cada ornamento nos mínimos detalhes antes de abrir aos visitantes para que haja entrosamento”. As três anfitriãs trocavam olhares e sorrisos de cumplicidade por terem, despretensiosamente, despertado tais reações, e ganhavam confiança a cada comentário para um próximo ciclo, uma nova apresentação.

Após trinta dias, elas vivem a emoção de um amigo secreto diário, a cada visita que surge de origem desconhecida, com ou sem recomendação, contabilizadas anonimamente ou através de declarações explícitas de entusiasmo, elas se revelam. Na quitanda do bairro, no farol do trânsito, na caixa de correio ou dentro de suas próprias casas (as outras casas reais) elas são abordadas e surpreendidas por pessoas que já lhes visitaram em sua casa imaginariamente compartilhada e tem algo a dizer a respeito.

Em uma casa real, hoje seria dia de arrumação, juntar e lavar louças, encerar assoalho, levar o lixo para fora. Mas nesta casa não, aqui a festa continua todos os dias, e o acúmulo de pessoas e os rastros destas que por aqui passam, a tornam cada vez mais imaculada. Que as visitas retornem, que haja sempre espaço para os novos, e que venham mais trinta mil dias desta fluidez natural de tríplice irmandade não combinada, a qual surpreende até mesmo cada uma das mulheres que aqui vivem. Saúde!

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Trouxeste a chave?

- Para quê?

Não estou conseguindo dormir. Tem uma menina sentada na calçada, não é possível ouvir sua voz, sua sombra dá para o portão dos fundos e às vezes ela parece chorar. As horas passam e ela não se utiliza do corpo, não ameaça qualquer movimento brusco. As lágrimas caem, eu sei, mas não por vontade própria.
Essa menina saiu do teatro municipal quando não tinha mais ninguém na plateia, muito tempo depois que as luzes se apagaram, e pelos ecos ouvidos do lado de fora parecia gritar sem parar. Ela usa uma língua outra, tão diferente das quais estamos acostumados. Não fala goodbye, não lê revistas, não vai ao supermercado, não toma banho, não tem carro ou viagem marcada. Ninguém a vê nos eventos da cidade, não sei nem se frequenta a escola.

Ela sentada embaixo da lua parece saber mais do que qualquer almanaque divulgado por trinta anos seguidos, todos os dias, em edição condensada, e ainda assim atingindo um número de 130 páginas diárias na Folha de São Paulo. Ela não sabe sobre os acontecimentos, só da lua estática lá de cima. Não sei se tem afinidades com alguém, ela não revela sentimentos e parece não se equivocar. Não sofre com a falta de dinheiro, estou pensando em como é que ela se banca. 

Acha tudo imprestável; o menino da esquina lhe ofereceu um doce, um sapato novo, uma bola de papel; ela não quis, continuou observando a lua e deixando as lágrimas tombarem quando não couberam mais dentro dos olhos. 

Essa menina-solidão não fala do mundo, mas para o mundo. Muitos já lutaram para conseguir conhecê-la, mas só ela nos reconhece e sem maiores intimidades consegue transfigurar o que nos rodeia. Possivelmente adotando petúnias “das vilezas do chão”. Talvez seu amor cantado no escuro seja o álibi perfeito para muitos suicídios, ou, para os mais otimistas; salvação. Não sei com certeza, porque ela não fala assim tête-à-tête, então acaba dando margem, abrindo uma terceira margem para muitas interpretações. 

Uma página em branco a assusta, a faz tremer e quando deixa nela pingar uma letra; acaba jorrando o pote todo com mais pretinhas que provocam, porque não falam Nada; nada sobre o tempo úmido, sobre o show de quinta-feira passada. Essa menina tira as redondas da penetração, do gozo chocoso e deixa espirrar na nossa cara a falta danada da falta. Não se atreve a falar do amor em voz alta, em horas contadas.

Serve-se da lua refletida no chão, dos gafanhotos que brincam em seu centro, e que se agrupam um atrás do outro como renas; até fazerem um trenó que se reflete lá em cima, que faz a gente pegar emprestada a imagem de um símbolo de outro país, dos filmes reprisados em vésperas da chegada do peru.
Trouxeste a chave? Essa menina está ali sentada, vamos abrir a porta e deixá-la tecer algo que precisa ser renomeado, mas que para nós em tom anunciado chamam de Natal. Natal de promessas para ser feliz; Natal de árvores mágicas fincadas no chão. Natal de menina desenhando trenó na lua.

Abramos então a porta e deixemos a menina entrar e construir imagens com as palavras que nos faltar. Há casas que se compõem de atos, ruídos, mobiliário, televisão; essa aqui é muito engraçada e se faz com palavras, com gramática quase insana, de relacionamento voluptuoso. Por aqui não existe rei nem regências; mas “uma certa luxúria com a liberdade que convém” até, para quem quer trazer o Natal. 

Priscila
 



segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A árvore de natal



Casa enfeitada, só faltava a árvore de natal.
Fomos para o bosque além do jardim à procura de um pinheiro bonito. Achamos um bem gordinho, de um verde intenso e ardido que fazia destacar. Perguntamos se ele queria virar árvore de natal de uma casa imaginada e ele topou no ato – imaginem só, poder andar e conhecer as gentes do reino animal, claro que ele queria. (Talvez fosse como um visionário dentro daquela população: todo lugar tem seu fujão, como a Anthônia diria.)
Veio se equilibrando sobre as raízes como uma bailarina na ponta. Curvou-se respeitoso para entrar na casa, e escolheu ficar ali no cantinho mais escuro da sala, perto das almofadas macias onde as visitas costumam fumar narguilé.
Pedimos que se sentisse livre para se enfeitar como quisesse, e ele devagar foi relaxando e deixando seu instinto o recriar: tateou o chão com as pontas das raízes, que foram encontrando as porosidades do concreto até tocarem o solo vivo, se aprofundando na terra. De pé, enraizado, se espreguiçou para experimentar um tamanho ideal e olhou por algum tempo para nós e para a casa, numa meditação vegetal.
E então, esticando com surpreendente flexibilidade os seus ramos curiosos, foi pinçando aqui e ali algumas coisas que costumamos guardar como significados ou memórias encarnadas: pedras bonitas de um rio tranquilo, animais em miniaturas, bonecas russas que moram dentro de outras que moram dentro de outras, uma romã seca do jardim, dobraduras em guardanapo com o formato de uma refeição especial. Embrulhou-os com papel vegetal antes de deitá-los aos pés, seu grande presente de natal para as três: o que temos de mais Real, lembretes a cada instante das coisas que somos de fato. (“Bobagem, né” - a Fer comentou-, “lotar o momento presente com ideias sobre quem gostaríamos de ser.”)
Nossos desejos, vontades e pedidos pra Santo Expedito não foram difíceis de encontrar, não: estavam dentro dos muitos balões de pensamento que flutuavam pela casa, alguns até se acumulando no teto e fazendo força para cima, quase arrancando a ardósia do chão. Sem dizer nada, fez deles bolinhas douradas e se adornou feito uma cigana vaidosa.
(A Pri, pensativa, falou que os presentes importantes ele já nos tinha dado, o resto era só de enfeitar.)
E então, por último, subiu por além de todas as atmosferas e pegou as Três Marias para se coroar. Escreveu nelas nossos nomes para que, quando nos perdêssemos demais pensando em nós mesmas - presentes que somos -, ou em nossos desejos - enfeites que mudam com o tempo -, nos lembrássemos de olhar para cima. E de ver com olhos virgens, em toda noite aberta, nosso nome projetado lá longe, em estrelas que têm a mesma matéria que compõe a nossa carne e que, acontecendo há tantos milhões de distâncias – onde o tempo se dilui no espaço até o universo começar -, mostram o infinito de possibilidades em que podemos nos perder, nos encontrar.



Possibilidades infinitas:
fé é o estado natural
para quem flui com a vida.
Pés fincados no Real
desejos como adereços
e o céu coroando a cabeça -
onde há espaço de sobra
para crescer em si mesmo.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Resoluções

O Senhor da Razão bateu na porta e elas se entreolharam. Era tarde da noite e as três estavam no quintal contemplando seu novo jardim, finalizado esta semana, enquanto debatiam novos planos de decoração. Ela se levantou, abriu a porta e recebeu um ofício das mãos deste senhor sinistro, que logo se foi, como de praxe ele sempre passa rápido quando o queremos por perto. As outras a aguardavam ansiosas para saber o que continha em tal documento, e ela leu em voz alta: “Foi decretado oficialmente o início do final do ano”. Silêncio, frio na barriga, foram dormir.

Ao deitar na sua cama, não se aconchegou de bruços para dormir, e sim de costas mirava a luminária com os olhos parados, como se literalmente buscasse uma luz. Não estava perdida, mas refletia sobre a notícia há pouco recebida, indignada como ela não percebeu antes que isto aconteceria, que o ano acabaria. Abriu a gaveta e tirou uma folha intacta, várias linhas escritas por seu próprio punho. Que vergonha desse pedaço de papel! Ele está intacto porque em momento algum ela se lembrou de voltar a lê-lo, e há quase doze meses ela havia prometido que lhe faria visitas semanais. O papel refletia aquele olhar de “Imperdoável, minha cara”, e ela mesmo assim resolveu encará-lo, linha por linha, mesmo sabendo que cada uma delas seria como um tapa na face. A primeira linha foi surpreendentemente indolor, o que não aconteceu nas próximas.

Abriu a porta do armário e se olhou no espelho atrás da mesma...sabia que não estava com o corpo da Gisele, inclusive nem passou na porta daquela academia que ela tinha visitado e jurado que frequentaria, e continuava a sentir urticária só de imaginar aqueles barulhos dos pesos dos aparelhos de musculação. Convencida de que não cumpriu, porém sem arrependimentos, se limitou a riscá-la da lista futura, “Vamos manter a coerência desta vez”, pensou. Abriu sua carteira e viu que também não havia ganhado dinheiro como o Eike, apesar de ter trabalhado muito, mas ganhou o suficiente para suas necessidades e até alguns caprichos extras, e o melhor de tudo, com sua cabeça leve no travesseiro todas as noites.

Assim foi, esmiuçando item a item, passando pelos mais inviáveis, financeiramente e temporalmente, como dar a volta ao mundo em 30 dias, até àqueles que não lhe faziam mais sentido, por incluírem pessoas e hábitos que foram encerrados no mesmo pacote de alguns de seus ciclos vitais, naturalmente. Mas em um determinado ponto da lista ela parou e sorriu realizada, as letras brilhavam como holofotes de programa de auditório que anunciam “Você Venceu”, e isto a fez se virar e dormir como um anjo.

No outro dia, logo cedo, aparentemente as três tiveram a mesma idéia, e logo a casa estava lindamente bagunçada, suas vozes animadas e gargalhadas ecoavam, cada uma havia resgatado de seus maleiros caixas de artigos natalinos. Sentaram no chão em meio aos arranjos de todos os tipos, e juntas iluminaram a casa, como se mostrassem para aquele senhor que a mensagem foi compreendida, e que estavam preparadas.

Enquanto uma colocava música típica e a outra subia ao banco para pregar as luzinhas, ela rapidamente voltou ao seu quarto e resgatou mais uma vez a lista. Todos os itens riscados, com exceção de dois deles. Aquele primeiro item indolor, que lhe mandava “Ser feliz”, o qual julgava extremamente fácil cumpri-lo pela forma que se sentia hoje; e também aquele item brilhante, que era dono de uma vividez inabalável.

E assim, voltou para mostrar às outras a lista que fez para o próximo ano, a qual foi plastificada, enrijecida para durar muitos e muitos anos, resumida àquele item vivo e radiante, o qual certamente lhe completaria por todos os outros: “Escrever mais”.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A matéria de que são feitos os sonhos (The stuff dreams are made of – Shakespeare)

Escrevo para achar as respostas. Escrevo para tentar explicar a vida que se faz diariamente dentro de mim. Escrevo para me desnudar. Escrevo para tentar explicar o que não se explica. Escrevo para mistificar o que sou. Escrevo para construir um lar. Escrevo para me encontrar e me perder. Escrevo para revelar desejos, para descobrir vontades. Escrevo para me (re)construir. Escrevo para ser, ainda que essa escrita nasça frágil, capenga, confusa, com volume baixo, sem falo; ela também sou eu. Escrevo para expor o coração, mesmo que meus sonhos se sobreponham ao que sou. Escrevo então para me salvar! Escrevo - logo existo - e, assim, fico livre de mim!
            E nessa escrita quarta peguei emprestada as asas do último aniversário da Erika: “É traje para fantasiar-se”, disse. Pedi ajuda para Fer, para que encaixasse certinho e deixasse que a separação das duas asas ficasse exatamente no meio, na minha coluna, naquele osso extenso que começa na nuca e termina com o nome de coquis. Fui para o jardim e encontrei uma árvore enorme, centenária, com as raízes fincadas no chão. Era a nossa conselheira, sempre que temos um problema a abraçamos e de sua força vinda da terra e do sol voltamos a fazer o caminho. Cravei os pés, as mãos em seu troco, e sem medo de cair subi. As asas estavam pesadas, para que afinal eu precisaria delas? Seria necessário um peso-asa para materializar meu sonho em tê-las? É preciso colocar asas para subir numa árvore, como tentativa de alçar voos? Decidi abandoná-las e desci, percebi que sua força estava na terra, assim como a minha deveria estar.  
Meus pés estavam pelando e de tão marrons e machucados adentrei na casa. Queria antes organizar os estranhamentos. São três quartos, três camas, três escovas de dente, três louças, “tríade, trinômio, trindade, trímero, triângulo, trio, trinca, três, terno, triplo, tríplice, tripé, tribo.” Ainda bem que três é ímpar. Tinha um vazamento na geladeira abrindo pares de águas pelo chão. Mas o rapaz do conserto veio logo.  
Como as coisas desorganizam a vida. Após a geladeira arrumada, faltava ainda lavar a louça de antes do café, tirar a poeira dos livros, a cama que ainda estava por fazer, o filme por alugar. Os telefonemas todos, as revistas no chão, as roupas na lavanderia, o menino do vizinho chorando... A vida e seu amontoado de coisas. Contudo da janela do quarto, da poeira, havia algo que se ressaltava, algo para além da desorganização da casa, uma força, uma beleza que me fazia mergulhar de corpo e alma em páginas brancas e ai era: “vivê-la ou morrê-la enquanto vive”, como numa decida de snowboard; uma experiência única, confusa, doída que transbordava do cotidiano.

 É dessa vida-lar que encontrei matéria para tentar escritas, ainda que sejam de sonhos, e sonhos têm começo, meio e fim, até para que eles possam ser ressignificados, refeitos, revividos em outras formas. Dessa casa que construímos, com os alicerces fincados no chão, organizada ou desorganizada, podemos alçar voos sem a necessidade de asas fantásticas, sem vaidades. Dela extraímos a coragem para descobrirmos o mundo, desbravá-lo e depois termos para onde voltar, para que, então, a viagem possa ser refeita.
Com o lar construído o céu passa a ser o limite.

Priscila

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Mais sobre casas reais

Héstia, deusa grega da lareira. Esse projeto Theoi é genial.


A gente sabe daqui do fundo quando a casa vira um lar. Sabe igual o cheiro de um bolo pronto, o bem-estar de uma postura correta, um bocejo espontâneo em que se entrega ao vazio e se mata a sede de ar.
Tive muitas casas em minha vida, mas só dois lares: o da infância e o de agora, um apartamento que no começo era um vazio pequeno ocupado por objetos, bando de sem-tetos inanimados que não se comunicavam entre si. E eu e meu marido, perplexos com as coisas reunidas de duas vidas e sem saber como encaixá-las, objetos e histórias. Respiramos fundo, compramos cerveja gelada e toleramos nossos limites, espalhando as etapas de arrumação em muitos meses.
Demorou, mas fizemos sozinhos cada detalhe: o colorido nos contornos-paredes da casa, as dobras do espaço com os móveis, o lugar e função para cada o objeto. E o tempo foi passando e as coisas foram se acomodando, fazendo seu puxadinho no ambiente, se fixando nos cantos.
Mas um dia, arrumando a minha casa, percebi que alguns objetos insistiam em passear, ciganos, pelos cômodos, e se aventurar em outros lugares da casa. Que a perspectiva do meu olhar para eles mudava constantemente. E – não sei se porque eu estava alegre, ou porque o beija-flor tinha ficado uns trinta segundos me encarando da janela - me deu uma sensação tão grande de possibilidades, de novas formas dentro das fixas necessárias, de fluidez, que eu nem sei explicar.
Eu acredito que a relação poética entre as coisas e eventos é a fonte da criatividade para o olhar surpreso para o mundo* , e que essa relação se mostra quando abrimos nossa alma para elas. E foi em um momento assim, em que dois objetos nômades se encontraram dentro de mim por um acaso arbitrário, que percebi que era da relação com as coisas da minha casa – e, por extensão, da minha cidade, do meu universo inteiro – que brotava o meu eu** cotidiano, tecido a partir das imagens cultivadas na minha cabeça (e alimentadas por toxinas ou por húmus do passado, conforme a minha escolha). E que o meu lar era o jardim em que eu podia refletir o cultivo íntimo na tela da minha rotina. Aquele era o MEU espaço, e minhas coisas eram bússolas e placas orientando meu trânsito pelo rumo cotidiano.
Por ser, em si, uma morada – para o homem, para os filhos, para si mesma -, a mulher se mistura com a casa, amálgama de carne e concreto, ossos e estrutura. E a casa pode ser o seu peso ou o seu templo de conexão com o milagre de todo dia, com a calma de fazer as coisas com começo, meio e fim*** e, dentro do ciclo contínuo, perceber a própria pulsação.
Enraizar, crescer, florir e dar frutos. E se mudar quando o espaço ficar pequeno demais para o tamanho da árvore – porque, afinal de contas, somos humanos e nossas raízes são móveis.

... e, assim, na rotina construída e tranquila da escrita semanal, vou me enraizando nessa outra casa, que também está se tornando um lar. Boa semana, meninas.

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* E poucas mulheres aprendem que o olhar surpreso para o mundo é o segredo da juventude eterna.
** ... esse conceito inventado, feito de memórias e percepção cognitiva de continuidade - porque é evolutivamente vantajoso ser assim, não porque o “eu” seja alguma coisa que de fato exista.
** *Ao invés de deixar tudo em aberto, se atropelar e empurrar pra depois, construindo a própria ansiedade.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Uma Outra Casa

Foi uma semana agitada nesta casa, entre transes e mergulhos, a vida continuava porta adentro. Mas hoje ela decidiu que sairia em busca de novidades para compartilhar com suas companheiras, afinal o melhor de se ter uma casa é poder sair, viver, desbravar, e depois ter para onde voltar com segurança e muita história para contar. Mas ir para onde? Entre o triste caos que se encontrava mundo afora, em que as lágrimas escorriam do rosto do nosso Cristo Redentor, seu coração desejava encontrar um canto de paz, onde reinaria o bem e a alegria.

Pensou em ir embora para Pasárgada, mas não era de amizade com o rei que ela precisava, tampouco de grande aventuras, a sua única vontade era encontrar outras semelhantes que a entendessem por sintonia, identificação. Mulheres, só elas mesmas para se compreenderem... e olhe lá. Passou em sua mente aqueles lugares comuns como salões de beleza, shopping centers e portões de colégio...credo, se surpreendeu pelo pensamento machista e antiquado. Não que ela não gostasse de se cuidar, de fazer compras ou sonhasse em um dia buscar seus filhos na escola, mas sabia muito bem que mulheres são capazes de ocupar qualquer lugar do planeta, sem limites, basta querer.

Saiu pela vizinhança, caminhando na rua tranquila e arborizada, pensamentos distantes, quando uma casa de portão branco se destacou, não pela casa em si, mas pela luz que irradiava de suas portas e janelas. Curiosa como é, se aproximou, e antes que tivesse coragem de mexer no cadeado para se certificar de que estava trancada, uma senhora surgiu atrás dela, “Pode entrar, o cadeado está só pendurado, a casa está aberta”. Tomou um susto, claro, e silenciosamente fez sinal de que esperaria do lado de fora por enquanto, e a mulher sorriu como se soubesse que ela voltaria atrás nesta decisão, e entrou com seus passos firmes, carregando em seu antebraço direito um livro grosso com uma capa de matelassê estampado, um charme.

Continuou a observar a casa, o jardim e as plaquinhas de madeiras com dizeres lhe convidavam a entrar, mas ela não sabia o que lhe esperava, e conservadoramente recuou para o outro lado da rua, um ponto que a permitia continuar o processo de vigia. Mais e mais mulheres chegavam, todas muito diferentes fisicamente, não tinham a mesma cor, idade, classe social, credo ou estado civil, somente o sexo. Reparando bem elas tinham outra semelhança além de serem mulheres, elas demonstravam atitude em seu jeito de caminhar, demarcando pé ante pé a que veio ao mundo, juntas exalavam determinação como uma alcatéia. Uma leve inveja lhe bateu ao constatar que gostaria de ser como elas...e ao mesmo tempo, sem se dar conta como, já estava dentro de uma sala com todas elas.

A recepção foi calorosa, inexplicavelmente como se ela frequentasse ali há muito tempo e conhecesse cada expressão daqueles rostos, e mais do que depressa essas amigas lhe emprestaram um dos livros para que acompanhasse a leitura em círculos. O sino tocou e elas entraram em uma outra órbita, em contos antigos e incrivelmente atualizados com a realidade vivida por cada uma delas...naturalmente as discussões brotavam, desabrochavam e floresciam, assim como ela no centro da mesa. Vozes na sala ao lado cantavam para os ossos, em um coral que bradava beleza e bons fluídos.

E assim surgiu uma rotina, todas as semanas ela estava lá, se abastecendo de cultura e selvageria entre aqueles cômodos abençoados por livros, filmes, músicas, quadros e gestos humanos...às vezes encontramos mulheres chorando, na maioria das vezes gargalhando, mas sempre se iluminando e transbordando em auto-conhecimento. Ontem houve a confraternização de final de ano desta casa, e para ela foi uma consagração de um amor cada vez maior por este grupo de mulheres que correm com os lobos.

Obs: Para quem quiser conhecer esta casa, ela realmente existe: www.casadasflores.art.br

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Mergulho

Da porta de madeira de lei que dava para o jardim, encontrei rosas brancas que de tanto florir criaram teias de pétalas e espinhos de pontas falsamente arredondadas. O roseiral cobria uma lona azul marinho. Aos poucos fui retirando as rosas vivas, mortas e as pequeninas que desabrocharam em sua pequenez, mas que ainda assim se mostravam rosas.
Algumas vieram escurecidas pelo tempo, pelo vento, pelo orvalho. Havia um mar de águas, algo a ser descoberto, e na mistura de rosas e gotinhas e lonas de aparência áspera, mas que ao tocar eram macias, fui retirando o que a encobria. Após a descoberta, valeu a pena o cansaço da tensão. Ainda que por olhar o que se toca, se sente, mas o que não se pega.
Era extensa, de azulejos quadriculados, não se via o chão. Límpida e escusa, aguada fiquei na pontinha dos dedos na tentativa de ter a dimensão de seu fim. Como não o enxerguei, quis mergulhar, mas as profundidades ainda me assustavam, faziam zunidos no ouvido, embaralhavam a visão, prendiam a respiração e me deixavam longe da superfície. Olhando debaixo para cima e, por vezes, por mais que nadava, não dava para respirar o ar, mas águas.
Toquei-a rapidamente e a provei, era doce, quentinha de banhos solares. A traiçoeira fazia ondinhas, sugeria entregas. Abri os braços, pressionei as pálpebras, deixei que as águas penetrassem em meus sapatos, no náilon de minha blusa, que me absorvessem e não me deixassem recordar nenhuma operação antiga. Não tentei respirar, me rebater, buscar a vida que já conhecia na superfície. Relaxei os lábios e deixei que elas escorregassem pelos riscos de meus dentes, as entradas foram me levando para um roseiral que estava enraizado profundo, distante a olho nu.
Entregue à entrega fui me desnudando, me desamarrando das roupas antigas que realizavam caminhos inversos ao meu. Nua, cheirei as rosas que  brotavam debaixo, que protegiam e acariciavam meu corpo. Avistei a porta de madeira de lei, ela sinalizava uma abertura ao contrário. Estava tomada por sensações vivas de vidas que entravam pela porta dessa casa, que se faz profunda na medida em que só se pode descobri-la nas entregas, nos gostos de rosas dos cardápios não feitos. Na liberdade do corpo, no prazer em se lançar. Na tentativa de se descobrir na casa compartilhada, que de tão íntima, se faz dentro de nós. 

                                                                                    Priscila